Naquele dia não consegui ir à faculdade.Em quase cinco anos de curso havia faltado apenas dois dias, um por motivo de doença e o outro porque era a formatura dela, o momento em que a minha irmã mais velha, aquela que eu admirava acima de todas as diferenças, estava dando um passo em direção a uma nova etapa da sua vida.
Ela se formou em marketing e trabalhava numa agência reconhecida como uma das mais importantes do cenário na época. Soube que tinha falido e que após a separação dos sócios, que eram casados, a coisa tinha desandado. Como Lara cuidava de contas de grandes empresas, ela conseguiu carregar com ela parte dos parceiros e até alguns funcionários, e montou o seu próprio negócio. Pequeno, mas bem-sucedido.
Lara conhecia muita gente e aquele era um momento de comemoração para a família e todos os amigos. Estávamos todos vibrando por ela e eu não poderia deixar de estar lá. Permaneci toda a noite com minha câmera em punho, registrando cada minuto. Não perdi sequer o momento do "tchau" após ela fechar a porta do quarto, bêbada e contagiantemente feliz. Foi uma noite belíssima para todos e jamais irei me arrepender de ter perdido uma aula por ela, mesmo depois de todos os insultos que ela me dissera. Mas nessa noite não deu.
Era o dia que antecedia a minha apresentação e eu precisava manter o foco. Entretanto, antes de qualquer outra coisa sentei-me em frente ao computador e escrevi detalhadamente tudo o que ela havia jogado em cima de mim, fazendo questão de pôr em negrito as palavras mais duras: louco. Aventuras adolescentes. Segurança protecionista. Palavras de loucos. Aprisionado aos meus medos.
Perdi-me no tempo olhando aquelas palavras e tentando compreender qual parte da minha própria vida eu havia perdido. Onde exatamente eu passara sem perceber que aquelas eram verdades irremediáveis, com exceção das aventuras, que eu nunca havia vivido.
Perguntei-me por que louco... Sempre fui comedido, ótimo amigo e não agia por impulso. Tinha cuidado com os mais velhos e atenção com qualquer ser humano que se aproximasse de mim. Respeitava os meus pais acima do certo e do errado e era incapaz de magoar ou ofender alguém. Sim, dentro do contexto da sociedade atual, eu era um louco.
Percebi que a segurança protecionista fazia parte da minha vida desde o dia em que caíra do balanço na casa dos meus avós, após um ataque de abelhas. Precisei tomar alguns pontos na cabeça, tive febre alta, além de uma dezena de picadas por todo o corpo, e meus pais nunca se perdoaram pelo fim de semana em que eles haviam deixado a mim e a Lara "abandonados" para fazerem uma viagem de segunda lua de mel. Depois desse dia eles cuidavam da gente com um zelo tão extremo que em determinados momentos tinha vontade de pedir que parassem, mas não o fazia por respeito e, acima de tudo, para não machucá-los. Já a Lara fugia... Sempre fora mais rebelde e independente, conquistando sua alforria e fazendo com que todo o excesso de cuidado fosse canalizado para o caçula da família: eu.
Quando ela se referiu a todo o meu conhecimento como adquirido através de palavras de loucos, isto me doeu fundo. Era como se tudo em que eu acreditava não tivesse o menor valor para ela. Sempre fora convicto quanto à minha escolha. Sabia desde sempre que queria estudar psicologia e que era a profissão certa para mim. Enquanto meus colegas se confundiam cada vez mais em testes vocacionais, eu já pesquisava sobre em que faculdades tentar entrar, na busca de me tornar um profissional reconhecido por ter me formado na que melhor representava a minha escolha. Nossa família não era rica, mas vivíamos confortavelmente e meus avós haviam guardado reservas para garantir os estudos de todos os netos. Eu passei na melhor faculdade federal, o que me garantiu uma poupança considerável para investir em cursos e montar o meu consultório após a formatura.
Ao mesmo tempo, entendi que havia vivido poucas experiências e que não conhecia nada do mundo. Nunca fizera viagens que não fossem em família e era tão focado nos estudos que não me permiti ter ao menos uma namorada firme além da Melissa, alguém para experimentar um pouco mais da vida. Não gozei das aventuras, nenhuma daquelas que meus amigos, os poucos que tinha, já haviam vivido e insistiam em querer me contar com detalhes para ver a minha reação. Na verdade, nunca havia ido a uma festa de verdade, tomado um porre e acordado de ressaca. Nunca havia sofrido por uma paixão não correspondida ou por uma dúvida não esclarecida. Entendi que nunca tivera medos porque nunca fora exposto ao mundo. E foi aí que tudo mudou.
É... Amar fere!
Faltei três dias na aula em cinco anos e me formei aos vinte e três como aluno laureado, com honras e uma bolsa de estudos para uma pós-graduação em Los Angeles.
Tudo aconteceu muito rápido entre a formatura e o comunicado à família de que iria estudar no exterior. Inicialmente, passaria apenas um ano lá e depois decidiria o que fazer da vida.
Pela primeira vez estava dando um passo sem saber exatamente aonde pretendia chegar.
Minha mãe era professora de inglês e lá em casa todos crescemos falando as duas línguas, mesmo no convívio diário. Isto facilitou muito a minha vida profissional. Durante anos dei aulas particulares e conseguira juntar um bom dinheiro, já que não gastava com nada, além de dominar a língua como um americano.
Graças às minhas economias e aos meus avós eu poderia bancar minhas necessidades enquanto estivesse fora, dando-me ao luxo de não trabalhar e focar no aprendizado, mais uma vez. Meus pais ameaçaram desmaios e tentaram me amedrontar com a dura realidade a que seria exposto indo morar em um país desconhecido e sem conhecer ninguém, mas nada poderia me impedir. A minha relação com a Lara havia ficado estranha e mal nos cumprimentávamos. Limitávamo-nos a pedir que um passasse a cesta de pães para o outro no café da manhã ou a abraços embaraçados e pouco calorosos em datas comemorativas.
Muito do meu sucesso profissional eu devo a ela, pois no momento em que tentei abrandar a dor que morava no seu coração, sem piedade ela meteu o pé na minha bunda com força e me chutou para a vida.
Valeu, Lara! Graças a você eu cheguei lá!

VOCÊ ESTÁ LENDO
O quarto do sonho
Romance(Degustação) Conteúdo adulto. Para ter acesso aos capítulos você precisa me seguir e adicionar a obra à sua biblioteca!! 1º volume da trilogia "Entre Quatro Paredes" Lançado pelo selo Talentos da Literatura Brasileira - Novo Século O livro está disp...