Caput VI - Aquila non captat muscas

66 5 11
                                        

{Capítulo corrigido!}

Após o surpreendente primeiro dia de trabalho, Harriet não sentia fome.

Seus sentidos ainda estavam congelados. Foi quando olhou para o relógio analógico ao lado da cama que percebeu sinceramente surpresa que já era quatro horas da manhã e mal sentira o tempo passar como deveria ter passado. Recordava que havia se deitado às nove horas da noite depois de chegar do estágio e tomar um banho relaxante.

Lembrava também de ter trancado as portas e janelas no máximo de voltas que suas chaves poderiam dar e checar duas vezes cada cadeado.

Desta vez, ao chegar em casa, Harriet não havia ligado o som, ou passado antes na biblioteca para comprar um novo romance, ou até mesmo um filme doce e uma novela do horário. Harriet estava novamente fora do mundo real, perdida e concentrada no seu próprio. Só esperava que desta vez nenhum assassinato ocorresse e a deixasse por fora novamente.

Seus pensamentos eram perturbados pelas informações que obtivera e pela a última pasta – consequentemente, a mais atual – que estava na lista que David lhe passara. Não era grossa como a de alguns casos que duraram anos turbulentos com crimes locais e jovens infratores. Mas ela parecia estar manchada de sangue aos olhos de Harriet, mesmo aparentemente não estando de verdade.

Quatro horas e vinte minutos.

Harriet levantou-se de sua cama, colocando os pés descalços no chão gelado, sentindo um frio súbito junto com um vento clandestino que soprou pelo seu corpo. A camisola rosa-bebê com margaridas não era capaz de lhe confortá-la mais. Aliás; algo jamais seria?

Seguiu em direção aos arquivos que estavam acomodados em cima da escrivaninha em seu quarto, iluminada pela luz da lua que entrava através da janela logo acima. Seu foco era a tal ficha do caso de hoje. Lentamente, ela foi retirando um por um em busca do último. O motivo de sua hesitação era a falta de coragem que estava sendo adquirida aos poucos, junto com a questão de: poderia não ter coragem, mas será que tinha vontade de ler tais absurdos?

Talvez fosse isso que a manteve em direção a ficha. A esperança de que não teria tamanhos absurdos e que, no final das contas, tenha sido apenas um caso específico de tortura e perda de noção. Onde o assassino seria uma pessoa qualquer ou alguém do Hospital Psiquiátrico. Talvez o encontrassem insano jogado em algum beco ou que a pessoa viesse cheia de culpa confessar seu crime. E tudo teria sido apenas uma coisa excêntrica e especial que se vê uma vez na história.

Harriet realmente acreditava nisso. Acreditava com todas as suas forças. Acreditava para não ter que imaginar que existiam pessoas sãs que faziam aquele tipo de coisa, que as pessoas tinham moral e noção do mundo, de tão horrível que era a situação de roubar a vida de alguém, estuprando sua alma. Mas acreditava principalmente para não ter que se imaginar estando na mesma cidade que um assassino de tal capacidade. Sozinha. 

Encarou a última ficha. Não tinha as manchas de sangue que ela tinha a sensação de ter, mas ainda atribuía que se lesse aquilo conseguiria ouvir os gritos da vítima clamando por misericórdia em seus momentos de agonia e desespero.

Harriet respirou fundo, tentando tirar a imagem de sua cabeça. Vítima não; era quase desrespeitoso. Achou que a deveria chamar pelo seu nome, Hilary, tentando ter um pouco de honra pela garota que se foi, pela qual iria lutar para ter justiça e descansar em paz.

Rasgue-meHistórias para pegar e não largar. Descubra agora