Todas as senhoras olharam para o réu daquele horrendo crime de lesa-formosura.Augusto respondeu:
- E o que há aí de mais engraçado é que Fabrício tem culpa disso, porque, enfim,manda o meu destino que eu sempre tenha andado, ande, e haja de andar em companhiadele, que, com a maior crueldade do mundo, tira-me todos os lances, antes de três dias deamor.
Novo olhar, novo sorriso de aprovação de D. Carolina, novo prazer de Augusto pormerecê-los.
Fabrício torceu-se sobre a cadeira e prosseguiu:
- Nada de fugir da questão. Poder-se-ia julgar fraqueza querer de algum modoocultar que, tanto em prática como em teoria, o meu colega é e se preza de ser o protótipoda inconstância.
- Eis o que ele não pode negar, acudiram Leopoldo e Filipe, rindo-se.
- E para que negar, se já o nosso colega afirmou que eu me prezava de ter essaqualidade?...
- Misericórdia! exclamou uma das moças.
- É possível?!... perguntou a avó de Filipe, com seriedade.
- É absolutamente verdade, respondeu o estudante.
Lançou depois um olhar ao derredor da mesa e todas as senhoras lhe voltaram orosto. D. Quinquina tinha nos lábios um triste sorriso. A Moreninha olhou-o com espanto,durante um curto momento, mas logo depois soltou uma sofrível risada e pareceu ocupar-seexclusivamente de uma fatia de pudim.
Reinou silêncio por alguns instantes: Fabrício parecia vitorioso; Augusto estavacomo em isolamento, as senhoras olhavam para ele com receio, mostravam temer encontrarseus olhos; dir-se-ia que receavam que de uma troca de olhares nascesse para logo osentimento que as devesse tornar desgraçadas. Desde as fatais palavras de Fabrício,Augusto era naquela mesa o que costumava ser um leproso na Idade Média:
- o homemperigoso, cujo contato podia fazer a desgraça de outro.
Fabrício compreendeu em quão triste situação estava o seu adversário, e,inexperiente, se havia deixá-lo debatendo-se em sua má posição, quis ainda mais piorá-la, efoi, talvez, arrancá-lo dela. Fabrício, pois, fala; as senhoras embebem nele seus olhos e oaplaudem, enquanto Augusto, servindo-se de um prato de grosso melado, afeta prestarpouca atenção ao seu acusador.
- Sim, minhas senhoras, é um jovem inconstante, acessível a toda as belezas,repudiando-as ao mesmo tempo para correr atrás de outra, que será logo deixada pela vistade uma nova, como se ele fosse a inércia da matéria, que conserva uma impressão, mas quenão a guarda senão o tempo que é gasto para um novo agente modificá-la!
- Muito bem! muito bem! disseram algumas vozes.
- Seu coração é pétrica abóbada de teatro, que não entende o dizer de Auber, quandosoluça à flauta ternos sons de músico discurso, pois aquela muda superfície reflete a todos ea todos esquece com estúpida indiferença!...
- Bravo!... Fabrício está hoje romântico! exclamou Leopoldo, apontandomaliciosamente para uma garrafa que se achava defronte do orador, e quase de todoesgotada.
- Apoiadíssimo!... murmurou Augusto, apontando também para a garrafa.- Mas ele deverá viver de lágrimas, suspiros e ânsias de condenado... concluiuFabrício.
- Bravo!... muito bem!... bravo!...
- Peço a palavra para responder! exclamou Augusto.
- Tem a palavra, mas nada de maçada!
- Duas palavras, minhas senhoras, só duas palavras.
- Sim, defenda-se, defenda-se.
- Defender-me?... certo que o não farei; poderia, ao contrário, acusar, mas tambémnão quero; julgo apenas oportuno dar algumas explicações. Minhas senhoras, debaixo decerto ponto de vista o meu colega Fabrício disse a verdade, porque eu sou, com efeito, omais inconstante dos homens em negócio de amor.
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A moreninha- Joaquim Manuel de Macedo
RomanceO estudante Augusto julga-se vacinado contra a praga do amor. Aposta que, das garotas da ilha, nenhuma o prenderá por mais de quinze dias. As meninas também não querem compromisso, só festejar e divertir-se. E a mais brincalhona é Carolina. Tão espe...