Pontual, às sete horas, o escudeiro acordou Ega. Ao rumor da porta ele sentou-se na cama um salto — e logo todos os negros cuidados da vespera, Carlos, a irmã, a felicidade daquela casa acabada para sempre, se lhe ergueram nalma em sobresalto, como despertando também. A portada da varanda ficara aberta; um ar silêncioso e livido de madrugada clareava através do transparente de fazenda branca. Durante um momento Ega ficou olhando em redor, arrepiado; depois, sem coragem, remergulhou nos lençoes, gozando aquele bocado de calor e de conchêgo antes de ir afrontar fora as amarguras do dia.
E pouco a pouco, sob o tepido conchêgo dos cobertores em que se atabafara, começou a afigurar-se-lhe menos urgente, e menos útil, essa correria estremunhada a casa do Vilaça... De que servia procurar o Vilaça? Não se tratava ali de dinheiro, nem de demandas, nem de legalidade — de nada que reclamasse a experiência de um procurador. Era apenas introduzir um burguez mais num segredo tão terrivelmente delicado que ele mesmo se assustava de o saber. E acochado mais sob a roupa, apenas com o nariz ao frio, murmurava comsigo: "É uma tolice ir ao Vilaça!"
De resto não poderia ele ajuntar em si bastante coragem para contar tudo a Carlos, logo, nessa manhã, claramente, virilmente? Era por fim aquele caso tão pavoroso como lhe parecera na vespera — um irreparável desabamento de uma vida de homem?... Ao pé da quinta da mãe, em Celorico, no lugar de Vouzeias, houvera um sucesso parecido, dois irmãos que inocentemente iam casar. Tudo se aclarou ao reunirem-se os papeis para os banhos. Os noivos ficaram uns dias "embatucados", como dizia o padre Serafim; mas por fim já riam, muito amigos, muito divertidos, quando se tratavam de "manos". O noivo, um rapagão bonito, contava depois "que ia havendo uma mixordia na família". Aqui o engano seguira mais longe, as sensibilidades eram mais requintadas; mas os seus corações permaneciam livres de toda a culpa, inocentes absolutamente. Porque ficaria pois a existência de Carlos para sempre estragada? A inconsciencia impediu-lhe o remorso: e passado o primeiro horror, de que lhe podia, na realidade, vir a definitiva dor? Somente do prazer ter findado. Era então como outro qualquer desgosto de amor. Bem menos atroz do que se Maria o tivesse traído com o Damaso!
De repente a porta abriu-se, Carlos apareceu exclamando:
— Então que madrugada foi esta? Disse-me agora lá em baixo o Batista... É aventura? duelo?
Trazia o paletó todo abotoado, com a gola erguida, escondendo ainda a gravata branca da vespera; e decerto chegara da rua de S. Francisco na tipóia que havia instantes Ega sentira parar na calçada.
Ele sentara-se bruscamente na cama; e estendendo a mão para os cigarros, sobre a mesa ao lado, murmurou, bocejando, que na vespera combinara uma ida a Cintra com o Taveira... Por precaução mandara-se chamar... Mas não sabia, acordara cansado...
— Que tal está o dia?
Justamente Carlos fora correr o transparente da janela. Aí, na mesa de trabalho, colocada em plena luz, ficara a caixa da Monforte embrulhada no Rapel. E Ega pensou num relance: — "Se ele repara, se pergunta, digo tudo!" — O seu pobre coração pôz-se a bater anciosamente no terror daquela decisão. Mas o transparente um pouco pêrro subiu, uma facha de sol banhou a mesa — e Carlos voltou sem reparar no cofre. Foi um imenso alivio para o Ega.
— Então, Cintra? disse Carlos, sentando-se aos pés da cama. Com efeito não é má idéia... A Maria ainda hontem esteve também a falar de ir a Cintra... Espera! Podiamos fazer a patuscada juntos... Iamos no break, a quatro!
E olhava já o relogio, calculando o tempo para atrelar, avisar Maria.
— O peor, acudiu o Ega atrapalhado, tomando de sobre a mesa o monoculo, é que o Taveira falou em irmos com umas raparigas...
