Capítulo 01

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26/02/2006

― A encomenda chegou, senhor. ― A voz rouca e baixa vinha de uma mulher idosa, com os cabelos, sobrancelhas e cílios brancos.

― Tragam. ― Ele não desviou os olhos do jardim que a varanda privilegiada do enorme castelo lhe proporcionava.

― Sim, senhor.

Com o fechar da porta soando, Alexsander Mordoren Blanchard não moveu sequer as pálpebras. Ele continuava encarando o jardim de tulipas que floresciam no frio francês. O cheiro típico, mesmo com as vidraças fechadas, chegava a suas narinas com absoluta facilidade.

A mesma facilidade que tinha em sentir o odor do suor e das lágrimas da nova presença ali, e ainda que não houvesse colocado seus olhos sobre a figura, era capaz de ouvir as batidas desesperadas de um coração ainda crescendo.

Dono de uma riqueza incontável, acumulada com o passar dos séculos, ele não podia ser dito homem, mas se passava por um para o que dizia respeito aos olhos além dos muros de seu castelo. Alexsander carregava a beleza de um Deus, com olhos num azul piscina intenso e cabelos acobreados. Era jovem, alguns lhe dariam vinte e cinco anos facilmente, apesar de na verdade ele estar vivo há novecentos e trinta e nove anos. A barba já cheia era avermelhada e escondia o maxilar quadrado. A altura de um metro e noventa e seis centímetros conferia à Alexsander o secreto apelido de gigante.

Em um corredor próximo, no castelo encravado nos Alpes Franceses, a mão infantil era puxada às pressas enquanto os sapatos de boneca ainda polidos tropeçavam pelo tapete vinho estendido em uma aparente infinidade de caminhos pelo local.

Awa era pequena, mas sabia que seus pais não estavam ali. Sabia que nunca tinha pisado naquele lugar e estava assustada com todas as horas de voo. Tudo estava errado e ela não fazia a mínima ideia do motivo.

Quando parou em frente à porta, precisou levantar a cabeça para olhar a mulher que segurava sua mão com firmeza. Ela tinha cabelos brancos como a neve, presos num coque, e usava um vestido preto que ia abaixo dos joelhos, com sapatos fechados da mesma cor. Nunca a tinha visto antes, também. Nas últimas vinte e quatro horas, Awa lidou com mais pessoas novas do que em toda sua breve vida.

― Entre. ― A voz era fria. Forte. Grave. E a porta se abriu para revelar uma enorme sala repleta de livros.

A visão da figura alta prostrada perante a vidraça lhe causou calafrios quando foi levada para dentro.

Tu-dum.

Tu-dum.

Tu-dum.

Tu-dum.

Era um som acelerado.

Um palpitar desenfreado. Alexsander pensou, vislumbrando as tulipas que se abriam numa lentidão tórrida. Poderia parecer entediante para qualquer outra pessoa. Mas não para ele. Não para alguém que tinha a eternidade para contemplá-las.

Sem precisar de qualquer ordem, Martha, a mais antiga funcionária, apenas se retirou. Ela já sabia o que aconteceria ali. Sabia para quem trabalhava e sabia o que lhe ocorreria caso ousasse pensar algo contrário.

A mulher fechou a porta e respirou profundamente, os olhos encarando fixamente o corredor.

Há setenta e dois anos, quando chegou ali, dentro de uma caixa, Alexsander lhe acolheu. Criou-a. Nem o próprio homem sabia de onde ela tinha vindo, e depois de alguns anos, lhe foi proposto um acordo. Trabalhar até a morte para o demônio ou morrer em suas mãos.

Sentimento Solúvel - (COMPLETO)Onde histórias criam vida. Descubra agora