Ela me olhou desconfiada mas logo sorriu..um sorriso que ofuscou até o brilho do sol. Meu coração acelerou.
"Tudo bem..se mudou para cá a pouco tempo? Nunca te vi por aqui"
"Bom, na verdade moro aqui a 5 anos"
Minha infância apesar de um pouco traumática, foi "boa". Sai da casa dos meus pais na primeira oportunidade que tive..com dezoito anos. Com dezenove me mudei para esse apartamento, hoje tenho vinte e quatro.
Meu apartamento não é tão bonito mas dou meu máximo para ele ser aconchegante. Ele tem uma janela bem larga e paredes vermelhas decoradas com quadros que eu mesmo fiz.
"Ah" Diz ela um pouco envergonhada "Espera ai, você é aquele cara que sempre vai nas minhas apresentações?"
"Sim, sou eu" falo com animação na voz evidente. Ela sabe quem sou!
"Obrigado..o elenco fala que você foi em todas"
"Você dança belamente" Ela dá um sorriso fraco.
"Bonitos quadros" diz ela olhando atentamente as pinturas "Eu que fiz"
"Você?" Ela parecia estar realmente surpresa "Eles são incríveis, você não parece o tipo de cara que pinta"
"Pinto desde pequeno..minhas professoras me incentivaram"
A conversa durou horas e horas, o assunto nunca acabava. Ela gostava das mesmas coisas que eu. Bandas, pinturas, filmes...era tão legal!
Estava tudo bem, até que ela fez a pergunta que eu menos gosto. Essa pergunta dolorosa.
"E a sua família?"
Respirei fundo enquanto decidia em minha mente se dizia a verdade ou a minha resposta mecânica. Não queria mentir mas também não queria dizer a trágica verdade. Não quero que ela ache que sou problema.
"É..tranquila. Não falo muito com eles"
O que é verdade. As vezes mando e-mails para a minha mãe. Nunca recebi resposta. Não que eu esperasse, mas queria saber se estava tudo bem.
"Bom..você parece não gostar de falar muito disso" Fez uma leve pausa "Eu também não. Meu pai morreu quando eu tinha onze anos e eu fui morar com a minha madrasta. Fim"
Tinha muitas perguntas rondando minha mente mas prefiri não dizer nada. Talvez ela fosse tão "traumatizada" quanto eu.
Seus olhos me penetravam. Ela parecia durona mas aqueles olhos diziam ao contrário.
"Não parece ter sido fácil pra você"
"É"
Ela me deu uma longa olhada e eu retribui. Ficamos nos olhando, não de uma forma constrangedora, mas de admiração. Meu olhos acariciava seu rosto e eles pararam em sua boca.
Ah..aquela boca. Me levaria onde eu vou me perder. Tudo que eu queria era beija-la. Mas não, quero algo recíproco. Quero que venha dela.
Desvio nossos olhares quebrando o clima quase palpável que existia entre nós. Ela mais uma vez me encara decepcionada. Talvez ela me visse como uma conquista..um desafio.
'"Eu tenho que ir..resolver algumas coisas" diz ela levantando e pegando sua bolsa preta que estava na mesa
"Tudo bem, eu te levo até a porta"
"Você vai na apresentação amanhã?"
Abro a porta e ela passa por mim. Sinto o seu perfume. Meu veneno
"Vou sim..eu sempre vou não é mesmo?!"
"Ótimo..tenho que ir"
Ela me abraçou e meu coração acelerou. Aquele era o melhor lugar do mundo. Sentindo o cheiro de seus cabelos recém lavados..
Ela beijou minha bochecha e se virou indo em direção ao seu apartamento. Eu sorria feito bobo. E ela se foi, levando meu coração junto..
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Uma cafajeste
ChickLitEla sai com pessoas que ela não conhece só para esquecer. Ela é assim, pertence só a quem quer pertencer. Mas talvez ela só quisesse alguém que aquecesse seu coração, não sua cama.
