Capítulo 4- Caçadora

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Resta-me pouca coisa... tenho de ter você. O mundo pode rir... pode me chamar de absurdo, egoísta... mas isso não significa nada. Minha própria alma exige você; e ou será satisfeita, ou tirará uma vingança mortal em seu próprio corpo.― Charlotte Brontë, Jane Eyre.

Fairbrough, Asteria

Já estavam naquela cidade há dias e não conseguiam dinheiro para passagens para um navio para Uliallan, outro continente em Mereth. A economia do lugar dependia dos navios que vinham de fora, mas atualmente, o movimento estava baixo.

—Plano de gênio, Ian. Sério, isso é tudo culpa sua.

—Calado. Não era eu que estava apressado para sair de Asteria.

Eduardo bufou irritado e voltou a se ocupar com o trabalho de limpar as mesas de uma taberna, enquanto Ian ia para o porto trabalhar de pescador. No caminho, ele colidiu com uma jovem caçadora, que ao passar por ele, sorriu, deixando-o apavorado.

—Vou passar em uma taberna, relaxar um pouco, sabe.

Como o local onde os dois colidiram era um beco, ele teria que seguir em frente e procurar outro caminho de volta à taberna para alertar Eduardo e os outros clientes. Mas não seria necessário, pois de alguma forma, ele havia ficado sabendo, mas continuaria trabalhando para manter o disfarce.

A cena que aconteceu a seguir foi macabra: Eduardo correu para detrás do balcão, pegando seus pertences, e quando colocou a cabeça para fora enxergou uma mulher loira mutilando os braços de um homem já morto, para pegar os membros mutilados para sufocar a garçonete, que era xingada de vadia enquanto morria e outro homem, talvez o dono da taverna sendo partido em vários pedaços e depois tendo seus olhos arrancados do rosto e dados para um bebê recém-nascido se sufocar com eles. Um cenário de horror e sangue em um lugar para diversão. Já estava sentindo náuseas quando colocou a capa e se levantou, tremendo de medo.

—Ah, você está aí, garoto da capa negra. Andei procurando você por tanto tempo, por que me fez esperar? Vejo que está com medo, mas acho que isso não vai ser um empecilho para sua fuga, não, espera, isso seria até motivador e eu adoro caçar os fujões apavorados que se fazem de valentes.

—Eu não tenho medo de você, nem de morrer. Se eu morrer, outro ciclo recomeça não é mesmo?

A mulher apenas riu, deleitada com a tentativa do jovem de esconder o medo, mas ela não havia percebido que ele estava ganhando tempo para Ian aparecer ali, direto do telhado e ajuda- lo na batalha. O que não aconteceu, deixando-o a mercê dos ataques dela, que sorriu ainda mais, em êxtase, pensando em como o mataria.

''Sério que você foi cair logo nas mãos dela? Da caçadora que foi responsável por duas mortes minhas? Enlouqueceu de vez? Lute!''

Ele notou que ela possuía um arsenal de armas, sendo elas de combate a distancia e combate próximo, e resolveu que teria que derrubar algumas das armas mais visíveis, sem ter que ir direto para cima.

Impaciente, ela correu na direção dele e o chutou na boca do estomago, e quando ele se ajoelhou de dor, ela o levantou pelo pescoço, com os pés dele encostando-se ao chão. Usando o peso como gancho, jogou os pés para trás, na direção da parede e se soltou da caçadora, que ficou um tanto atordoada.

Aproveitando isso, ele a socou no rosto e correu em direção à trilha, fora da taberna, e se perguntava sobre o motivo de Ian não ter aparecido para ajuda-lo. Simples: uma confusão havia se instalado no centro da cidade, além da multidão que piorava a locomoção.

Na floresta, começou a sentir-se assustado, e então correu o mais rápido que podia desesperado para fugir. Exausto, se sentou em uma pedra próxima de uma encosta, que poderia desabar a qualquer momento.

—Nunca pensei que teria tanto desespero para morrer, Eduardo.

Sobressaltado, virou-se para ver que tinha sido Ian a falar, e suspirou aliviado.

—Graças aos céus que é você, já estava preocupado.

—Ah, com a caçadora? Eu a achei no caminho e a fiz mudar de ideia, mas mudando de assunto, por que correu para a floresta?

—Melhor morrer quebrando o pescoço do que sendo decapitado ou partido no meio.

Ian riu baixo e pediu para que Eduardo saísse de cima da pedra, para os dois procurarem um lugar para dormir e se prepararem para o dia seguinte. O rosto do homem estava sombrio, e tinha um sorriso nos lábios, mostrando claramente as más intenções dele.

''Ei Eduardo, caminhe mais rápido. Ian não está bem, parece querer te devorar. ''

—Assim como naquela cidade da nuvem negra. —murmurou baixo—Será coisa da lua?

—Não, não é. Estou em minha total sã consciência.

—Acho que deveríamos descansar Ian. Talvez você esteja adoecendo.

''Caramba, quero fugir daqui! Ele está me assustando!''

—Já disse que estou bem, e no momento, eu só quero uma coisa: Você.

''Ah droga, vou ter que correr de novo? Acho que chego a Capel Curig desse jeito. ''

Desorientado, começou a correr feito um louco pela floresta, até chegar novamente na trilha e não conseguia ver nada a sua frente, e ao olhar para cima, enxergou a lua, redonda e branca.

—Então esse deve ser o motivo. Ele está no cio.

E acabou por rir da própria piada, e enquanto ria, duas risadas se juntaram a dele, que parou assim que as ouviu. A caçadora e Ian, com sorrisos sádicos brotando nos lábios, cada qual pensando no que poderia fazer com a vitima, que assustada, pisou em falso em uma armadilha para ursos, deixando o pé esquerdo sangrando muito, e berrava de dor, faltando apenas o choro.

—Ah coitado. Ian, eu acho que você não vai poder brincar com ele.

—Nada vai me impedir de brincar, Clarissa. Eu coloco um curativo nele, o deixo descansando por uma hora, para garantir que não vai ter uma hemorragia externa, aí brinco com ele até perder os sentidos.

—Está sendo muito bonzinho, Milner.

Riu zombeteiro, enquanto tirava a armadilha do pé de Eduardo, que gemeu de dor, se agarrando a manga da camisa de Ian, que não esboçou nenhuma reação a aquilo, e segurou o ferido nos braços e caminhou de volta a cidade, aonde viriam vários barcos de manhã cedo.

Fez como disse: ao voltarem, colocou um curativo e o deixou dormir por uma hora, e depois o acordou com uma mordida atrás da orelha, fazendo com que o garoto acordasse sobressaltado, batendo de cara com Ian, que sorriu maliciosamente.

—Eu vou comer você.

''Nossa, quase esqueci que eu sou irmão da Chapeuzinho Vermelho. E quase me esqueci do Lobo Mau. Espera cadê a vovó? Cadê a mãe? Deixa para lá, no momento estou em apuros. ''

Não pôde deixar de corar com aquilo, e fez menção de se levantar, mas foi empurrado de volta, por causa do pé machucado.

—Agora vai dar uma de curandeiro?

—Claro. Sou seu curandeiro especial.

Encostou os lábios no pescoço dele, que quase caiu da cama e depois beijou a mesma região, agora abrangendo a clavícula, e continuou a morder o abdômen, enquanto levantava a camisa alheia.

—Isso... é assédio.

—Cala a boca. Comida não fala.

Faminto, desceu as mãos para a calça da ''comida'' e ameaçou tirar, mas foi empurrado brutamente no chão por um enfermo cheio de energia, que pediu educadamente para ele se retirar do quarto até a hora de partir para o navio. E ainda frisou que quando chegassem a Capel Curig dormiriam em quartos separados. ''Cara mais tarado. Eu hein. É o que dá tá no cio. ''

Na manhã seguinte, Eduardo se levantou mancando, mas não pediu ajuda para nada, orgulhoso e envergonhado como estava. Ao zarparem no navio, ele estava com uma incrível dor no pé direito, por excesso de peso, e um par de muletas improvisadas, com um lobo de ego ferido. A viagem até lá duraria um dia inteiro, então foi dormir, com sentimentos conturbados.

A lenda da capa negraWhere stories live. Discover now