Cap 5 - Parte dois

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Todas as senhoras olharam para o réu daquele horrendo crime de lesa-formosura.Augusto respondeu:

 - E o que há aí de mais engraçado é que Fabrício tem culpa disso, porque, enfim,manda o meu destino que eu sempre tenha andado, ande, e haja de andar em companhiadele, que, com a maior crueldade do mundo, tira-me todos os lances, antes de três dias deamor.

 Novo olhar, novo sorriso de aprovação de D. Carolina, novo prazer de Augusto pormerecê-los.

 Fabrício torceu-se sobre a cadeira e prosseguiu: 

 - Nada de fugir da questão. Poder-se-ia julgar fraqueza querer de algum modoocultar que, tanto em prática como em teoria, o meu colega é e se preza de ser o protótipoda inconstância.

 - Eis o que ele não pode negar, acudiram Leopoldo e Filipe, rindo-se.

 - E para que negar, se já o nosso colega afirmou que eu me prezava de ter essaqualidade?...

 - Misericórdia! exclamou uma das moças. 

 - É possível?!... perguntou a avó de Filipe, com seriedade.

 - É absolutamente verdade, respondeu o estudante.

 Lançou depois um olhar ao derredor da mesa e todas as senhoras lhe voltaram orosto. D. Quinquina tinha nos lábios um triste sorriso. A Moreninha olhou-o com espanto,durante um curto momento, mas logo depois soltou uma sofrível risada e pareceu ocupar-seexclusivamente de uma fatia de pudim. 

 Reinou silêncio por alguns instantes: Fabrício parecia vitorioso; Augusto estavacomo em isolamento, as senhoras olhavam para ele com receio, mostravam temer encontrarseus olhos; dir-se-ia que receavam que de uma troca de olhares nascesse para logo osentimento que as devesse tornar desgraçadas. Desde as fatais palavras de Fabrício,Augusto era naquela mesa o que costumava ser um leproso na Idade Média:

 - o homemperigoso, cujo contato podia fazer a desgraça de outro.

 Fabrício compreendeu em quão triste situação estava o seu adversário, e,inexperiente, se havia deixá-lo debatendo-se em sua má posição, quis ainda mais piorá-la, efoi, talvez, arrancá-lo dela. Fabrício, pois, fala; as senhoras embebem nele seus olhos e oaplaudem, enquanto Augusto, servindo-se de um prato de grosso melado, afeta prestarpouca atenção ao seu acusador. 

- Sim, minhas senhoras, é um jovem inconstante, acessível a toda as belezas,repudiando-as ao mesmo tempo para correr atrás de outra, que será logo deixada pela vistade uma nova, como se ele fosse a inércia da matéria, que conserva uma impressão, mas quenão a guarda senão o tempo que é gasto para um novo agente modificá-la! 

 - Muito bem! muito bem! disseram algumas vozes.

 - Seu coração é pétrica abóbada de teatro, que não entende o dizer de Auber, quandosoluça à flauta ternos sons de músico discurso, pois aquela muda superfície reflete a todos ea todos esquece com estúpida indiferença!... 

 - Bravo!... Fabrício está hoje romântico! exclamou Leopoldo, apontandomaliciosamente para uma garrafa que se achava defronte do orador, e quase de todoesgotada.

 - Apoiadíssimo!... murmurou Augusto, apontando também para a garrafa.- Mas ele deverá viver de lágrimas, suspiros e ânsias de condenado... concluiuFabrício. 

- Bravo!... muito bem!... bravo!...

 - Peço a palavra para responder! exclamou Augusto.

 - Tem a palavra, mas nada de maçada! 

 - Duas palavras, minhas senhoras, só duas palavras. 

 - Sim, defenda-se, defenda-se. 

 - Defender-me?... certo que o não farei; poderia, ao contrário, acusar, mas tambémnão quero; julgo apenas oportuno dar algumas explicações. Minhas senhoras, debaixo decerto ponto de vista o meu colega Fabrício disse a verdade, porque eu sou, com efeito, omais inconstante dos homens em negócio de amor.

A moreninha- Joaquim Manuel de MacedoOnde histórias criam vida. Descubra agora