Em meio às nossas jornadas sólidas nessa vida, há uma esperança — apenas uma — quanto à nossa própria salvação dentro das relações, dos compromissos e da harmonia conjunta. Em nossa individualidade, isso se dá por meio da retidão; é por ela, e pela sua falta, que o amor se torna uma armadilha ou não.
Ao longo de muitos anos, pude notar o peso que acompanha a maturidade, e talvez seja isso mesmo que estamos fadados a sentir: ficarmos presos entre o arrependimento e a esperança. A retidão nos cabe quando não há mais sentido, motivos ou porquês; resta somente continuar. Isso nos mantém com os pés no chão. É a sua falta que nos torna exatamente aquilo que não gostaríamos de ser, fazendo-nos agir sem prestar contas com nossa própria consciência, sem ressignificar, apenas repetindo padrões até que nos tornemos tudo aquilo que odiávamos.
A retidão chega a ser quase um dom divino. Por ela, caminhamos sem vinganças e sem ódio. Arrisco-me a dizer que ela nos salva de nós mesmos, da nossa luxúria, da ganância e da própria maldade que se abriga dentro de nós, como se nos convertesse de nós mesmos — criada para ser a criptonita da humanidade.
Somos vítimas antes de fazermos o mesmo com alguém. Renegamos a nós mesmos antes de desvirtuar o outro, tornando-nos porcos em um lamaceiro de luxo: a mentira encarnada em atos, os medos fantasiados de coragem e ousadia, para, no fim, não sabermos sequer onde estamos ou quem somos. Cobiçados pelo pecado, beijados pela morte, assim somos nós fora dos olhos nus e de corpos despidos: uma moeda de carne, uma taça de sacrifício, marcados pelas garras da culpa como bois ferrados a brasa. Um ciclo de deslizes e feitiços, um laço de línguas mentirosas trocando seu veneno peçonhento na curva da vida, quando o caminho não nos cabia. Desgarrados como uma ovelha na boca do lobo, vivemos um pesadelo acordados.
Quando se caminha pela retidão, a honra não nos abandona, mesmo quando a vergonha nos precede. O furor nos oprime, mas a mansidão nos liberta. É como estar deitado em uma tarde quente com vento fresco; mais do que isso, é caminhar por um caminho de roseiras, estreito, mas sendo esse o seu caminho para casa. Isso te perfura, faz-te sangrar da cor das rosas, mas não há do que reclamar. Afinal, só se fere quem está vivo, e só retorna para casa quem tem um lar. Estar vivo quando sabes que a morte te rodeia é, a cada dia, enganar a morte mais uma vez. É seguir aquele ponto de fuga — sim, aquele caminho tão reto que não se pode ver o fim. É a mesma sensação que sentimos ao olhar para o mar, que nos causa a impressão de desaguar na linha do horizonte. Mas nossos olhos só enxergam fim naquilo que não compreendemos, e assim é a vida: queremos nos opor a tudo aquilo que não está no nosso nível, para que não haja mais desvantagens do que as que já existem a nosso respeito.
O perdão e a retidão caminham lado a lado. Por isso, podemos identificar que o "injustiçado" sempre quer estar ao lado de quem o perdoa — não pelo perdão e pelo acoitamento, mas porque algo o atrai. É como se o agressor batesse e humilhasse a vítima, mas ficasse admirado com o seu poder de cura e inocência, algo que ele jamais poderá obter se nunca teve. Isso gera ainda mais indignação e ódio; ele se sente injustiçado por algo que, no fim, ele mesmo causou.
Agora, coloco à mesa que o homem não é a vítima da sociedade, como pensava Jean-Jacques Rousseau ("O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe"). Para mim, o homem se torna sua própria vítima, e é por isso que tantas pessoas desgovernadas se envolvem e se atraem por quem se autorregula.
Quem deseja ser perdoado está em busca da retidão — não de suas falhas, mas de si mesmo. Ele deseja nascer de novo; só assim se recupera o que lhe foi dado, e que nunca foi seu. A armadilha de ser explorado por algo que é raro é que não há dinheiro que compre ou doação que compartilhe algo tão mal compreendido por nós. Por isso, é preciso morrer e ressurgir um novo homem, visto que há coisas que não são adquiridas, mas nascem da mesma forma que morrem: em nós!
O batismo, o famoso começar de novo, a morte de Saulo e o nascimento de Paulo, não é? O renascer. O amor nada mais é do que outra coisa que não compreendemos, mas à qual podemos dar nome. Se Paulo se tornar pior que Saulo, o que se faz? Não há como nascer e morrer a vida inteira, portanto, existem erros que devem ser cometidos apenas uma única vez.
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Armadilha do amor
RomantizmA cada capítulo lerá um sentimento e cada página se tornará parte de você, assim como faz parte de mim.🌹
