Mudar era preciso. Mudar era preciso. Mudar. Era. Preciso.
Era isso que não saía da cabeça de Isadora enquanto encarava o caminhão de mudança bem a porta do seu novo endereço, quilômetros de distância de onde sempre havia sido seu porto-seguro. Era isso que ela repetia a si mesma quando via sua filha – uma menina loira, de olhos verdes e uma personalidade beirando o insuportável de tão destemida – mascar o chiclete de um modo bem pouco educado, vestida com aquele casaco horroroso de futebol que só colocava para irritar a mãe, com o fone vermelho grande demais para sua cabeça no último volume tocando um rock ensurdecedor até para quem estava a distância.
— Isis – Isadora chamou – Isis! – falou mais alto – ISIIIIIS!
A menina, alheia aos gritos, estourou uma bola rosa na boca, balançando a cabeça ao som da música.
Isadora caminhou até ela, os passos firmes, e a segurou pelo cotovelo.
— Isis!
A menina arqueou uma sobrancelha, girando o rosto para encarar sua mãe. Então, deu de ombros e estourou outra bola de chiclete.
— Chega – Isadora disse, puxando o fone de ouvido da cabeça da filha – Você vai ficar surda antes de chegar à puberdade se continuar ouvindo música nessa altura.
— Quem se importa?
Isadora rolou os olhos, sem paciência.
— Por que, ao invés de estourar seus tímpanos só para me irritar, você não me ajuda a carregar umas coisas lá para dentro?
— Quem foi que quis mudar mesmo? Quem foi que disse que eu não precisaria fazer nada? Quem foi que disse que mudar era preciso e que eu ia adorar a nova cidade? – a garota levou a mão ao queixo, fingindo pensar – Ah. Foi você. – abriu um sorriso que escorria cinismo.
Às vezes era difícil se controlar, pensou Isadora. Ela nunca achou que era violenta ou agressiva, a sua vida toda havia mantido relações que, embora tenham sido difíceis, nunca exigiu dela tanta paciência. Mas Isis – sua filha, que carregava o seu sobrenome – parecia vindo ao mundo só para essa função.
E aquilo era desesperador.
Como é que ela havia terminado ali? Logo ela que sempre havia sido boa em tudo o que se propunha a fazer? Nunca havia achado algo realmente difícil, que não pudesse ser controlado após um tempo. Mas sua filha era o oposto disso: quanto mais o tempo passava, mais difícil a criança ficava e menos paciência Isadora conseguia manter.
— Por favor, Isis, não torne tudo mais difícil do que já é.
Agora a menina arqueou a outra sobrancelha, na sua expressão mais descrente.
— Foram seis horas de viagem até esse fim de mundo, Isadora, eu só quero tomar um chocolate quente e dormir porque eu aposto todas as minhas fichas que vou ser obrigada a ir para mais uma escola nova, conhecer mais pessoas chatas e me irritar com mais professores que nunca deveriam dar aula nessa vida.
Era a quarta escola de Isis nos últimos dois anos.
As últimas três ela saíra por expulsão. Na verdade, pensou Isadora, agressão era a palavra mais certa. Isis não era exatamente o tipo de pessoa que ouvia acusações e ficava quieta. Era corajosa demais para a paz de espírito da mãe.
— Bem, se você me ajudasse, conseguiria dormir mais cedo.
— Eu sabia que isso ia acontecer. Sabia que ia sobrar pra mim – jogou as mãos pro alto – Isis, faça isso. Isis, pegue a caixa. Isis, coloque suas roupas dentro da caixa. Isis, tira a roupa da caixa. Isis, guarde as roupas dentro do guarda-roupa. Isis, é pra guardar direito e não como tá guardando. Isis, você já tem oito anos e pode se comportar como uma mocinha. Isis, tira o uniforme de time. Isis, abaixa o volume do som. Isis, Isis, Isis.
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Feridas Profundas (HIATO)
Ficción GeneralESTE LIVRO PODE CONTER GATILHOS RELACIONADOS A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. Há algo de podre no reino da Dinamarca, escreveu Shakespeare no ato I de Hamlet. Já se passaram vários atos na vida de Isadora e, mesmo assim, tudo continuava apodrecendo ao seu r...
