Mia

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Desligo a tela do celular devagar, como se aquele simples gesto pudesse conter a avalanche de pensamentos que começam a se formar na minha cabeça. Meu perfil fechado sempre foi uma escolha consciente, quase um escudo. Um espaço só meu. Mas agora… agora já não sou só eu.
Sinto o peso disso enquanto Sky se ajeita mais confortável entre mim e o lugar vazio que Luan deixou na cama. Passo os dedos pelo pelo macio dela, tentando organizar a bagunça que se instalou dentro do meu peito depois daquela reportagem. “A garota mais pesquisada do momento”. Engraçado como conseguem transformar uma pessoa comum em um mistério coletivo.

Luan volta com a tigela de pipoca cheia, equilibrando também os copos. Se senta ao meu lado e, sem dizer nada, beija minha testa. Esse gesto simples sempre me desmonta.

— O que foi? — ele pergunta, percebendo meu silêncio.

— Nada… — respondo rápido demais.

Ele arqueia uma sobrancelha, aquele olhar atento que me conhece mais do que eu gostaria de admitir. Luan coloca a pipoca entre nós e pega o controle, mas não dá play no filme.

— Mia — ele chama com calma —, você ficou quieta de repente.

Respiro fundo. Não quero transformar um momento bom em algo pesado, mas também não quero guardar isso só pra mim. Estendo o celular para ele, já com a postagem aberta. Luan lê em silêncio, os lábios se apertando num meio sorriso irônico.

— Eles não cansam, né? — diz, balançando a cabeça de leve.

— Eu não me sinto mal… — confesso, surpreendendo até a mim mesma —. Acho que isso que me assusta.

Ele me encara por alguns segundos, como se estivesse tentando ler algo além das palavras.

— E o que exatamente te assusta?

Olho para Sky antes de responder, como se ela fosse minha âncora naquele momento.

— Gostar disso. Gostar de ser vista. E acabar perdendo o controle.

Luan se aproxima um pouco mais, seu braço envolvendo meus ombros.

— Você não deve nada a ninguém — ele diz com firmeza —. Nem aos fãs, nem à internet, nem a mim. Se quiser manter seu perfil fechado, tá tudo bem. Se um dia quiser abrir… também vai estar tudo bem. A escolha é sua.

Essas palavras aliviam algo dentro de mim. Não é sobre abrir ou fechar um perfil. É sobre ter alguém ao meu lado que respeita meus limites sem tentar empurrá-los.

— Às vezes parece que estou vivendo uma vida que não foi feita pra mim — digo baixinho.

— E às vezes — ele responde, encostando a testa na minha —, a vida só encontra a gente onde menos espera.

Sorrio. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro.

O filme volta a rodar, mas minha atenção já não está totalmente na tela. Minha mente insiste em revisitar os perfis que vi, as fotos, os vídeos, as histórias criadas sobre nós. Não sinto medo. Sinto curiosidade. Uma curiosidade cautelosa, mas real.
Horas depois, Luan adormece ao meu lado, a respiração calma, Sky esticada entre nós como se tivesse conquistado oficialmente seu lugar. A casa está silenciosa, exceto pelo som distante da cidade que nunca dorme.

Pego o celular outra vez.
Abro meu Instagram.

Passo o dedo sobre a opção de editar perfil. Meu coração bate mais forte, não de ansiedade, mas de expectativa. Não aperto nada. Ainda não. Mas, pela primeira vez, não fecho a tela com a sensação de fuga.
Talvez o mundo não precise me ver agora.
Talvez um dia.
No meu tempo.
Bloqueio o celular, me aconchego mais perto de Luan e fecho os olhos, sentindo que, mesmo invisível para muitos, estou exatamente onde deveria estar.

Instagram || Luan SantanaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora