Era só isso?

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— Era só isso?

A voz do estancieiro reverberou quebrando o silêncio que se formou. Mesmo assim, o gaúcho não tinha coragem de erguer a cabeça.

Somente Norte viu onde ele estava, em sua cadeira de descanso tentando tirar as botas.

— O que me importa com quem tu te deita?

Falou com a voz entrecortada pois fazia força para arrancar os sapatos, mas não estava conseguindo, sua barriga o impedia de se curvar tanto para executar tal feito. Olhou para o filho mais velho e o chamou com um gesto de mão apontando para seus pés e um sorrisinho amarelo pelo pedido.

O nordestino abriu um sorriso largo, devia ter tido mais fé em seu pai. Ele não ligava para aquilo, apesar de parecer muito o contrário. Rapidamente se pôs a ajudá-lo agarrando um dos calcanhares da bota e puxando da melhor forma que conseguia.

A movimentação atípica fez com que o loiro enfim dirigisse o olhar para o genitor. Ainda não tinha realmente absorvido sua fala redentora.

Quando enfim o mais velho se viu livre das suas duas botas, com a ajuda do potiguar, é que dirigiu sua total atenção para o gaúcho o fitando nos olhos.

— Filho, isso não me importa. Eu só quero é que tu seja feliz. — Se levantou com certa dificuldade de sua cadeira e enfiou os pés no chinelo de couro se aproximando em seguida do barbudo. — Tu me ouviu piá? — Tocou em seu rosto com a mão cheia. — Tu não deixou de ser um homem honrado por causa disso. Nem de ser meu filho.

Sul não tinha palavras que pudessem exprimir o que sentia, a única coisa que sabia é que estava leve e se não fosse o toque carinhoso do pai em seu rosto provavelmente sairia flutuando no ar.

Como um feito que achava impossível, chorou ainda mais, seu corpo convulsionando em soluços e a visão completamente impossibilitada de tantas lágrimas. Sentiu o mais velho o abraçando forte e em seguida o irmão também se juntando ao carinho envolvendo os outros dois.

Assim que Sul conseguiu controlar novamente sua respiração, apesar de ainda estar alterada, deu a entender que o largassem e foi rapidamente atendido, afinal ele e o pai eram do mesmo feitio, diferente do nordestino, que era mais grudento.

O patriarca deu tapas amigáveis no ombros do barbudo finalizando a demonstração de afeto de uma forma que era mais confortável para ambos.

— Vamos pra dentro meus filhos. Creio que temos muito a conversar ainda. — Se dirigiu distintamente para o gaúcho. — Vou fazer um chimarrão pra gente.

O loiro fungou discretamente com um sorrisinho acanhado no rosto e se sentindo uma criança novamente.

— Vai bem um mate agora.

— Eu como as bolachas. — Norte se intrometeu brincalhão envolvendo os outros dois com os braços nos pescoços os arrastando para dentro.

Já na cozinha com o chimarrão pronto e as bolachas de acompanhamento servidas, os três sentavam em volta da mesa com assuntos levianos para acalmar toda a emoção anterior.

— Mas me diz guri, como tu tá? O Norte falou que estavam trabalhando na mesma empresa.

— Tchê, o Norte é um fofoqueiro, isso sim. Mas estou bem. — Suspirou. — Tive uma pequena discussão com o patrão, mas agora tá resolvido.

— Pequena? Pequena onde cabra?! — Levantou de seu lugar e agarrou o rosto do loiro forçando-o a exibir as marcas quase invisíveis da troca de socos que teve. — Olha isso aqui painho! Ele caiu no soco com o Brasil visse.

— Barbaridade, meu filho! O que aconteceu? — O mais velho se inclinava a fim de ver melhor. — E o mais importante. — Se recostou de volta na cadeira com um sorrisinho nos lábios. — Quem ganhou?

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⏰ Última atualização: Jan 27 ⏰

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