Caput II - Quod me netrit me destruit

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Ao sair de casa, Harriet teve que se abraçar contra seu casaco. O tempo frio de outono estava em um dos seus dias mais críticos e, mesmo com a luz do sol leve das nove da manhã batendo contra seu corpo, não se sentia nem um pouquinho aquecida.

Trancou a porta e lembrou-se da sua cama macia e quente. Com uma careta de sofrimento, conferiu o celular mais uma vez, para saber se havia mensagens de confirmação de que Johnny estaria lá ou tinha cancelado. Caso tivesse - e ela torcia para que tivesse -, iria voltar para cama e mergulhar em sonhos profundos e travesseiros felpudos.

Infelizmente, a mensagem de Jonathan estava na tela de bloqueio. Tratou de começar a andar e esmagar os pés contra os saltos pretos que batiam auditivamente no chão progressivamente. Seu objetivo era um café há poucas quadras dali.

Desde os dezesseis anos foi acostumada a ver o Johnny praticamente todos os dias. Agora a faculdade de Direito, as visitas se tornavam entre a ruiva e o estudante praticamente inexistente, e isso a machucava. O mundo girava rápido e com bastante intensidade, em sua opinião. Então era necessário jogar de cabeça para acompanha-lo. Ou acabaria ficando para trás. Filosofias de uma desanimada.

Era o tipo de compromisso que valia a pena, pensou Harriet enquanto observava o céu acinzentado. Com o tempo, a única família que sobrou para ela foi ele, mesmo. Seus pais moravam em outro estado, suas amigas eram só amigas e era filha única. Na conclusão, sua cama podia esperar.

Suspirou aliviada pelo frio quando virou a esquina e viu o café semicheio, a chegada do seu destino. Apertou a bolsa contra suas costelas, no medo de ser roubada em um dos poucos becos do caminho e adentrou ao local.

De longe, pôde ver Johnny lendo o cardápio de acompanhamentos, com uma testa franzida e uma feição indecisa. Williams conhecia essa história: ele iria passar meia hora lendo e argumentando sobre cada pratinho, para no final escolher biscoitos com gotas de chocolate e uvas passa.

Conhecê-lo tão bem era igualmente doloroso. Mas isso iria passar. A mulher tinha fé nisso.

- Olá, Jonathan - Sorriu e sentou-se à mesa de frente. - Vejo que está em uma daquelas escolhas difíceis da vida – murmurou com humor.

- Não me zoe. É difícil escolher um acompanhante para cappuccino - resmungou e tirou os olhos do cardápio, erguendo a cabeça e sorrindo para a ruiva. - Oi, Harrie!

Harriet lhe lançou um olhar fraternal e um sorriso morno. Repletos de carinho. O moreno retribuiu, analisando-a com seus olhos de âmbar e sua boca curvada em um sorrisinho simpático. Johnny era bonito, mas não atraía a melhor amiga. E isso é tudo que precisa saber.

- Como vai a faculdade?

- Estudar leis nunca foi tão adorável.

Harriet sorriu novamente. A cafeteria estava meio movimentada, com mais ou menos quinze pessoas. O tempo começava a esquentar enquanto o sol surgia com mais vida, ainda às nove da manhã. Com isso, teve liberdade de prender seus cabelos e tirar o casaco. Qualquer raio de sol que viesse era lucro e bem recebido.

As pessoas pareciam calmas e sérias naquela manhã; alheias aos problemas mundiais. A pequena TV na lateral superior do café passava um noticiário sobre as últimas notícias; uma nevada em tal lugar, um acidente de carro em outro, hospitais cada vez mais ocupados, pesquisas sobre obesidade e matérias sobre a Suíça. O jornal local parecia querer falar sobre tudo.

- Harrie? - o garoto chamou sua atenção, um pouco hesitante. Assim que ela o olhou, seus olhos cor-de-âmbar mudaram de direção. Ela sabia que ele estava prestes a falar algo inconveniente. – Você já decidiu aceitar o cargo, não é?

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