III

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- Ah meu Deus! - Samuel acordou com o corpo encharcado de suor e com o coração praticamente saltando para fora de seu peito. - Que porra foi essa?

- Bib... Bib... Bib...- O telefone de Nara tocava incessantemente em cima do seu criado-mudo.

- Seja lá quem seja, muito obrigado por ter me acordado. - Samuel pegou o seu telefone ainda com a visão turva por ter acabado de acordar e atendeu.

- Eh... - Ele pigarreou. - Alô, bom dia?

- Alô, eh boa tarde né? - Era a voz de Michelle. - Oi Sam, tudo bem?

- T...t...tudo Michelle e você, como está? - Sam olhou em volta do seu quarto a procura de um relógio e percebeu que já eram 13:47.

- Estou ótima também, mas então... - Michelle respirou fundo. - Eu vou precisar de um favor seu.

- Ótimo - Retrucou Samuel ironicamente. - Você some, deixa quatro anos de história pra trás e de repente aparece querendo favores.

- Pô Samuel, eu pensei que a gente já tinha esclarecido tudo isso

- Esclarecido porra nenhuma, você pega as suas merdas sem falar nada. Some e depois vem com uma droga de um papinho furado falando que não estava feliz, que isso que aquilo. Vá pro inferno.

-Você continua o mesmo escroto de sempre sabia?

-Não Michelle, eu só me adaptei, com o tempo a gente percebe que se você é bom nessa vida, você só se fode. - Nara deitou-se esparramado na sua cama e estava olhando o ventilador de teto desligado, com algumas aranhas tecendo o seu trabalho.

- Quer saber de uma coisa, foda-se. Eu me viro sozinha com o Lucky, você não tem a capacidade nem de se cuidar. Imagina o que você não faria com um cachorro.

- O que tem o Lucky? - Samuel se sentou e finalmente mostrou interesse na conversa.

- Não importa, como você mesmo disse, eu posso ir pro inferno. -O tom de descontentamento na voz de Michelle era tão forte que era quase possível tocar-lo.

- Não me venha com essa agora Michelle, ambos sabemos que o Lucky é tanto meu quanto seu e o que quer que seja que você pretenda fazer com ele, é meu direito saber.

- Eu não vou fazer nada com ele - Retrucou Michelle. - Na verdade eu preciso que alguém faça.

- Então foi por isso que você veio me pedindo um favor. - Samuel se sentiu meio culpado por ter tratado Michelle daquela forma.

- Sim, mas como você é um completo idiota eu prefiro me virar sozinha.

- Hey Michelle, foi mal - Nara se levantou e começou a procurar seu chinelo, obviamente sem sucesso dada a bagunça em seu quarto. - Eu só não soube como agir corretamente diante da situação, você me ligando em uma sexta de manhã foi confuso.

- Sexta a tarde Samuel, Sexta a tarde. - Michelle parecia impaciente e dava a entender que estava presa naquela conversa por mais tempo do que gostaria. - Enfim Sam, eu tenho que fazer uma viagem esse final de semana, algo urgente e eu não sei quantos dias eu posso demorar. Tô indo de avião e como as finanças estão apertadas, eu não posso levar o Lucky comigo.

- É viagem a trabalho ou você está indo encontrar alguém? - Samuel estava se esgueirando por debaixo da cama para pegar o pé esquerdo do seu chinelo.

- Droga Samuel, isso é irrelevante! - "Que filho da puta" disse Michelle longe do microfone do Celular. -Então Samuel tem como você ficar com o Lucky pra mim alguns dias ou não?

- Tudo bem Michelle, mas só por uns dias. Você sabe que aqui no prédio eles não permitem animais do tamanho do Lucky, então isso pode me dar dor de cabeça.

- Ótimo, obrigado Sam, eu passo aí depois das seis e deixo ele com você é só por alguns dias te prometo. - Michelle ficou realmente aliviada após a resposta de Nara.

- Por alguns dias - Repetiu Samuel imitando a voz de Michelle. - Foi exatamente isso que você disse quando saiu dizendo que queria um tempo.

- Tá bom Sam, okay - Michelle não demonstrou o menor interesse nas reclamações de Sam. -Agora eu preciso ir, tchau.

- Pera ai, mas e a ração dele! - Michelle já tinha desligado antes mesmo de qualquer reação de Samuel. - Droga, eu agi feito um completo idiota. Enfim eu preciso dar uma ajeitada nesse lugar.

Samuel ainda estava como um bêbado andando de um lado para o outro à procura do pé direito do seu chinelo, alguns minutos depois ele resolveu dar por encerrada as buscas e foi preparar algo para beber.

- Como eu devia imaginar, não tem nada nessa casa, não acredito que vou ter que requentar o café de ontem - E assim o fez, colocou o resto do café em sua caneca favorita e depois a posicionou com a maior cautela possível dentro do seu micro-ondas. - Um, zero, zero. Um minuto para o fim do mundo - Cantarolou sozinho. - Esse é o tempo para fazer as minhas necessidades.

Samuel correu alegre pelo seu apartamento, feliz feito uma criança. Apenas com o pé esquerdo com chinelo, assim também feito uma criança. Entrou no seu banheiro e fez o que tinha que ser feito, antes de sair ele olhou no espelho. Viu o seu rosto pálido e magro no reflexo, os olhos com manchas pretas de olheiras, o cabelo preto, bagunçado e ressecado pelo suor, sua barba por fazer e saliva seca no canto da boca. Samuel era uma pessoa bonita vista pelos outros, não naquelas condições, mas ele era uma pessoa bonita. Ele deu um sorriso arqueou as sobrancelhas e lavou as mãos, após isso lavou os rosto.

- Cara, você já esteve em condições melhores. - fechou a torneira e voltou lentamente para a cozinha.

- Prim... Prim... Prim... - O micro-ondas de Nara já apitava a mais de 5 minutos avisando que seu café já estava quente.

-Okay, eu já ouvi, não precisa repetir. - Nara o desativou e pegou a caneca de dentro do micro-ondas, agora com bem mais cautela do que antes. Sentou-se no sofá da sua sala de estar e ligou a TV.

-O atacante Jhonatam Perk foi afastado por suspeita de uso da substanc... - "Chato" disse Sam mudando de canal e tomando uma golada do seu café. - Para sobrevir nessas condições uma pessoa deve ingerir cerca d... - "Proximo" mais uma vez uma única palavra e mais um gole do seu café. -Outro corpo foi encontrado essa madrugada com as mesmas marcas de agressão no pescoço, a polícia atribuiu ao nov... - "Meu Deus, não se passa mais nada na TV além de esportes, violência e táticas de sobrevivência? Não me assusta que ninguém mais queira usar essa porcaria" - Oh lordy, trouble so hard, don't nobody know my troubles but God...

- Agora sim algo que presta - Samuel se colocou de pé e aumentou o volume da sua televisão e deu o último gole em seu café. - Tudo o que é bom dura pouco - Andou de volta para cozinha e colocou sua caneca na pia, Samuel farejou o ar ou uma ou duas vezes.

- Caramba, esse cheiro está vindo de mim? É, acho que passou da hora de tomar um banho e ajeitar esse lugar, não quero que Michelle me veja nessas condições. - E assim o fez, Samuel se despiu ainda no caminho do banheiro e entrou no box onde finalmente encontrou o pé direito do seu chinelo. - Aí estava você, quem diria. -Ele ligou o chuveiro e deixou a água cair em sua testa. As primeiras gotas fizeram seu corpo ouriçar de tão geladas, mas logo foram esquentando dando uma sensação de relaxamento por todo seu corpo.

Vários minutos depois ele saiu, dessa vez enrolado em uma toalha foi andando para seu quarto, deixando pegadas de água por onde andava. Pegou as melhores roupas que conseguiu encontrar no seu guarda-roupa e as separou em cima da cama, vestiu outras mais usadas e correu pra arrumar a bagunça acumulada do seu apartamento, após terminar teve de tomar outro banho e aí sim vestir as belas roupas que havia separado mais cedo, se vestiu e deitou em sua cama impecavelmente arrumada.

- Bib... Bib... Bib... - O telefone de Nara estava tocando, eram 18:05.

- Que droga - Resmungou sarcasticamente Samuel. - Só espera eu deitar pra me ligar, Jesus.

Vinho QuenteOnde histórias criam vida. Descubra agora