A manhã parecia fingida. O céu, cinzento, como se a própria natureza soubesse que nada do que estava prestes a acontecer era natural. Hyunjin estava animado demais para alguém que dizia odiar sair da sua fortaleza. Mas ele tinha um motivo. Ele sempre tinha.
— Vai se arrumar — ele disse, encostado na porta, braços cruzados. O olhar atravessava minha pele. — Vamos visitar Minho.
Meu estômago se revirou. Minho. Um nome que eu conhecia de antes. Antes de tudo isso. Antes de Hyunjin, antes da prisão. Um conhecido distante, quase um amigo em comum com Jisung, mas que sempre me passava uma sensação estranha. Agora eu entendia o porquê.
— Por quê? — minha voz saiu mais áspera do que eu pretendia.
Hyunjin sorriu. — Porque eu quero. E porque você precisa ver com seus próprios olhos.
— Ver o quê?
Ele não respondeu. Apenas saiu, me deixando sozinho com minhas perguntas e o nó apertado no peito.
Me vesti devagar, como se cada peça de roupa fosse uma corrente nova. Jeans escuros, camiseta simples, uma jaqueta que não parecia minha. Tudo escolhido por ele. Eu já não lembrava qual era meu gosto de verdade.
Quando descemos para a garagem, o carro preto nos esperava. Vidros fumê, cheiro de couro, silêncio sufocante. Hyunjin abriu a porta para mim como um cavalheiro macabro. Eu entrei.
O trajeto foi um borrão. Árvores passando rápidas, ruas desertas. Hyunjin dirigia como se cada curva já estivesse decorada na mente dele. Eu me peguei olhando para o perfil dele, a mandíbula firme, os olhos fixos, e odiei a mim mesmo por achar bonito.
— Nervoso? — ele perguntou, sem me olhar.
— Não.
Ele riu baixo. — Sempre mente tão mal.
Virei o rosto para a janela, escondendo o calor que subia no meu pescoço.
A casa de Minho era isolada, quase enterrada entre árvores altas. Grande, robusta, com janelas protegidas por grades discretas. Nada nela parecia acolhedor. Era uma prisão disfarçada de lar.
Quando chegamos, a porta já se abriu. E lá estava Minho. Mais imponente do que eu lembrava. Ele sorriu, um sorriso que não tinha nada de caloroso.
— Hyunjin. — Sua voz grave soou como ferro batendo em ferro. — Estava esperando vocês.
— Minho. — Hyunjin respondeu no mesmo tom, mas com aquele sorriso que escondia navalhas.
Meu olhar se prendeu atrás de Minho. E eu o vi. Jisung.
Meu coração disparou, dolorido. Ele estava sentado no sofá, o corpo encolhido, mais magro, os olhos fundos. Mas ainda era ele. Ainda era meu Jisung. O amigo que ria alto, que dividia segredos, que me fazia sentir que o mundo era suportável. Agora, ele parecia uma sombra disso.
— Felix... — ele murmurou, a voz falhando.
Dei um passo à frente sem pensar, mas Hyunjin segurou meu ombro, firme, possessivo.
— Calma — ele disse.
Minho sorriu, como quem observa uma cena planejada. — Vocês já se conhecem, não é?
— Nos conhecemos — respondi, a voz baixa.
Jisung levantou meio hesitante, os olhos marejados. — Eu achei que... — Ele parou, olhando para Minho com medo. — Eu achei que nunca mais ia te ver.
Meu peito queimou. Eu queria abraçá-lo, dizer que estava ali, que a gente podia dar um jeito. Mas a mão de Hyunjin ainda estava no meu ombro, como um aviso.
— Que reencontro bonito — Minho disse, divertido. — Vocês têm tanto em comum agora.
O silêncio pesou como chumbo.
Hyunjin me empurrou levemente para dentro. — Vamos, sente-se.
Obedeci. Jisung se sentou ao meu lado, e por um instante, nossas mãos quase se tocaram. Quase. Mas ele recuou rápido, como se até isso fosse proibido.
Hyunjin e Minho foram até a cozinha, deixando-nos “sozinhos”, mas eu sabia que cada palavra seria ouvida.
— O que aconteceu com você? — perguntei, sussurrando.
Jisung riu amargo. — Você precisa mesmo perguntar?
— Ele... ele te sequestrou também?
— Não usa essa palavra. — Ele olhou em volta, os olhos arregalados. — Eles não gostam.
Meu estômago virou. — Mas é isso que é.
Ele balançou a cabeça. — Não. É pior. Eles não precisam de correntes. Eles só precisam de tempo.
Eu não consegui responder. A dor na voz dele era tão familiar que parecia um espelho.
Hyunjin voltou com uma bandeja, Minho logo atrás. Chá, bolachas, gestos de hospitalidade falsos. Hyunjin pousou uma xícara diante de mim.
— Bebe. Vai te acalmar.
Peguei a xícara, mas não bebi. Ele percebeu. Claro que percebeu.
Minho se sentou na poltrona, relaxado, como um rei em seu trono. — Então esse é o seu Felix.
— Sim. — Hyunjin sorriu. — Ele ainda está aprendendo.
Minho riu baixo. — Todos aprendem. Uns mais rápido, outros mais... quebrados.
O olhar de Jisung se perdeu no chão. Eu quis gritar, sacudi-lo, mas fiquei quieto.
Hyunjin se inclinou para mim, sua voz próxima demais. — Vê como ele já entendeu? Vê como ele aceita?
— Isso não é aceitar — sussurrei. — É desistir.
Hyunjin sorriu, gelado. — Às vezes é a mesma coisa.
O resto da tarde foi um jogo de olhares e palavras veladas. Minho e Hyunjin falavam de negócios que eu não entendia, mas que claramente envolviam nós dois. Jisung e eu trocávamos olhares rápidos, desesperados, como se tentássemos construir um plano invisível só com o silêncio.
Quando finalmente nos levantamos para ir embora, Minho falou: — Voltem quando quiserem. Ele ainda pode ensinar muito ao seu.
Hyunjin assentiu, a mão firme nas minhas costas. — Nós voltaremos.
Na saída, eu olhei para Jisung. Nossos olhos se prenderam por um segundo. Ele não disse nada. Eu também não. Mas naquele silêncio, eu ouvi o grito que ambos sufocávamos: precisamos sair daqui.
O vento frio me atingiu do lado de fora. Respirei fundo, tentando me lembrar de como era o mundo além dessas correntes invisíveis. Hyunjin abriu a porta do carro para mim, aquele gesto cavalheiresco que doía mais do que socos.
— Viu? — ele disse, com um sorriso. — Eu cuido de você.
Entrei sem responder. Mas dentro de mim, as palavras de Jisung ecoavam: Eles não precisam de correntes. Só precisam de tempo.
E o tempo já estava nos destruindo.
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OIIIIII💕💕💕
Um capítulo pequeno ainda está valendo????
Acho que a situação do Felix está minimamente melhor do que a do Jisung, mas só um pouquinho 🤏🏻🤏🏻
Tchauuuu✨✨✨
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Venenos e Segredos- Hyunlix
FanfictionEm uma noite chuvosa e sombria, a cidade é coberta por um manto de mistério e perigo. Felix, um jovem determinado, caminha pelas ruas desertas com o coração acelerado, consciente de que um encontro com Hyunjin mudará sua vida para sempre. Hyunjin, u...
