Não sei como consegui evitar a queda, talvez porque meus instintos falaram mais altos, ou o armário acabou demorando tempo demais para ceder. Eu só sei que consegui me jogar para longe, a madeira apenas alisando a sola do meu sapato.
A garota estava com a mão na boca, quase sem reação.
-Eu... – Ela tentou dizer, mas as palavras estavam presas. – Você não devia ter vindo atrás de nós.
Nós? Quem era nós?
Meu coração batia tão forte que eu não consegui formular uma pergunta. Antes que conseguisse me por de pê ela já havia ido embora, e eu fui atrás dela.
-Espere.
Ela apressou o passo, mais rápido do que achei que uma garota como ela pudesse correr ou talvez fosse pelo fato de eu estar tremendo por diferentes razões.
-Volte aqui!
Ela não me deu ouvidos. Continuou correndo até ser forçada a parar pela porta trancada.
-Mais que merda! – gritou ela dando murros na porta.
Fiquei olhando-a jogando sua raiva no cadeado, sentindo o coração vibrar por todo o corpo. Não conseguia processar o fato de que eu podia estar morto agora.
A garota finalmente se virou, decidindo me encarar.
-O que você quer?
-Foi você que tentou me matar? – devolvi a pergunta.
Ela soltou uma risada.
-Tenho cara de alguém dos X-Men agora?
Isso me deixou mais irritado.
-Não se faça de idiota!
-Não, você que se ponha no lugar, Peter! – Ela deu um passo à frente como se fosse me destruir. – Acha mesmo que não sabia quem você era? Todo mundo sabe! Você é o garoto bêbado que vive atrás de uma vagabunda como se fosse um cachorrinho porque os pais devem bater que nem um saco de pancada. É isso que você é. Um. Saco. De. Pancadas.
Fiquei sem saber oque dizer. Não sabia que as pessoas me vinham como uma droga de um livro aberto. Pensava mais que não davam a mínima para mim. Ela havia acertado em quase tudo, menos quando disse que meus pais batiam em mim. Ás vezes até gostaria que o fizessem, pelo menos estariam me dando alguma atenção.
Caramba, aquilo havia doido e o pior é que ela havia simplesmente esfregado na minha cara como se fosse nada.
-Você... Não respondeu minha pergunta.
-É isso que você vai dizer? – Ela se controlava para não rir. – Você é patético sabia? Por isso sua vida é uma merda, você é um bosta.
-Não preciso de lição de moral vindo de você. A vida da princesinha não estava boa em casa? O papai e a mamãe não deram o Iphone da cor que você queria? O namoradinho não te acordou com beijinhos? Por isso você decidiu fugir de casa? – disse da forma mais cruel que pude.
Eu não costumava ser cruel, mas não conseguia me segurar mais. Ela merecia.
A garota cerrou os punhos, pronta para entrar na briga.
-Você não sabe nada da minha vida – disse ela me fuzilando com o olhar. – não se atreva a falar dela.
O vidro começou a condensar, ficando coberto com uma camada fina de gelo. Eu podia enxergar o gelo se formando como um exército de formigas marchando por cima de território inimigo.
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O Dia Antes do Natal
Short StoryPara muitos o natal é uma época mágica, para Peter é só mais um dia para seus pais brigarem. Cansado de conviver com seus gritos, o garoto decide fugir para o único lugar desolado nessa época do ano onde ele sabe que terá paz: A escola. Mas as pesso...
