Cheguei a Los Angeles e morei um tempo em uma república. A turma era legal, mas tinha a impressão de que não suportaria morar ali por muito tempo.Tudo ocorreu além das expectativas e não me imaginava retornando para o Brasil. Quando comuniquei aos meus pais que iria permanecer fora por algum tempo, escutei até mesmo que eles não se sentiam amados e que eu os havia esquecido, que eu não fazia questão de ter a família por perto e que, por favor, pelo menos lhes desse o prazer de uma visita por ano. Aceito.
Fui "adotado" por vários professores e a maior parte das minhas saídas era para tomar um café nos fins de tarde em frequentes encontros com uma turma muito mais velha, que dialogava sobre a psicologia e suas variações. Debatíamos em qualquer lugar e em qualquer ocasião e o assunto era sempre o mesmo. Quando nos sentávamos no banco do metrô, atínhamo-nos a observar à nossa volta e avaliar o comportamento das pessoas e seus aspectos predominantes, o que as levava a agir de determinada forma. Desenhávamos o perfil dos indivíduos e com base nisso discorríamos durante tardes e noites inteiras. Não tinha para onde fugir. A psicanálise era o meu forte.
Passei três anos entre pós-graduação, mestrado e doutorado e ao longo desse tempo montei o meu consultório. Envolvi-me com algumas causas sociais e atendia pacientes em clínicas de recuperação, mas o meu grande sonho estava realizado. Toda tarde chegava ao meu consultório e avistava uma plaquinha na porta, na qual estava escrito: "Dr. Gabriel Rocha — Psicanalista".
Queria atuar na minha área, queria ter esse contato com as pessoas e durante os quase três anos de atendimento voluntário tudo caminhou numa crescente surpreendente. A maioria das pessoas que me procuravam terminava relatando alguma questão amorosa ou íntima e comecei a perceber que estava me especializando em terapia sexual ou de ordem afetiva.
Decidi que precisava sair e procurar um lugar para mim. Precisava de privacidade, um banheiro sempre limpo, cozinha com comida e o principal: um quarto só meu, em que pudesse viver à minha maneira.
Depois de semanas procurando pelo lugar ideal, deparei-me com um anúncio pregado no mural do curso:
PROCURA-SE COLEGA PARA DIVIDIR APARTAMENTO EM BEL AIR.
Entrei em contato e, apesar de haver imaginado ser um homem, pela coragem de abrir as portas da sua casa para "qualquer um", quem atendeu ao telefone foi a voz de uma mulher em uma secretária eletrônica: "Se você ligou para a Claire, deixe o seu recado. Mas, afinal de contas, ainda não consegui ninguém para dividir o apartamento, então você só pode ter ligado para mim". Piiiiiiiiiiii.
Fiquei atordoado com o tom da voz e perdi o raciocínio nos primeiros segundos, falando meio afobado.
— Olá, Claire. Meu nome é Gabriel e eu vi o seu anúncio para dividir o apartamento. Retorno a ligação à noite e nos falamos!
Desliguei o telefone. Uma mulher? Ela não vai querer dividir com um homem. Por que as pessoas não são objetivas e explicitam as suas preferências para não criar expectativas em terceiros?
Deixei passar uns três dias e decidi ligar novamente para o número do anúncio. E novamente atendeu a secretária eletrônica e eu decidi deixar o meu telefone para contato:
— Olá, Claire. Sou eu de novo, o Gabriel...
— Alô, Gabriel. Sou eu, Claire.
Tomei um susto com a intervenção e fui logo adiantando o assunto:
— Então, Claire. Decidi ligar mais uma vez e apesar de achar que o seu anúncio fosse voltado para colegas do sexo feminino, quis tirar a dúvida de qualquer jeito.
— Não, não... Na verdade eu já tentei morar com duas mulheres e não deu certo. No início era uma maravilha, mas com o tempo a relação rotineira ia desgastando e tudo ia por água abaixo, além de outros contratempos que não vêm ao caso agora.
— Entendo. Nem sempre dividir apartamento com quem não conhecemos é uma tarefa fácil e não vou mentir que é uma experiência nova para mim também. Gostaria de marcar para conversarmos um pouco mais.
Ela foi breve e me passou o endereço. Marcamos para as 10h do dia seguinte.
Repassando as minhas consultas diárias, imaginava ouvir a voz de Claire entre elas. Tive um sono conturbado e acordei suando. Levantei-me da cama e andei pelo quarto, tentando entender aquela ansiedade. Fiquei alguns minutos debruçado na janela, respirando o ar da noite. Tomei um copo d'água, voltei para cama e não dormi mais até a hora do encontro.
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O quarto do sonho
Romantik(Degustação) Conteúdo adulto. Para ter acesso aos capítulos você precisa me seguir e adicionar a obra à sua biblioteca!! 1º volume da trilogia "Entre Quatro Paredes" Lançado pelo selo Talentos da Literatura Brasileira - Novo Século O livro está disp...