Desembarque na ilha de Vera Cruz

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Os professores acharam que a atividade proposta pelo professor de História – entrevistar
pessoas da terceira idade pra tentar descobrir o Brasil – deveria ser explorada por todas as
disciplinas: a idade dos entrevistadores serve de base pra cálculos matemáticos, o modo de
falar tem a ver com a Geografia, as rugas e tremores são explicados pela Biologia, os casos
e lembranças podem virar literatura. A diretora da escola, dona Nélia, vive falando em
“interdisciplinaridade” e ficou tão entusiasmada com o projeto que reservou uma manhã
inteira para o grande evento: uma excursão a clinica geriátrica da prefeitura, mais
conhecida como asilo municipal.
Muitos colegas planejavam falar, mas mudaram de idéia ao saber que seriam punidos com
um cilindro de zeros – um para cada disciplina.
- Logo hoje – resmungou Danyelle – que eu ia matar aula para fazer o meu book.
Talvez por causa do y cravado no meio do nome, Danyelle tem a mania de salpicar o
discurso com palavras inglesas. Em vez de desculpas, diz sorry; no telefone, hello e
goodbye; a hora do intervalo é coffee break; quando está feliz, grita yessssssss! And so on.
Não acredito que o velho e bom português esteja ameaçado pela invasão bárbara de outras
línguas, como temem alguns gramáticos, mas não dá para entender por que tanta gente
transforma o nosso idioma numa espécie de esperanto colonizado.
- Eu não sabia – ironizei – que você também escreve. Do que fala o seu livro?
A clinica não fica longe da escola, por isso todos concordamos – diretora, professores e
alunos – em fazer uma caminhada. Diante da minha pergunta, Danyelle se deteve e me
olhou de lado, sem saber se eu estava zoando ou se era de fato uma ignorante em matéria de
moda. Acho que ficou com a segunda opção:
- mas que livro? No mundo fashion, minha querida, book é um álbum de fotos das garotas
que querem seguir carreira de modelo e manequim. Uma espécie de carteira de identidade.
Dependendo do caso, serve até como passaporte.
Só então entendi por que Danyelle tinha se livrado dos piercings. Leninha estava do meu
lado e teve uma crise de tietagem:
- Então, vou ter duas amigas famosas. Uma modelo e outra escritora! Posso ser secretária de vocês. Ou, quem sabe, empresaria?!
Danyelle ia dizer alguma coisa, mas de repente enrolou as palavras, cambaleou e caiu
desmaiada... bem em cima de mim!
Leninha e eu juntamos nossas focas e levamos ela até o meio-fio. Logo em seguida, ela
recobrou os sentidos e passou algum tempo de cabeça baixa. Colegas e professores
sugeriram que botasse sal debaixo da língua, esfregasse os pulsos, cheirasse álcool,
chupasse limão, respirasse fundo, deixasse de frescura, enfim, havia palpites pra todos os
gostos.
Dona Nélia cogitou chamar um médico, mas Danyelle garantiu que estava melhor e
acrescentou que não pretendia atrapalhar a excursão. Tudo o que precisava era de um pouco
de sossego, por isso respirou aliviada quando a professora Clarice se ofereceu pra lhe fazer
companhia e sugeriu à turma que seguisse na frente.
Achei que Danny não me queria por perto, mas ela segurou a minha mão e não deixou
acompanhar a turma. Leninha também quis ficar:
-Se eu for mesmo na sua empresária, tenho de cuidar da sua saúde.
A risada de Danyelle era um bom sinal. Ela se levantou coma ajuda de Clarice, deu alguns
passos apoiada no meu braço e aos poucos foi ganhando equilíbrio e confiança.
-É a primeira vez que vc desmaia? -perguntou Clarice.
Danyelle confirmou com a cabeça. Leninha soltou sem pensar:
-Quando minha ficou grávida, ela vivia desmaiando.
-Vire essa boca pra lá- reagiu Danyelle. - Filhos não combinam com passarela.
Clarice não parecia surpresa:
-Então você também quer ser manequim?
-Também? -espantou-se Danyelle, temendo a possível concorrência. -Você conhece outras
candidatas?
-Não tenho uma estatística precisa, mas boa parte das minhas alunas já pensou em virar
modelo. Ah, sim! E atriz de novela.
-Qual o problema? Não é pecado fazer sucesso.
O sorriso não disfarçava a irritação de Danyelle. Clarice não se intimidou:
- O problema é quando a garota pára de comer pra ficar com o corpo ''ideal''
Com dois dedos de cada mão, Clarice riscou as aspas no ar. Danyelle procurou mudar de
assunto, mas não era assim tão fácil enrolar a professora de Português:
- O que você comeu hoje cedo?
-De manhã, eu não sinto fome.
-Mas seu corpo sente- disse Clarice. -Tanto assim que pifou. Danyelle queria chegar logo
ao asilo, mas foi praticamente arrastada até a padaria da esquina. Sentou-se de costas para o
balcão e ignorou os nomes dos doces e salgadinhos que Clarice recitava estalando a língua.
-Só quero um copo d'água - declarou com má vontade. - E sem gás.
Eu não podia continuar calada:
-Deixe de ser teimosa, garota! Não está vendo que Clarice só quer te ajudar?
-É isso ai - disse Leninha. -Desse jeito, você vai pegar aquela doença que faz a pessoa para
de comer. Como é mesmo? Anorexia!
O erro na pronúncia serviu de pretexto para Danyelle soltar os bichos:
- Anorexia não existe. O nome da doença é anorexia e, pra sua informação, não é
contagiosa. Mas pode relaxar: ninguém fica anoréxica porque acorda sem apetite.
Clarice piscou para a balconista.
-Café com leite e pão com manteiga pra essa garota. E bem depressa, por favor, que ela está estressada de fome.
Danyelle fez de tudo - careta, birra, ameaça e chantagem- pra permanecer em jejum. Não
adiantou. Tudo o que conseguiu, quase choramingando, foi trocar a manteiga por margarina
e tomar café com leite desnatado.
Quando entramos na clínica, sob aplausos e assobios, eu me lembrei do trecho da carta de
Caminha que narra o desembarque na Ilha Vera Cruz. Pensei que os internos estavam
felizes por causa da doação de roupas e alimentos que tínhamos arrecadado ao longo da
semana, num mutirão de solidariedade que contou coma participação dos alunos, pais e
professores. mas não era só isso. O que de fato causou alvoroço foi o anúncio de que
estávamos ali com a tarefa de fazer entrevistas.
- A gente vai mesmo sair no jornal: - perguntou uma dona magrinha que tinha os braços
cobertos de pulseiras.
Clarice se encarregou da resposta:
- os alunos vão entrevistar os senhores e escrever uma redação. Os melhores textos serão
publicados no jornal da escola.
O burburinho tomou conta da clínica. pra mostrar quem é que mandava, ela tirou do bolso
um apito e soprou até ficar vermelha. Trazia esse apito pendurado no pescoço, na ponta de
um cordão que também servia pra segurar o crachá. Não entendi por que o nome -
ZORAIDE- tinha as letras maiúsculas. Talvez a intenção fosse facilitar a leitura de quem
não enxergava direito. Ou será que aquilo não passava de uma exibição de poder?
A mulher só voltou a falar depois que acessou o último pigarro:
-Vocês não vivem reclamando de que não têm o que fazer? Pois esta é uma boa
oportunidade de conversar com os estudantes. Só espero que não falem mal de mim. Quem
reclamar de mais não ganha sobremesa.
O tom ameaçador cortou a graça da piada. Enquanto os professores carregavam as caixas
de roupas e mantimentos para o gabinete da Zoraide, os internos cercaram os alunos como
crianças de orfanato à espera de adoção. Alguns estavam tão ansiosos que se antecipavam
às perguntas, contando histórias mirabolantes pra atrair o interesse dos supostos repórteres.
Sentado num canto do salão, um senhor apoiado na bengala despertou a atenção geral que,
modéstia à parte, assistira à final da Copa do Mundo de 1952: a seleção brasileira de um
mísero empate, começou o jogo na frente e acabou derrotada pelos uruguaios... em pleno
Maracanã! Os garotos concluíram que o futebol era o melhor caminho pra descobrir o
Brasil e fizeram uma roda em volta do sujeito (''Benedito, vulgo Bené'') para uma entrevista
coletiva.
Bené usava a bengala para alargar os gestos e contava fofocas de vestiário como se narrasse
uma partida. Havia detalhes de sobra para dar credito ao relato, mas de repente o cara
deixou escapar que o Brasil tinha perdido o titulo porque Pelé se machucou e teve de ficar
no banco de reservas. Dois ou três professores que estavam por perto pediram licença para
discordar: Pelé tinha estreado na copa de 58, não na de 50. Os entrevistadores morderam a
tampa das canetas. E agora, como confiar na memória de um torcedor que não conhecia a
escalação do time?
Um tal de Honório tomou a palavra:
- Todo mundo sabe que o Bené só ouvia futebol pelo rádio... E olhe lá! Ele foi casado com
uma megera que não o deixava sair de casa nem pra comprar o jornal. Passear no
Maracanã? Nem pensar!
Honório parecia adivinhar que Bené iria se defender com a bengala, tanto assim que carregava no ombro um velho guarda-chuva de guerra. O duelo de esgrima só não
aconteceu porque a galera se meteu no meio a tempo de afastar os valentões. Os estudantes
também se dividiram: de um lado, os que não se interessava pela vida particular de Bené e
queriam que ele continuasse narrando os melhores lances da final da copa de 50, não
importando quem estivesse no banco de reservas; a outra metade preferiu confiar no
Honório, que também jurava ter assistido a esse jogo e, como prova, tirou do bolso um
ingresso amassado e completamente ilegível.
João não sabia em quem acreditar e pediu minha opinião;
- Acho que os dois estão mentindo- eu disse. – Mas a mentira do Bené é a mais divertida.
Dei uma volta pelo salão à procura de uma boa personagem para a minha entrevista e então
ouvi, por acaso, outra incrível história da década de 50 – contado pela dona magrinha que
tinha os braços cobertos de pulseiras. Emiliana dizia a Danyelle que as garotas daquela
época também sonhavam em pisar as passarelas, mas não como manequim. O caminho para
a dupla fama e fortuna começava nos concursos de beleza: as faixas das misses eram tão
cobiçadas quanto a faixa presidencial. Mila perguntou a Dany se por acaso ela sabia o nome
da miss mais divina de todos os tempos e, sem esperar resposta, afirmou que nenhuma
mulher tinha os olhos tão azuis, o cabelo tão dourado e as curvas tão polemicas quanto a
miss Brasil 1954: Martha Rocha chegara ao concurso de miss Uiverso como a favorita, e
repetiu o destino da seleção e, segundo a lenda, foi vice por causa de duas polegadas a mais
na cintura.
- Você na imagina, disse Mila, como essa derrota marcou a minha geração. Muita gente
passou a acreditar que o mundo estava nas mãos das magras. Aliás, das muito magras. Pra
perder peso, a mulherada fazia mil e uma dietas: da lua, da sopa, dos legumes, das ervas,
dos grãos, das frutas, da água e do fogo.
Não havia coincidência naquele papo sobre dietas. Danyelle me contou, mais tarde, que
decidira entrevistar a moradora mais magra da clinica – e, claro, pedir-lhe dicas e
conselhos. Confesso que também tive vontade de saber como era essa dieta do fogo. Será
que as mulheres literalmente queimavam as gorduras?
- E você, Mila? – Os olhos de Danyelle ardiam de curiosidade – Que dieta você seguiu?
- Quem, eu? – Deus me livre! Sempre comi e repeti de tudo.
- Aposto que você fazia ginástica!
- Eu costumava caminhar, mas só de vez em quando. Sou tão preguiçosa...
- Então, só pode ser plástica!
- Morro de medo de hospital – confessou Mila. Só de ver sangue me dá enjôo.
A indignação de Danyelle tinha uma ponta de inveja:
- Ah... Essa não! Ninguém chega à sua idade com esse corpinho de menina. Tem que ter
um segredo.
- sou descendente de magrelos – disse Mila – por parte de pai e mãe. Eles viviam me dando
remédios para aumentar o meu apetite, mas nem assim eu conseguia engordar.
Danyelle falou apontando a caneta:
- Se você não quer abrir o jogo, paciência. Eu é que não vou perder meu tempo com essa
por caria de entrevista.
Fechou o caderno e se afastou resmungando. Mila não se abalou:
- O que é que deu na sua amiga?
- Não liga, não. Ela deve estar com TPM
- No meu tempo – disse Mila -, isso de chamava falta de educação.
Achei que devia ir atrás de Dany e exigir que ela pedisse desculpas para a Mila. Acontece que a garota saiu correndo (por pouco não derrubou um interno) e entrou numa porta do
outro lado do salão.
Algumas das minhas histórias preferida se passam em velhos casarões, por isso me senti
protagonista de algum romance ao visitar os fundos da clinica. A tal porta dava num
corredor comprido que dava apara os quartos. Eu caminhava olhando para os lados, na
tentativa de descobrir onde Danyelle tinha se metido, mas aos poucos fui me distraindo
com a reação dos internos. Eram dois ou três em cada quarto e não ficavam indiferentes à
minha passagem: ou me convidavam para entrar, ou me mandavam beijos e acenos, ou me
ofereciam bombom, ou batiam a porta na minha cara.
No meio dessa biodiversidade, não podiam faltar os estudantes. Leninha, por exemplo,
brincava no quarto de uma baixinha de tranças que lhe davam um ar de menina. Chamava-
se Alice e ninava uma prole de bonecas – de louça, de pano, de palha, de madeira –
dispostas lado a lado sobre a cama.
Leninha me disse que não tinha visto Danyelle e deu corda nas costas de uma boneca que
cantava a primeira estrofe do Hino Nacional. Alice ficou muito nervosa e abafou a musica
com o travesseiro. O pânico não era gratuito:
- Dona Zoraide vive dizendo que minhas bonecas são birrentas. Ela tem horror de criança.
Não foi a única queixa contra a supervisora. Uma senhora comprida e desengonçada passou
na frente do quarto de Alice e soltou um comentário ainda mais pesado:
- A Zoraide tem horror de tudo: criança, adulto, bicho, planta... É bom você tomar cuidado,
Alice, porque a mulher é bem capaz de raptar as suas bonecas. Da última vez que tentei
fugir, ela falou que ia me castigar e ameaçou tomar meu gato.
Uma acusação como aquela poderia render uma reportagem e tanto! Cheguei até a elaborar
a manchete: INTERNA TENTA FUGIR DE ASILO POR CAUSA DE MAUS-TRATOS.
Será que eu deveria acreditar nessa história?
Eu só saberia a resposta seguindo o rastro da vítima. Ela caminhou até o fim do corredor e
entrou no ultimo quarto. Fiquei parada à porta, à espera de um convite pra entrar, mas não
fui muito bem recebida:
- E você, garota? – ela perguntou, depois de se recostar na cama. – O que é que você está
olhando?
Pra dizer a verdade, eu olhava o gato pelúcia em que ela apoiava a cabeça. Não sabia
explicar o porquê, mas a cena me pareceu familiar. De onde eu conhecia aquela mulher alta
e graúda, com os lábios cortados por uma cicatriz? Cutuquei a memória com vara curta,
procurando um rosto semelhante entre avós de colegas de sala, parentes remotos que eu só
via no Natal e freguesas do salão da Salete. Mas não encontrei ninguém.
- Estou aqui pensando – eu disse – por que você queria fugir.
- Queria, não. Quero. Mas, com essas pernas, não dá pra ir longe. Uma velha sozinha na
rua, de camisola e chinelo, chama a atenção de qualquer um. Tem sempre alguém que
telefona para o asilo.
Fui convidada, por fim, a entrar no quarto. Ela puxou a barra da camisola e me mostrou o
labirinto das varizes. Sentei-me na outra cama e peguei papel e caneta pra registrar a
entrevista.
-E pra onde você queria, digo, quer fugir?
-O destino, pra mim, tanto faz. Já fui moradora de rua e nunca gostei de viver presa. Ainda
mais tendo de agüentar a Zoraide.
Piscando furiosamente, um olho de cada vez, a minha entrevista apontou para o bloco.
-Você trouxe bastante papel? O que tenho pra contar daria um livro.
Mas que exagero! – provoquei
-É serio – ela mordeu a isca -. A Zoraide só trata bem a gente no horário de visita. Mas no
dia-a-dia é diferente. Não deixa ninguém repetir almoço, usa a sobremesa pra fazer
chantagem e aumenta a dose dos remédios pra botar todo mundo dormindo. Passa a tarde
trancada no gabinete, jogando paciência no computador.
-Uma clinica deste tamanho deve ter muitos funcionários. Ninguém faz nada por vocês?
-São três ou quatro pobres-diabos que só sabem dizer “sim, senhora”. Quem não entra no
esquema, rua!
-Esquema? – perguntei em voz baixa; essa palavra cheia de corrupção.
-Estou falando dos presentes que a gente ganha da família. Quer dizer, eu não ganho nada
porque sou sozinha no mundo. Mas vejo as visitas trazendo doces, biscoitos, chocolate... O
problema é que, pelas regras do asilo, tudo tem de ser entregue à Zoraide.
Fiquei pensando nos mantimentos que a escola tinha arrecadado. A mulher leu a minha
mente:
-É por isso que os estudantes são bem-vindos. Vocês doam roupas alimentos que podem
render um bom dinheiro. O que a Zoraide não usa nem come ela vende.
Falando sobre técnicas de jornalismo, a professora Clarice tinha explicado que um bom
repórter deve adotar uma posição isenta em relação às opiniões e declarações do
entrevistador. Mas como me omitir diante de tão grave denuncia?
-Esse absurdo não pode continuar. Vocês precisam tomar uma atitude!
-E pra que é que você acha, garota, que estou te contando tudo isso?
A tiragem do Olho Vivo é ridícula, portanto duvido que a minha matéria pudesse sacudir a
opinião publica e provocar a demissão da supervisora da clinica. Em todo caso, prometi que
faria um texto caprichado e ganhei um beijo e um pedido:
-Queria tanto que você conhecesse a minha companheira de quarto... Ela foi ao banheiro e
não deve demorar.
Bem que eu gostaria de ficar mais um pouco, mas nesse instante Apolo veio avisar que era
hora de encerrar a visita. Foi quando percebi que tinha me esquecido de acrescentar um
dado essencial a entrevista: o nome da entrevistada! Pedi mil desculpas pelo mico e
perguntei como se chamava.
-Adalgisa – ela disse. – Às suas ordens.
A senhora serviu de Sésamo pra abrir minha memória. Como é que eu pude ser tão
desligada, meu Deus?! O gato de pelúcia transformado em travesseiro, a cicatriz cruzando a
boca, o cacoete de piscar alternadamente – nenhuma outra Adalgisa do mundo reuniria tais
características, só mesmo a moradora de rua que fora adotada pela minha avó.
Fiquei pinicando de aflição pra fazer uma nova entrevista. Você se lembra do tempo em
que morou na casa da vó Nina? Foi difícil conviver com a minha mãe quando ela era
adolescente? Por que você fugi do dia pra noite e onde andou todos esses anos? As
perguntas borbulhavam na minha cabeça, mas eu estava ansiosa demais e não queria
assustar Adalgisa. Decidi voltar outro dia, como mais calma, e saí correndo do quarto pra
alcançar a turma.
No meio do corredor, ouvi gemidos. Alguém, talvez, passando mal? Entrei no banheiro e
encontrei Danyelle debruçada sobre a própria barriga, contorcendo-se pra vomitar o que
tinha lançado na padaria.
Mas a maior surpresa veio em seguida. O que levei, na verdade foi um susto – o maior de
toda a minha vida. O coração desprevenido quase não acreditou nos olhos. Quem estava do
lado da Dany, amparando a minha pobre colega?
Ninguém menos que... a minha avó
Então era ela a companheira de quarto de Adalgisa?!
Chamei vó Nina com o braço estendido, mas a vista escureceu e logo depois que a parede
começou a girar. Não me recordo de mais nada.

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