Cap 23 - O Nome que Voltou a Respirar

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"Tem saudade que não volta como lembrança  volta como presença, e obriga a vida a escolher um nome."

Camila POV

O corredor do prédio parecia mais longo do que era. A luz amarela do teto tremia, e o cheiro de desinfetante barato misturado com comida requentada subia das portas, me dando um enjoo que eu fingia ser só do álcool.

Eu segurava Tori pela cintura, e ela pesava em mim como se o corpo tivesse desistido de sustentar a própria raiva. O salto dela batia torto no piso, um som seco, irritante, como se cada passo fosse um argumento.

—Abre... abre logo — ela murmurou, procurando a chave no bolso do casaco com dedos que não obedeciam.

Tirei o molho da mão dela antes que caísse de novo. O metal estava frio e úmido, e eu demorei um segundo a mais do que devia para escolher a chave certa, como se isso me desse tempo para respirar.

—Pronto — disse, empurrando a porta.

O apartamento nos engoliu com aquele ar parado de fim de noite. Luzes apagadas, o restinho de perfume doce no sofá, e a TV em silêncio refletindo a nossa imagem quebrada. Tori jogou a bolsa no chão com força demais, como se quisesse que o barulho assinasse presença.

Ela se virou para mim, olhos vidrados, o rímel um pouco borrado. Mesmo bêbada, ainda tinha aquele jeito de tribunal.

—Você dançou com ela como se fosse íntima — falou enrolado, mas a intenção vinha afiada. — Como se... como se vocês já tivessem história.

O nome não saiu, e isso me incomodou mais do que se ela tivesse dito. Eu neguei com a cabeça, sentindo o couro do meu cinto apertar a barriga quando soltei o ar.

—Tori... eu nem sabia que ela era sua chefe.

Ela riu curto, sem humor. A risada bateu na parede e voltou .

— Ah, claro. E você caiu na pista do nada, né? Vermelha, brilhando. E ela foi direto em você.

Passei a mão no cabelo, puxando a raiz como quem tenta puxar de volta uma decisão. Eu ainda sentia a música vibrando nos ossos, e isso me dava raiva de mim mesma.

— Eu só queria dançar — falei, mais baixa do que pretendia. — Eu estava querendo me divertir, curtir um pouco. Enquanto você só queria ficar reclamando do seu trabalho. Você estragou tudo como sempre Tori, só porque não era o seu momento.

O silêncio entre nós não foi paz. Foi aquele silêncio que escolhe lados.

— Eu não estrago tudo — ela rebateu, andando pela sala com passos cambaleantes. — Eu só... eu só falo a verdade.

Eu senti o peito apertar num ponto específico, velho. Aquela sensação de ter que ser perfeita para não virar vilã.

—Você fala como se isso te desse licença pra me machucar — eu disse, e a minha voz saiu cansada, não dramática. Só cansada. — E você mais uma vez... estragou tudo.

Ela parou perto da bancada da cozinha, apoiando a mão na pedra como se precisasse se segurar no mundo. A boca dela ficou torta, como quem segura uma frase e escolhe a pior.

— Sabe qual é o problema, Camila? — Tori ergueu o queixo. — Você não tá feliz comigo porque eu não sou... — ela engoliu o próprio tropeço, mas não desistiu — ...porque eu não sou aquele cara enterrado.

O ar mudou. Eu senti primeiro no corpo, no frio que correu pela nuca. Minha garganta fechou tão rápido que doeu.

— Não fala dela — pedi. Não foi grito. Foi um pedido duro, com vergonha por dentro.

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⏰ Última atualização: Mar 26 ⏰

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