ESMERALDAS NEGRAS - PARTE 2

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As pessoas estavam sendo assassinadas.

Uma falange de seres bestiais derrubou violentamente os portões da cidade, ceifando as vidas dos que tentaram impedir. Os guardas partiram para o confronto armados com modestos escudos e espadas. Nesse meio tempo, já caíam das guaritas os corpos cravejados de flecha dos arqueiros assassinados.

A batalha em si, durou pouco. O bastante apenas para que os soldados locais fossem separados de suas cabeças pelo fio dos machados inimigos. O que houve depois, foi massacre.

Casas e construções, das mais modestas às mais suntuosas, foram derrubadas e incendiadas junto com tudo que tentou resistir. Jovens e idosos, mesmo suplicando pela vida, foram mortos sem hesitação. 

- As crianças – vociferou a maior entre as feras invasoras – Achem um lugar e prendam todas elas. 

Crianças foram separadas de seus pais, não antes de vê-los morrer brutalmente. Os poucos que conseguiam escapar acabavam tropeçando na profusão de corpos e restos desencontrados de cadáveres que preenchiam as ruas. Tavernas, estalagens e casas de palha, foram todas, uma a uma, reduzidas a cinza. Poucas horas foram suficientes para que a outrora gloriosa cidade de Dayshahar fosse completamente tomada. Seguiram-se horas de pilhagens e busca por sobreviventes. E então as feras começaram a deliberar. 

- Quantas crianças vocês prenderam – o maior gritou com um grupo de outros sete que vinha de uma viela.

- Mais de vinte, senhor – grunhiu em resposta um deles – Vamos devorá-las?

- Não, idiota. O Conquistador tem outros planos para elas.

Já anoitecia. Os trogloditas assaram parte dos corpos que amontoavam as ruas sujas de morte. As crianças capturadas foram amarradas e enclausuradas em um enorme fosso que os monstros escavaram mais ao sul da cidade. 

- E essas mulheres, senhor? – referia-se a duas jovens que estavam algemadas e ajoelhadas no chão a poucos metros dali.

- Deixe-as aí. Quando o Conquistador vier até aqui, vai precisar de alguma coisa para se divertir. 

***

Apesar do grande número de generais e conselheiros de guerra presentes, apenas a Rainha, o bárbaro Murdaryk, e seus colegas estavam se manifestando. 

- Um ataque frontal! Direto – Murdaryk levantou-se da cadeira para propor.

- Vocês morreriam – a Rainha não se entusiasmou pela autoconfiança do súdito.

- Ele tem a seu lado goblins e trogloditas. Mesmo que sejam muitos, podemos vencer – Murdaryk continuava sendo o único de pé.

- Há informações de que há golens de ferro em suas fileiras também – um dos conselheiros avisou.

- Esses dariam mais trabalho – o bárbaro sentou-se – Mas mesmo assim...

- Murdaryk, não irrite nossa Rainha com sua impaciência – foi Hydayn, o monge, quem interrompeu desta vez – Majestade, o que sabemos sobre essas Esmeraldas Negras? Há alguma forma de anular seu poder, ou de vencer seu portador?

- Finalmente uma pergunta decente – Durud sussurrou.

A Rainha Yalanthara levantou-se.

- Segundo informações, em um passado distante, quatro semideuses malignos tentaram conquistar o mundo pela força. Um grupo de heróis escolhidos conseguiu derrotá-los. Mas existia a possibilidade dos semideuses voltarem à vida, pois sangue divino corria em suas veias. Então, através de um complexo ritual, os heróis conseguiram aprisionar a essência dos semideuses mortos em quatro esmeraldas mágicas.

- As Esmeraldas Negras – Murdaryk concluiu.

- Sempre achei que isso fosse uma lenda – a monarca prosseguiu – Até acontecer isso que vocês já sabem.

- Ele está usando o poder de semideuses que foram derrotados. Então, ele também pode ser derrotado – o bárbaro levantou-se e deu um soco na mesa.

Silêncio. Ninguém se deixou contagiar pelo otimismo. A Rainha prosseguiu.

- Até onde eu sei, a única forma de deter alguém que tenha todas as esmeraldas é aprisionando-o em um espaço entre as dimensões chamado “Zona Negativa”. Mas não sei onde fica esse lugar, nem como chegar lá, tampouco como prender aquele maldito lá dentro.

Silêncio. Todos ficaram cabisbaixos. Por longos minutos, não houve troca de olhares.

- Há alguém que saberia nos dizer tudo isso – a Rainha surpreendeu a todos – O Sábio Vierhut. Foi meu súdito durante muito tempo. Mas foi expulso do reino por assassinato. Hoje reside em Zyephyn, uma cidade isolada, não muito longe daqui.

- Então, se pudermos encontrá-lo... Bem, mas será que ele cooperaria? – Murdaryk se questionou em voz alta – Isso será difícil.

- Poderia ser pior – era Durud, em voz baixa – Zyephyn poderia ter sido conquistada pelo inimigo.

- E foi – a Rainha completou. Durud ficou constrangido.

- Há algo importante a ser levado em conta – Hydayn interrompeu – O Conquistador Negro não estava junto de seus exércitos na conquista de Dayshahar. E, se bem me lembro, ele disse que, antes de qualquer coisa, iria atrás de quem o desafiou no passado.

Murdaryk. Todos o fitaram com olhares acusadores. Ele certamente seria o primeiro alvo da vingança do Conquistador.

- Vamos nos dividir – em resposta, o bárbaro apenas sorriu – Eu saio do castelo, junto com mais alguém. Nos escondemos, e assim o Conquistador não ataca o castelo. Dois ficam aqui, para defender a Rainha, caso o Conquistador ataque o castelo. E os outros dois vão atrás do sábio em Zyephyn. 

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