A primeira vez que a vi, ela estava parada sob a chuva de pétalas, observando o jardim como se não pertencesse a este mundo. Havia algo de estranho nela — não no rosto ou na postura, mas na ausência de pressa. Como se o tempo não tivesse domínio sobre seus passos.
"Você é Kamisato Ayato," ela disse, sem se curvar, sem formalidades. Aquilo, por si só, já teria sido motivo para desgostar dela. Mas não desgostei.
"Sim," respondi, intrigado. "E você seria...?"
"[Nome]. Só isso."
Ela não explicou por que estava ali, tampouco pediu permissão para caminhar ao meu lado. Apenas o fez, com a confiança de quem sabia que, de alguma forma, eu permitiria.
Nos dias que se seguiram, ela surgiu como um sussurro recorrente. Às vezes sentada nos jardins, outras vezes em uma sala do clã onde não deveria estar — mas sempre com um motivo tão vagamente convincente que minha guarda, por mais que tentasse, não se levantava.
Era diferente. E eu, tolo que sou, sempre fui fascinado pelo diferente.
Não demorou para que ela se tornasse constante. Meu chá da tarde. Minha conversa entre uma reunião e outra. Um toque leve no braço. Um sorriso que não se abria por completo, mas dizia mais do que eu podia entender.
"Você é estranho, Ayato," ela disse uma vez, enquanto observávamos lanternas flutuando no lago. "Você é importante demais pra ter tempo pra mim."
"Talvez seja por isso mesmo que eu tenha tempo. Com você, eu não preciso ser importante."
Ela não respondeu. Apenas olhou para frente, como se o céu não fosse grande o bastante para os pensamentos que passavam em sua mente.
O que eu não sabia — o que talvez, no fundo, eu me recusasse a aceitar — é que ela não estava ali por acaso. E que, a cada passo que dava em minha direção, a lâmina que ela escondia em silêncio era afiada por memórias que eu nunca conheceria.
Foi numa noite silenciosa, como tantas outras, que eu percebi: eu a amava.
Não foi um momento grandioso, nem palavras ditas em voz alta. Foi algo pequeno, quase imperceptível. Ela estava me ajudando a tirar a capa molhada da chuva, as mãos frias e precisas, quando seus olhos encontraram os meus. Não havia calor ali. Mas havia verdades.
"Você confia em mim?", ela perguntou.
"Com minha vida."
A resposta veio antes mesmo que eu pudesse refletir. E o sorriso que ela me deu em seguida — curto, próximo do debochado — deveria ter sido o suficiente para me fazer recuar.
Mas tudo que fiz foi me aproximar.
Talvez eu quisesse acreditar que era amor, que por trás daquela frieza existia um sentimento escondido, esperando para ser salvo. Talvez eu tenha me apaixonado pela ideia de salvá-la de algo que nem mesmo sabia o que era.
E ela, sempre impecável, soube exatamente quando me deixar cair.
Na próxima noite, ela desapareceu.
E eu soube, ali, que algo estava prestes a se quebrar.
Três dias se passaram sem sinal dela. As flores do jardim murchavam mais rápido do que o normal, ou talvez fosse apenas minha esperança apodrecendo.
Quando ela voltou, não trouxe desculpas. Apenas apareceu diante de mim com o mesmo olhar sereno de sempre, como se tivesse ido apenas buscar o vento.
"Senti sua falta," ousei dizer.
"Não deveria," foi tudo que respondeu.
Mas me abraçou. Um toque gelado, firme demais, como se estivesse medindo meu coração com os dedos. O tipo de abraço que não acalma, mas marca.
Houve um momento — breve, cortante — em que pensei ter visto algo em seus olhos. Não tristeza. Não culpa. Mas hesitação. E isso me bastou para fingir que havia esperança.
"Você voltou para mim?"
Ela demorou a responder. Olhou o horizonte por um instante longo demais.
"Ainda não terminei o que vim fazer aqui."
E mesmo assim, deixei que dormisse ao meu lado naquela noite. O som de sua respiração era calmo, mas em mim havia tempestade. Porque, pela primeira vez, temi que meu amor fosse, na verdade, meu fim.
Mas já era tarde demais.
A madrugada chegou sem aviso. O som das ondas batendo nas pedras parecia distante, como se o mundo fosse uma pintura em um museu sem vida. Ao meu redor, tudo estava calmo — ou pelo menos parecia estar.
Eu ainda podia sentir o calor de seu corpo perto de mim, seu cheiro doce misturado ao sutil perfume de veneno. Mas era tarde demais para perceber que aquele silêncio era o que me matava lentamente.
Quando ela se levantou, não houve palavras. Apenas a leve pressão dos pés no chão frio. Não ouvi a lâmina sendo retirada, mas a vi refletida na luz fraca da lua.
Olhei para ela, e meus olhos buscaram uma explicação que não existia. Seus olhos, frios e impenetráveis, finalmente encontraram os meus. Havia um sorriso ali, pequeno, quase imperceptível.
E então, sem um som sequer, ela me cortou.
A dor veio como um clarim anunciando o fim. Não pude sequer gritar. Apenas a olhei, em um último momento de desespero, de tristeza. Mas ela não se moveu. Não se apressou. Apenas esperou enquanto a vida escorria de mim.
E antes que a escuridão tomasse minha visão, ouvi suas palavras, baixas e quase indiferentes:
"Eu não amei você, Ayato. Eu nunca amei."
E então, o silêncio.
"Você… nunca… amou…?" As palavras saíram com dificuldade, quase um sussurro.
Ela não respondeu imediatamente, como se estivesse saboreando cada segundo da dor que eu sentia. Então, lentamente, ela se inclinou, a lâmina em suas mãos refletindo a luz da lua, agora fria como o seu olhar.
"Amar você? Você realmente achou que eu poderia amar alguém como você?", ela disse, com um tom tão gelado que fez meu coração parar. "Você era uma peça no meu jogo, Ayato. Só isso."
A dor da lâmina atravessando meu peito foi quase uma confirmação do que eu já sabia, mas ainda assim, eu não queria acreditar. Como pude ser tão cego? Como não vi que ela sempre esteve longe, sempre distante?
Meus olhos procuraram os dela, desesperados, tentando entender, tentando encontrar algo que ainda fosse humano nela.
"Eu te dei tudo… e você…" As palavras saíram entrecortadas, a vida escorrendo aos poucos. "Por quê?"
Ela deu um passo atrás, observando com indiferença. "Porque você não era importante. Nunca foi. Não mais do que qualquer outro idiota que eu usei."
E então, com uma última risada suave, ela deu um passo para longe. "Adeus, Kamisato Ayato. Fui interessante, não foi?"
E assim, com um último olhar, ela se afastou, deixando-me ali, na escuridão, com as últimas palavras dela queimando em minha mente: "Você nunca foi nada mais que uma peça."
A escuridão tomou conta de mim, o frio me invadindo. E com isso, as últimas imagens que tive foram de seu sorriso, um sorriso que nunca significou nada além de mentira...
_______________ Ꮚ
Nada a dizer sobre esse aqui mas espero que tenham gostado kkkkkkkkk
