O frio rigoroso de uma manhã qualquer em meados de agosto fazia a mulher estremecer. Mesmo estando em vestes apropriadas para o frio sulista, o fato de estar na sacada do quinto andar do prédio onde mora não colaborava para que seu corpo esquentasse, nem o café quente e extremamente forte que estava em sua caneca soltando fumaça, igual todas as vezes que respirava fundo, ajudava ela a se aquecer. Na verdade, Alice não estava com frio em seu corpo apenas, ela sentia frio em sua mente, em seu coração e naquilo que muitos chamam de alma.
Alice não lembrava quando havia sido a última vez que havia se sentido aquecida por dentro, não se lembrava a última vez que havia se sentido confortável na presença de outras pessoas. Em sua mente, tudo o que ela precisava estava naquele pequeno apartamento de três cômodos ao qual morava há quase um ano: um banheiro pequeno; uma cama, onde ela passava a maior parte do seu dia; uma sala-cozinha, onde ela guardava comidas prontas e quase nunca cozinhava, apenas fervia água para o café; uma escrivaninha, onde havia as únicas formas de contato com o mundo externo, um celular, um relógio digital e um notebook, o último sendo o instrumento de trabalho da escritora.
A morena não havia completado trinta anos, porém sabia que muitas pessoas com o dobro da sua idade tinham mais vivacidade e disposição que ela, sabia que era jovem, mas não se sentia assim e era naquela sacada a forma mais próxima de contato com outras pessoas. O prédio onde morava ficava na esquina de uma das avenidas mais movimentadas da capital, embaixo, na calçada formada por mosaicos em preto e branco, passavam centenas de pessoas todos os dias, de tantas etnias diferentes, homens, mulheres, crianças, adolescentes, adultos e idosos.
Ficar observando aquelas pessoas era um dos passatempos favoritos de Alice.
Ali, daquela sacada, ela testemunhara tanto situações cotidianas, quanto situações inusitadas. Ela poderia até perceber as pessoas que passavam ali todos os dias, ou aquelas que passavam pela primeira vez. Havia um artista de rua, multi-instrumentista, que todos os dias entoava músicas do gênero folk e atraia a atenção de pedestres que não estavam apressados o suficiente para não apreciar uma boa música, estes colocavam dinheiro na pequena caixa que ficava na frente do músico e recebiam um sorriso, ou uma piscadela do cantor quando ele estava com a boca ocupada por uma pequena gaita que ficava em um suporte em seu pescoço.
Ele parecia tão satisfeito com o que fazia que a mulher não pôde deixar de se perguntar como alguém poderia se contentar com tão pouco, alguns trocados todos os dias que mal davam para colocar comida em casa. Não que o que ela ganhava desse para muita coisa, afinal de contas, escrever uma coluna semanal para uma revista mediana não lhe dava o conforto que queria, porém era o suficiente para que ela tivesse como pagar seu aluguel, contas e ir a algum pub aos finais de semana.
Os olhos castanhos da jovem encararam o relógio digital e ela bufou, sabendo que era a hora de ir à padaria que ficava em frente ao seu prédio. Mesmo a alguns metros de seu apartamento, Alice realmente não gostava de contato com as pessoas, então ela evitava ao máximo descer, seus vizinhos até esqueciam de sua existência e ela tão pouco lembrava da existência deles. Sua aversão a laços com pessoas era uma característica que ela nem lembrava quando adquiriu, talvez tenha sido na adolescência, quando sua família a rejeitou por ela se sentir atraída por mulheres, ou talvez nos primeiros anos da infância, quando seu pai a abandonou. Alice resolveu não fazer mais laços, eles sempre acabariam desfeitos e ela sempre deixada sozinha.
Ela vestiu um casaco preto de tecido grosso e sapatos que a protegesse do frio rigoroso, pegou a carteira e o celular, trancando a porta do apartamento, indo em direção as escadas, já que odiava elevadores, poderia ter alguém lá e ela não saberia para onde olhar, ou onde colocar as mãos, se sentiria desconfortável.
A garota atravessou a rua movimentada o mais rápido que pôde, comprando quatro pães, para não ter que voltar ali amanhã, forçou um sorriso para o rapaz que a atendeu e deixou um pouco de dinheiro a mais. Quando pisou no hall de entrada do seu prédio, soltou um suspiro de alívio, poderia voltar para seu mundo, onde ela tinha controle de absolutamente tudo.
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O Espectro
Short StoryTalvez, o que todo o ser humano precisa, seja um pouco de empatia .