Fazia um mês desde a saída de Eduardo e Ian do castelo Carminle e eles não faziam ideia de como começar. ''Falar é fácil, difícil é fazer alguma coisa útil'', dissera Ian em um dos diasem que discutiam na floresta antes de Eduardo desenvolver um medo irracional por ela.
Agora estavam sentados em camas, dentro de uma hospedaria, enquanto Ian observava o mapa de Asteria que carregava consigo.
—Para que você está olhando esse mapa? Não está obvio que saímos da capital?
—Não me fale o que eu já sei Eduardo. Viajamos pela trilha por cinco horas, de Twillingate para Lonnec e você nem procurou ir atrás de comida.
—Francamente Ian. Considere ao menos que eu ''acabei de chegar'' nesse mundo. Não sei como funcionam as trocas monetárias daqui.
Ian suspirou, exausto e se levantou, indo atrás de comida para os dois, e deu sorte. A hospedaria estava celebrando, então se podia comer ali à vontade, e ao sair, carregou um pernil e duas garrafas de vinho, sendo quase assaltado por um Eduardo faminto que se acalmou ao receber a parte dele.
Mais tarde, eles desceram para se juntar à festa e por pouco não caíram exaustos na mesa de jantar, com Ian sonolento carregando um semi-desmaiado até o quarto. Ao dormirem, Ian se transformou em lobo e se deitou na cama, por achar mais confortável dormir naquela forma.
No amanhecer, Eduardo tinha sido o ultimo a acordar, enquanto o companheiro de viagem estava examinando algo que havia do lado de fora, parecendo extremamente confuso, como se tivesse algum tipo de anomalia do lado de fora.
—O que foi? Algo errado?
—Tudo está errado. Sumiram todos, sem deixar rastro algum e ainda tem essa enorme nuvem negra pairando acima das nossas cabeças.
Levantou-se da cama abruptamente, colocando a capa nos ombros, saindo em disparada até o centro da vila e parou na frente de uma fonte para se localizar e começar a procura exaustiva dos moradores, começando em becos e esgotos para depois andar por todas as ruas, becos e vielas existentes para acabar de volta a fonte sem ter achado nenhuma pessoa.
Quando Ian viu o garoto sair correndo daquele jeito, sem ao menos perguntar o que seria aquela nuvem negra, resolveu ajudar indo nas casas para verificar se haveria algo ou algum morador dentro e em uma delas havia um sótão que estava excessivamente iluminado por espelhos, como uma estufa refletora. Enquanto Eduardo se arrependia amargamente de não ter se juntado ao outro na procura.
'' Você sente que tem algo de errado aqui não é? Algo inumano'' Observou a nuvem imensa que pesava sobre o local e pensou que ela se parecia com um enorme nevoeiro, vindo de cima para baixo e que logo impediria a visão, além de causar tonturas em um ser humano normal.
Levantou-se do banco perto da fonte e caminhou por alguns quilômetros por uma ruela que não havia visto antes até achar um corpo estendido no chão, com apenas uma estaca de madeira atravessando o tórax, e o olhar expressar horror. A dona da hospedaria. Os homens que estavam comemorando, além dos cozinheiros e até mesmo as crianças estavam todos mortos.
—Mas quem faria uma coisa dessas? Que terrível.
—Você acha garoto? Realmente tem certeza de que aguenta tamanho fardo? Tem certeza de que não vai enlouquecer?
—Quem está aí? Por que não aparece?
E recebeu um silencio gutural como resposta, além de um denso nevoeiro que mal se enxergava por ele. A cada passo que avançava mais corpos surgiam na sua frente, com horror estampado nos olhares, e ele rezava para que Ian não surgisse no meio daqueles corpos mutilados, percebendo que o nevoeiro havia ficado mais denso.
Estava tudo muito calmo até surgir um grito gutural vindo de algum lugar, acompanhado de uma risada sádica. E a mesma pergunta:
—Você não vai enlouquecer Eduardo? Vai conseguir aguentar e proteger todos aqueles que se preocupa? Será que não vai sucumbir a loucura primeiro?
Por sorte, ele parou na casa onde havia o sótão cheio de espelhos, guiado pelos gritos torturados de Ian, que estava ajoelhado no chão e segurando a própria cabeça, em uma extrema agonia. ''Que droga. Agora vou ter que aguentar mais ainda, só de vê-lo assim com uma dor excruciante. Estou em uma corda bamba entre a sanidade e a loucura. ''
—Espera. Ian, isso não é real! Isso que você está vendo é coisa da sua cabeça! Você não está vendo ninguém morrer. Eu sei que é doloroso, ver todo mundo morrer na sua frente, mas já passou!
Quando percebeu que não estava surtindo nenhum efeito, socou o amigo, que voltou a si logo de imediato, mas ainda parecia confuso quando olhou para Eduardo com o olhar enegrecido e o beijou, empurrando-o no chão de madeira antigo. De imediato, não esboçou nenhuma reação, mas quando percebeu que o beijo estava se aprofundando demais, começou a se debater e tentar empurrar o homem que estava acima de si, ávido e cego por desejo e que a cada minuto avançava pelo corpo do jovem, fazendo-o soltar leves ofegos.
—Eu acho que... deveria parar com isso.
—Parar? Você é quem me irritou, então deve sofrer as consequências. E eu estou a fim de devorar alguém hoje.
—Mas você não... ah!
Ian, ainda fora de si, o beijou novamente, só que com as presas de lobo e a língua quente e ávida e acabou arrancando um gemido baixo de Eduardo, que ainda se debatia no chão. ''Está se divertindo com isso? Eduardo faça seu amigo aí parar ou você vai acabar sendo devorado nesse chão de madeira. Só não tente irritá-lo. ''
Foi quando Eduardo resolveu morder a língua que estava se forçando dentro de sua boca, e ao conseguir uma brecha saltou para longe, exatamente para dentro da casa. Correu afoito em direção à fonte central e lavou o rosto, encarando seu reflexo perplexo e assustado somente de pensar naquilo que havia acabado de acontecer.
Ao ouvir passos, saltou para dentro, mesmo que significasse ficar ensopado e pegar um resfriado, que naquele momento era o de menos. Ficou por aproximadamente quinze minutos, tirando a cabeça da água a cada cinco para poder respirar, e em uma dessas saídas, ouviu uma risada assustadora multiplicada por dois.
—Realmente achou que iria fugir Black?
Aquele nome, tão familiar e tão estranho, direcionado a ele.
—Não, não achei nada. Agora você poderia parar de controla-lo, para eu arrancar a verdade de você, seu parasita.
—Que verdade? A verdade que todos os habitantes dessa vila estão mortos a mais de um ano, e tudo que você viu ontem era uma ilusão? Essa é a verdade que você queria?
—Que pergunta mais retórica. Além de parasita, é retardado mental. Devolva Ian agora, seja lá quem você é.
—Seu desejo é uma ordem. Deveria dizer '' seja lá o que você é. ''
E sumiu, deixando um Ian caído no chão e um Eduardo bastante confuso, vendo que teria que carregar um peso inconsciente para algum lugar que parecesse seguro, e ensopado como estava, precisava de uma lareira ou algo que fornecesse calor o mais rápido possível.
Quando Ian despertou, pediu imensas desculpas ao garoto que estava se secando em uma fogueira improvisada dentro de uma das casas abandonadas e dizia para não se preocupar, que não havia sido culpa dele, já que estava sendo possuído. Quando lhe foi perguntado o motivo de tamanha flexibilidade, apenas respondeu:
—Porque somos amigos. E não me faça repetir isso de novo, seria muita sacanagem.
—Vejo que ainda está com o vocabulário do seu mundo. E não se preocupe, sou um lobo com uma ótima audição.
E para passar o tempo, conversaram sobre a estranha nuvem negra e sobre a neblina que impedia a saída deles do local, e também sobre os ''capas negras'' anteriores a ele, além de perguntar se havia outros países, e como eles eram.
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A lenda da capa negra
FantasyUma antiga lenda nunca antes contada. Dois lobos e dois capuzes. Preto e vermelho. Diferentes histórias que se cruzam no caminho, um loop infinito, uma maldição para ser quebrada, uma caçada sem fim para o culpado. Um rei ganancioso que quer sangue...