Cap. 21 Enquanto Ela Não Sabe

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Lauren:
📅31 de outubro — Escorpião
Lua: Áries
Camila:
📅12 de setembro — Virgem
Lua: Peixes

Dante — nascimento
📅 21 de julho 🔮 Signo: Câncer (cuspindo em Leão)

Camila 5 anos - 23 anos.

Acordo com o gosto de tequila ainda grudado na língua.

Não é memória. É presença física, ácida, persistente. Sento na borda da cama e encaro meus pés tocando o chão frio. A cabeça lateja. O corpo pesa como se cada célula carregasse arrependimento.

Respiro fundo. Uma vez. Duas.

Levanto devagar, cada passo até o banheiro medido, contido. O espelho me devolve um olhar que não reconheço direito. Olheiras profundas. Cabelo bagunçado. A mulher que me encara parece cansada de fugir.

Ergo minha mão e mexo no metal frio da aliança. Tiro do dedo e deixo a luz do banheiro brincar com as letras gravadas por dentro. Lauren G.M.C. O nome reluz como uma acusação silenciosa.

Pego o telefone e faço a ligação, ele toca. Uma vez. Duas. Na terceira, a ligação é atendida.

— Eu vou te matar, Camila.

A voz de Mendes está rouca de sono, mas tem aquele tom que conheço bem. Preocupação disfarçada de irritação.

— Ele está bem?

— Sim, ele está bem. Está vivo e está dormindo. — A voz de Mendes carrega aquele cansaço de quem foi acordada cedo demais. — E olha, safada gospel, num domingo essa hora você deveria ter comemorado seu aniversário com a Tori transando e agora estar dormindo igual gente normal.

Escuto um barulho abafado, como se ela estivesse se afastando do telefone.

— Espera, Ed... — a voz dela fica distante, mas ainda consigo ouvir. — Aposta quanto que a safada gospel chorou no sexo de novo?

Meu peito aperta. Fecho os olhos.

Mendes volta à linha, e sua voz muda completamente. Mais suave. Mais cuidadosa.

— Camila... você lembrou da Lauren de novo?

Não respondo de imediato. Sento no chão frio do banheiro, as pernas sem forças, o telefone ainda colado no ouvido. As lágrimas vêm antes das palavras.

— Eu queria ela aqui pra comemorar — sussurro, a voz quebrando no final.

Seguro a vontade de chorar. Não sei se é alívio ou vergonha ou só cansaço.

— Estou indo para casa. Só queria saber porque ele fica agitado quando não estou em casa.

Escuto ela suspirar do outro lado. É o tipo de suspiro que diz tudo sem precisar de palavras.

Desligo.

O banho é quente demais, mas deixo a água queimar porque dor física é mais fácil de lidar. Quando saio, a batida na porta é suave, quase hesitante.

— Fiz o café da manhã antes que você fuja.

Tori. Reviro os olhos mesmo sem ela ver.

— Eu não posso. Dante deu trabalho para Mendes e Edward. Eu vou para casa.

Silêncio. Depois, aquela voz que sempre carrega mais verdade do que deveria:

— É por isso que eu não gosto de crianças.

Algo se rompe dentro de mim. Não é raiva. É cansaço.

Abro a porta. Encaro ela.

— Eu não te obriguei a ficar comigo. Você que segue me procurando. E já sabia que tinha essa "carga", como você diz.

I Have Questions (Trans version MTF)Onde histórias criam vida. Descubra agora