-Cheguei – disse batendo a porta atrás de mim.
-Peter? É você?
Minha mãe saiu da cozinha, quase escorregando nos saltos. Sua falta de equilíbrio já mostrava que já havia começado sua tradição natalina de beber muito.
Ela me olhava um pouco estranho, seu batom indo até o queixo.
-Você saiu?
Então ela nem percebeu?
-Quem é agora? – Meu pai apareceu, arrumando um pouco a gola da camisa. A noite mal havia começado e ele já estava suando de nervoso. – Onde você estava? Saiu do nada sem nem nos avisar? Como você é irresponsável.
Nenhum deles percebeu que fiquei fora por horas. Fazia sentido.
-Não venha jogar a culpa em mim, Robert!
-Eu não falei nada, Mary! Você adora mesmo ser a vítima da história.
-Não fala comigo assim!
-Então não abra essa boca!
Os dois estavam prestes a começar tudo de novo, como um ciclo sem fim. Antes que começasse decidi tomar as rédeas da situação.
-Calem a boca.
Ambos olharam para mim.
-O que você disse? – perguntou meu pai.
Limpei a garganta, engolindo meu medo.
-Mandei calarem a boca.
-Como você ousa...
-Como ousa vocês! – Dei um passo à frente, encarando os dois. – Acham mesmo que eu não ouço o que dizem um ao outro?
Eles deram um passo para trás, supressos com a minha atitude.
-Pois eu ouço, todo o dia.
Joguei minha mochila no chão.
-Tanto que eu estava planejando ir embora e nunca mais voltar. Era melhor do que ficar aqui, ouvindo vocês amaldiçoando um ao outro. Se se odeiam tanto, porque ainda continuam juntos?
Nenhum deles soube responder a pergunta. Pareciam tão envergonhados que talvez até tivessem esquecido como falar.
Minha mãe tentou dizer algo, mesmo tomada pelo vinho.
-Filho... Certas vezes os pais...
-Não, não quero desculpas – e antes que pudessem falar mais eu segui para a cozinha.
Ninguém havia servido a ceia. Peguei o avental e comecei a colocar os pratos e a comida na mesa. Estava exatamente como a de todos os natais.
Depois de um tempo, meus pais me seguiram e eu ouvi a porta bater.
-O que você está fazendo? – perguntou meu pai.
-Servindo a ceia.
-Mas...
-Apenas uma vez jantaremos como uma família normal. Sem brigar. Então, por favor, sentem-se.
Minha mãe se sentou na mesma hora, já meu pai demorou um pouco. Ele não era acostumado a receber ordens, mas acabou cedendo com um dar de ombros.
-O que vocês vão querer? – perguntei.
-Eu gostaria de um pouco de batatas doces – respondeu minha mãe e eu a servi.
-Eu gostaria... Talvez de um pouco de arroz doce – pediu meu pai um pouco acanhado.
Era compreensível, nenhum de nós estava acostumado com essa situação. Eu o servi do melhor jeito que pude e depois me servi.
-Está muito bom mãe, obrigado – disse depois de algumas garfadas.
-Sério? – ela estava tão surpresa. – Obrigada, filho.
-Está mesmo bom – admitiu meu pai.
Minha mãe parecia que havia ganhado o dia. Seu sorriso era tão grande que ela passou a comer com vontade.
De fato, estava mesmo bom. Nenhum de nós precisava fingir.
-Então, Peter. Onde você estava? – perguntou meu pai depois de algumas colheradas.
Será que eu contava para eles a verdade?
-Estava com duas garotas.
-Duas garotas? – meu pai não conteve o sorriso.
-Não foi nada nesse tipo – embora eu tivesse ganhado um beijo. – Elas só me fizeram ver as coisas de um jeito diferente.
-De que jeito? – perguntou minha mãe.
-Ainda estou tentando descobrir, mas pela primeira vez eu vejo uma luz e não quero deixa-la ir.
FIM
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O Dia Antes do Natal
Short StoryPara muitos o natal é uma época mágica, para Peter é só mais um dia para seus pais brigarem. Cansado de conviver com seus gritos, o garoto decide fugir para o único lugar desolado nessa época do ano onde ele sabe que terá paz: A escola. Mas as pesso...
