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É incrível como a internet tem o poder de mudar nossas vidas. Eu não tinha consciência disso até pisar no colégio no dia seguinte ao post idiota feito na rede social do Stanley Oaks High.

Todos me olhavam e comentavam algo, apontavam para mim descaradamente e alguns até riam. Em meio a tudo aquilo, eu me sentia desprotegida, como se estivesse nua diante de olhos vorazes que tinham a intenção de me devorar. Tentei ignorar e seguir em frente, mas fui impedida por um puxão no braço.

— É verdade que você está grávida? — Angus me perguntou bruscamente, fuzilando-me com os olhos. Nunca o tinha visto com aquela expressão antes.

— Não, eu não estou grávida — respondi, engolindo em seco. Ele tinha mesmo acreditado naquele post? Ou melhor, será que todos tinham acreditado naquele post?

— Só escute uma coisa, garota: eu não vou assumir filho de vagabunda, porque aposto que é daquele seu priminho retardado. Se está tentando me enganar, você não vai conseguir!

Fiquei chocada diante de suas palavras. Nunca imaginei que Angus um dia falaria dessa forma comigo, mas havia tanta raiva em seu olhar, tanta mágoa em sua voz que não consegui reagir; fiquei estática, olhando-o, sentindo o coração em solavancos no peito.

— Eu jamais enganaria você — disse baixinho, quase como um sussurro.

— Sei, falou a garota que transou com o próprio primo! — Angus não fez questão de falar baixo; pelo contrário, além de falar alto, ainda gesticulou de forma irônica e somente quando o "wow" chocado dos curiosos soou aos meus ouvidos, é que me dei conta de que tínhamos plateia.

"Ela transou com o primo? Que vaca!", "Mas ele não é irmão dela? Nossa, que horror", "Eu sempre soube que ela não prestava", frases como essa pipocaram aos meus ouvidos e eu me senti tonta, como se me faltasse o ar. Por mais que eu tivesse errado com ele, Angus não tinha o direito de me humilhar daquele jeito no meio de todo mundo. Sem conseguir me controlar, comecei a chorar e me afastar dele, esbarrando nas pessoas.

— Você é um babaca!

Percebi pela forma que me olhava que estava arrependido de suas palavras, mas já era tarde demais; saí correndo em direção ao banheiro feminino enquanto uma multidão de abutres riam e apontavam para mim. Porém, se o que queriam era me derrubar, não iriam conseguir. Eu era forte e seria mais forte ainda para me recuperar daquele tombo, quando me levantasse, era melhor que todos corressem.

Lavei o rosto e respirei fundo, antes de sair. Levantei o queixo e fiz a minha melhor pose de superior enquanto caminhava resoluta em direção à sala de aula. Já tinha assisto a muitos filmes adolescentes para saber que se desse o braço a torcer, seria engolida por todos aqueles que me queriam ver pelas costas e eu não seria derrubada.

Quando entrei na sala e alguns comentários maldosos foram feitos, Karen e Holly me olharam como se pedissem desculpas por aquilo, sentei-me em meu lugar habitual e fingi ser uma verdadeira estátua de pedra.

Inatingível.

Inabalável.

Pela primeira vez em muito tempo, participei com afinco de uma aula de matemática, respondendo aos cálculos como se fossem óbvios demais e deixando a todos com cara de paisagem. Eu nunca fui burra, mas também nunca fui exibida a ponto de me matar para dar a resposta mais rápida, só que precisava ocupar minha mente com qualquer outra coisa que não fosse Angus, Jayden e o episódio no pátio.

Consegui sobreviver a todos os horários e saí apressada para almoçar e não via a hora de ir para o trabalho. Holly e Karen me seguiram.

— Charlie! Espera — gritaram, fazendo-me frear por uns instantes.

— O que foi? — Não queria soar grossa, mas estava tendo um dia de merda e esperava que entendessem o meu mau humor.

— Sobre o que as pessoas estão falando, não liga... O Angus consegue ser mesmo um idiota quando quer, não é a toa que ele tem este apelido — disse Karen, em tom consolador.

— E a Kendall é uma bruxa. Sempre teve inveja de você — completou Holly, destilando seu ódio pela garota.

Forcei um sorriso e apenas agradeci pelas palavras de encorajamento e por não terem ficado contra mim. Era realmente algo a se considerar. Assim, caminhamos juntas para o refeitório e quando entrei, todo mundo virou para falar algo... Que povo ridículo! Ao longe, avistei Jayden sentado sozinho, tentando lanchar enquanto um bando de garotos jogava lixo em cima dele. Aquilo me irritou tanto que não pensei duas vezes para marchar em direção à mesa de meu primo.

— Vocês não têm mais o que fazer não, bando de moleques? — esbravejei, pegando uma das garrafas que tinham acabado de jogar contra Jayden e atirando de volta, acertando a nuca de um dos garotos sem graça. Todos calouros do primeiro ano. Babacas!

— Olha só, chegou a vadia para defender — desferiu um dos garotos, o que parecia ser o líder. — Até que é gostosa essa maluca! Você não quer sentar no meu colo também, hum?

Juro, nunca levei desaforo para casa, ainda mais desse tipo. Joguei minha bolsa sobre a mesa de Jayden e avancei no garoto sem pensar nas consequências. Minhas unhas cravaram em seu rosto e enquanto ele tentava me empurrar, eu desferia chutes e socos às cegas. Odiava o tipinho valentão que se acha o máximo e se fosse machista então... por favor!

— Primeiro espera o seu pau crescer, seu moleque, depois dirija a palavra a mim! — disse, quando dei uma joelhada em suas partes baixas, fazendo-o deitar no chão do refeitório.

Os amiguinhos dele se levantaram, ficando na defensiva.

— Quem vai ser o próximo? — desafiei. — Vamos lá, já que são tão valentões, eu quero ver!

— Chega, Charlie — disse Holly, puxando-me pela blusa.

Tentei relaxar a postura, principalmente porque os garotos me olhavam como se eu fosse uma aberração, na verdade, não só eles. Jayden e o resto das pessoas também. Sentei-me de frente para ele, fixando meus olhos nos seus e suspirei fundo.

— Você está bem?

— Não precisava ter feito tudo isso, Charlie, eu não sou um marica para ser defendido por você! — Jayden se levantou irritado e saiu correndo do refeitório, debaixo de vaias.

Ótimo! Eu tinha o defendido e ele estava bravo comigo. Mas o que diabos os homens pensam na cabeça?

— Você, definitivamente, está tendo um dia de merda — declarou Karen, desabando ao meu lado.

Ela tinha razão. Nem queria pensar nos posts cabulosos que iriam sair na rede social do colégio. Definitivamente, iria deletar o meu perfil e nunca mais acessar a internet. Tudo bem que "nunca mais" é exagero, mas até que consegui cumprir a promessa por um dia inteirinho.

No resto do dia, trabalhei com atenção redobrada para não pensar nos episódios horríveis que aconteceram pela manhã e até organizei os prontuários por ordem alfabética antes do fim do expediente. Pelo visto, o Dr. Heughan tinha muitos amigos, pois em pouco tempo a clínica já estava cheia de clientes.

Na verdade, desconfiava que metade de suas clientes adolescentes iam até lá porque ele era realmente gato, podia ver isso pelo suspiro que soltavam quando chegava sua vez de serem atendidas.

Voltei para casa morta de canseira e meu pai apenas perguntou como estava indo o novo trabalho. Contei que estava gostando e que o meu chefe também estava gostando do meu desempenho. Nada de detalhes. Nelly não me dirigiu a palavra, mas podia perceber os seus olhares inquiridores em minha direção. Ela estava tensa e sua visita ao meu quarto na noite passada não saia da minha cabeça.

Jayden não me olhou em momento algo. Aquilo me incomodou muito, mas eu estava cansada demais para pensar se algum dia ele iria me perdoar.

=@! 

O Quarto ao LadoOnde histórias criam vida. Descubra agora