Cobaia do texto

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INTERNA TENTA FUGIR DE ASILO POR CAUSA DE MAUS-TARTOS
A supervisora do asilo municipal, Zoraide, esta sendo acusada de maus-tratos, abuso de
poder, desvio de recursos e formação de quadrilha. A autora das denuncias Adalgisa, uma
interna que se cansou de ser oprimida e resolveu quebrar o silencio. Ela já tentou fugir
varias vezes da instituição e, apesar das precárias condições de saúde, garante que não vai
desistir: “Já fui moradora de rua e nunca gostei de viver presa ainda mais tendo de agüentar
a Zoraide. ” Em entrevista exclusiva, na manha de ontem, Adalgisa acusou a supervisora de
chefiar uma quadrilha que há anos vem cometendo todo tipo de delito: desde pequenas
mesquinharias, como restringir o almoço ou cortar a sobremesa ate crimes previstos no
Código Penal, como aumentar a dose de remédios para que os internos passem o dia
dormindo e não dêem trabalho. A quadrilha é formada pelos funcionários da clínica e
também está envolvida num esquema de corrupção. O regulamento do asilo prevê que as
doações sejam feitas diretamente à supervisora, que, dessa forma, fica à vontade para
comercializar os mantimentos. Adalgisa não mede as palavras: “Vocês doam roupas e
alimentos que podem render um bom dinheiro. O que Zoraide não usa nem come ela vende.
”.
À tarde, um funcionário chamado Uéslei foi visto diante da clínica enchendo a carroceria
de uma caminhonete com alimentos doados pela escola. P flagrante não pareceu intimidar a
supervisora, embora ela estivesse usando um mocassim que pertencera à avó de uma aluna.
Zoraide alegou que guardava as doações num deposito para evitar assaltos noturnos à
despensa, cometidos pelos próprios internos. A entrevistada não pode confirmar essa
informação, pois dormia a custo de sedativos, com a cabeça apoiada diretamente no
colchão – o gato de pelúcia que lhe servia de travesseiro tinha sido confiscado pela
supervisora.
A colega de quarto de Adalgisa também permaneceu em silencio, mas não porque estivesse
dormindo: o problema é que aquela senhora não se comunica com ninguém.
Chegou a poucos dias à clínica, vinda ninguém sabe de onde, e tem o olhar espantado de
quem sofreu um grande trauma. Zoraide acha que ela “esta esclerosada e fugiu de casa, isso
acontece muito. Talvez o melhor seja ligar para a policia”.
Mas o que aconteceria se a policia desse uma batida no asilo municipal e decidisse
investigar em que condições vivem os internos, por que eles passam o dia dormindo, qual o
endereço do deposito onde são guardadas as doações? Talvez a supervisora fosse obrigada
a trocar o gabinete por uma cela.
Todos os caminhos levam ao Brasil. Entrevistando a dupla Bené e Honório, os garotos
produziram reportagens sobre a Copa do Mundo de 50 e mostraram como o país chegou ao
primeiro mundo do futebol.
Danyelle aproveitou o depoimento de Mila sobre os concursos de misses para falar sobre o
glamour das passarelas e o sonho de virar modelo, manequim, capa de revista e atriz de
novela – não necessariamente, nessa ordem. O tema de Leninha foram os brinquedos de antigamente, muitos deles ameaçados de extinção, como as bonecas artesanais de uma
interna chamada Alice.
Não gosto muito de falar em publico, por isso senti o coração disparado quando Apolo me
chamou pra ir lá na frente ler a minha reportagem. A aula era de História, mas a professora
de Português também estava na sala e me encorajou com um sorriso. No fundo, o que eu
tinha a temer? Alguém precisava denunciar as injustiças cometidas na clínica e libertar os
internos da tirania de uma supervisora corrupta.
Ao lembrar que minha avó estava internada naquele campo de concentração, segurei a folha
sem tremer e me sente a Fátima Glória anunciando as manchetes no jornal da tevê. Devo ter
caprichado na emoção, pois, ao terminar, recebi aplausos dos colegas e pensei que a minha
redação seria publicada no Olho Vivo
Mas pensei errado.
Tirando os olhos do papel, percebi que Apolo não estava aplaudindo e cochichava um
censura no ouvido da Clarice. O professor de História levantou os braços restabelecendo a
ordem com um pigarro:
-A sua reportagem tem clareza e objetividade – admitiu Apolo.
-Essas características são essenciais para um bom texto jornalístico, não é verdade,
professora?
Clarice deu razão ao colega. Apolo partiu, então, para o ataque:
-Mas é preciso considerar, Joana, que as suas denuncias são muito graves. E se Adalgisa
estiver inventando?
A turma saiu em minha defesa:
-Os internos estão por aqui – Leninha botou a mão na testa – com a supervisora. Ela vive
ameaçando jogar as bonecas da Alice no lixo!
-Eu também ouvi horrores sobre essa Zoraide – disse Danyelle. – A Mila garantiu que no
inverno a megera desliga o aquecedor do chuveiro.
João contou que Bené e Honório brigavam a toa, principalmente quando o assunto era Copa
do Mundo, mas numa coisa eles concordavam:
-Nenhum dos dois suportava a Zoraide. Ela diz que futebol faz mal para o coração e não
deixa ninguém ver jogo na tevê.
O apoio de João não me comoveu: ainda estava magoada por ele ter pegado a Dany no
colo. Outros colegas tinham histórias semelhantes e começaram a falar ao mesmo tempo.
Apolo deu um tapa no quadro:
-Calma lá, minha gente. Tudo isso pode ser verdade, mas quem acusa precisa de provas.
O burburinho voltou a crescer. Coube a Clarice a interpretação do texto:
-O que o professor de História está tentando dizer é que vocês devem ter cuidado com o
que escrevem. Vejam a redação de Joana Dalva. Ela afirma, por exemplo, que o gato de
pelúcia que Adalgisa fazia de travesseiro foi confiscado pela supervisora.
-É a pura verdade – insisti. –Eu vi o gato no gabinete da Zoraide.
-Sim, minha querida. Mas desse jeito você se arrisca a enfrentar um processo por calunia. O
mais prudente, no caso, é dizer que o tal gato de pelúcia teria sido confiscado. Ou que a
suposta quadrilha seria formada pelos funcionários da clínica. Ou que a polícia poderia
indicar a supervisora se fizesse uma investigação. Reparou no tempo verbal? Teria, seria,
poderias... Enquanto o suspeito não for condenado, contente-se em usar o futuro do
pretérito.
Apolo agradeceu a intervenção de Clarice e lembrou-se de outros detalhes:
-Você se esqueceu de mencionar o sobrenome da supervisora, da entrevistada e do funcionário da clínica. Mas o pior, Joana, é que faltou imparcialidade à sua matéria. Não é
preciso ser jornalista pra saber que as duas partes envolvidas merecem o mesmo espaço. E
qualquer leitor percebe, convenhamos, que você ficou do lado dos internos.
Aquela conversa estava começando s me irritar:
-Não me preocupei em ser imparcial. Meu objetivo foi fazer uma denuncia contra a
supervisora do asilo.
-Tudo bem – disse Apolo. – Mas você poderia ter entrevistado outras pessoas.
-Eu tentei, professor. Não tenho culpa se a companheira de quarto da Adalgisa não queria
falar:
-Estou me referindo – ele insistiu – a internos que tenham condições de se expressar. Essa
velha, pelo que entendi, esta completamente gagá.
Não pensei duas vezes... alias, não pensei nem uma vez pra explodir:
-Quem é você pra xingar a minha avó?
Seguiu-se um silencio curto, mas carregado de eletricidade. Apolo precisou de um tempo
pra se refazer do susto:
-Espere aí, Joana. A sua avó morreu. Como é que ela pode estar no asilo?
Clarice, mais uma vez, encarregou-se da interpretação:
-Joana está falando em sentido figurado. De certo modo, todas as internas do asilo
poderiam ser nossas avós.
A turma esperava que eu confirmasse a tese da professora de PORTUGUÊS. Mas, aquela
altura, não dava pra recuar. Tinha de salvar a minha avó e não hesitei em contar a verdade:
-Não, Clarice, não é nenhuma metáfora. A companheira de quarto da Adalgisa é mesmo a
vó Nina.
Todos os colegas me olhavam (ate mesmo João, ai de mim!) como se eu estivesse maluca.
Clarice perguntou se eu me sentia bem e me chamou pra tomar um pouco de ar. Agradeci a
oferta, mas só queria mesmo ir ao banheiro – e sozinha.
Guardei o meu texto no bolso e sai da sala sem olhar pra trás. Não queria falar com
ninguém, por isso dei graças a Deus por encontrar o banheiro deserto. Joguei um pouco de
água fria na nuca encarei o espelho. Não bastassem todos os problemas, havia uma espinha
bem na ponta do meu queixo. Era só o que me faltava! Senti comichão na ponta dos dedos
pra espremer a intrusa, mas fiquei com medo de abrir uma cratera que poderia virar cicatriz.
Enquanto examinava a espinha, tentei prever a reação da diretora ao saber que eu cometera
a heresia de afirmar que minha avó estava viva. Era quase certo que dona Nélia intimasse
meus pais a comparecer à escola, como fizera da outra vez, quando escrevi aquela redação
mudando o destino de Joana d’Arc. Eu teria de me submeter ao tribunal do Santo Oficio e,
pra escapar da expulsão e do psicólogo, renegar as minhas palavras e confessar que tudo
não passara de um mal-entendido.
Não, eu não estava com disposição pra enfrentar um interrogatório. E se eu for de fato uma
bruxa que nasceu com a mão esquerda enfeitiçada? Toda bruxa que se preza tem uma
espinha no rosto, portanto achei melhor não espremer a minha. Em vez de voltar à sala,
abandonei a mochila e fugi da escola.
Cheguei à clínica no meio da manha e fiquei sem saber se era horário de visita. Não
querendo pedir autorização pra me encontrar com a vó Nina, passei por um portão lateral e
segui por um corredor comprido e estreito que leva diretamente ao quintal. Uma placa
pendurada no muro diz que ali é uma AREA DE RECREAÇAO, mas quem consegue se
divertir ou relaxar no meio da imundice? Fazia dias, talvez semanas ou meses, que o quintal
não ganhava uma faxina: o chão estava coberto de folhas, a grama tinha virado um matagal e as moscas se multiplicava ao redor das lixeiras entupidas.
Não sei como os internos suportavam aquele cheiro. Será que o olfato também envelhece?
A maioria estava sentada nos bancos de pedra e mantinha os olhos num ponto indefinido
entre a beira do telhado e o céu.
Não demorei a identificar alguns conhecidos: Bené e Honório discutiam junto a uma
pilastra se o goleiro da seleção, Barbosa, era o culpado pela derrota do Brasil na final da
Copa de 50; Alice empurrava um carrinho de boneca, olhando para os lados e para trás
como se temesse um seqüestro; Mila desfilava o corpinho de modelo que não carece de
regime.
Da minha avó, nem sinal. Fui ao fundo do quintal pra falar com Adalgisa, que remexia
umas sobras de comida. Dei-lhe a minha redação. –Só não sei se vai ser publicada.
-Você botou ai tudo o que eu disse?
-Veja você mesma.
Adalgisa pregou o nariz no texto, mas só conseguiu ler uma ou duas linhas.
-Acho que estou precisando de óculos – ela me devolveu o papel. – Quando eu firmo a
vista, as palavras dançam e acabam mudando de linha. É como se eu tivesse olhos de
gelatina.
Comecei a ler em voz alta, mas Adalgisa não parava de fuçar a lixeira. Larguei o texto pela
metade e pus as mãos na cintura:
-O que é que você tanto procura, afinal?
- O meu gato – ela choramingou, sacudindo um tira de pelúcia. – Só achei, por enquanto o
rabo.
-E o resto?
Adalgisa sacudiu os ombros:
-Por aí. Zoraide pegou a tesoura e cortou o bicho em pedacinhos. Acho que lea ficou brava
porque tentei fugir outra vez.
Pra desfazer o esquartejamento, precisava de papel e lápis e fui falar com um interno de
pijama listrado que rabiscava bilhetes de loteria. Ele ficou meio desconfiado quando pedi
pra dar um palpite, mas acabou concluindo que eu poderia lhe trazer sorte.
Escrevi no verso do bilhete, com letra de formiguinha:
O gato de pelúcia vai reaparecer sem rabo, atrás da lata de lixo.
Em seguida, marquei alguns números e fiz um trato com o sujeito: se ficasse rico, ele me
daria de presente uma viagem do Oiapoque ao Chuí, combinado?
Voltei pra perto de Adalgisa e perguntei, como quem não quer nada:
-Você já procurou atrás da lixeira:
Adalgisa olhou na direção do meu dedo e pegou no colo o amigo de pelúcia:
-Achei que a Zoraide tinha judiado de você, meu bichinho... Será que eu estava sonhando?
- Deixe para lá - encerrei o assunto. - O que conta é que o seu travesseiro, quer dizer, o seu
gato está são e salvo praticamente inteiro. É só costurar o rabo.
- Costurar? - ela balançou a cabeça. - Mal consigo enxergar a linha, quanto mais o buraco
da agulha! É melhor eu pedi à sua avó, que ainda tem a vista boa.
Senti o sangue desacelerando e achei que fosse virar estátua:
- Você disse... minha avó?
- Foi o que a dona Nina me contou. Você não é a Joana d’Arc?
- Joana Dalva – corrigi, já habituada àquela troca. – Mais como é que pode? A Zoraide me
disse que a vó Nina não fala com ninguém.
- Comigo, ela sempre falou - Adalgisa disse com orgulho. – Que saber de uma coisa? Eu já morei, por uns tempos, na casa da dona Nina. A sua mãe tinha a sua idade e me tratava
como irmã. Tanta saudade da Sônia... A cabeleira dela ainda bate na cintura?¬
- Não - lamentei informar. - Agora, termina na nuca.
- Sônia costumava usar uma pasta de mel com babosa para deixar os cabelos sedosos. Teve
uma vez que ela dormiu com a cabeça lambuzada. No dia seguinte, o travesseiro acordou
preto de formiga.
Adalgisa queria contar outras histórias pra provar que o folclore da família, mas no
momento eu não estava interessada. ¬Não via a hora de falar com a minha avó e fui
procurá-la dentro do casarão.
Não dava pra chegar ao quarto da vó Nina sem passa diante do gabinete. Colei o corpo na
parede, bem ao lado da porta aberta, e ouvi uma voz estridente xingar o rei de idiota.
Duvido que algum monarca se animasse a visitar o asilo municipal, ainda mais pra ser
ofendido: o mais provável era que a supervisora estivesse jogando paciência no computador
- e perdendo. Aproveitei a distração de Zoraide para atravessar o salão e disparei até o fim
do corredor.
Entrei no quarto sem bater à porta e pulei na cama para abraçar ¬a minha avó. Ela riu da
minha euforia e deixou cair o bloco e a caneta com que escrevia uma carta... pra mim!
- Queria entender, Joana, por que ressuscitei e como fiquei ¬curada. Passei os últimos
meses de cama, sem forças sequer pra me levantar, mas agora me sinto pronta para correr a
maratona.
Fiz um resumo da historia do epitáfio e expliquei que os adjetivos, quando bem
empregados, podem realizar milagres: além de escrever que minha vó estava viva, eu tinha
acrescentado que ela era forte.
Fiquei um pouco constrangida ao confessar que não pude atender ao seu ultimo desejo.
Quando contei que Xandi havia jogado as cinzas no ralo da pia, pensando que fosse
chocolate estragado, vó Nina teve um ataque de riso.
- Daria tudo para ver essa cena! – ela disse, enxugando as lágrimas. – É uma pena que eu
estava morta.
Senti que era o momento de matar uma velha curiosidade:
- E o que é que tem do lado de lá?
Vó Nina olhou para a parede. Tive de me explicar melhor:
- Do outro lado da vida, vó. Existe céu? Os mortos conversam em latim? Os anjos são
bochechudos? Você falou com Deus? Ele é homem ou mulher?
A lista de perguntas estava só começando, mais minha vó me deteve com um gesto:
- Na minha idade, a memória é um pote cheio, sem muito espaço para as novidades. Eu me
lembro até hoje dos nomes das minhas bonecas, do pé de jambo que tinha no quintal da
minha casa, da primeira espinha que brotou no meu rosto... Mas às vezes não consigo dizer
o que eu comi no almoço ou com quem conversei na véspera. O meu tour pelo céu, por
exemplo, não coube no pote.
Só me restava, neste caso, fazer uma pergunta mais mundana:
- Como é que veio parar aqui?
- Não me recordo de todos os detalhes. De repente, eu me vi caminhando sem rumo e achei
que estava perdida na cidade dos mortos. Sei o poder da sua literatura, Joana, e deduzi que
você tinha escrito alguma frase para me trazer de volta à vida.
- E por que você não foi pra casa, vó?
- Tive medo de assustar as pessoas. Imagine a cara do porteiro do prédio quando me visse
na calçada!
Não resisti ao gracejo:
- Seu Esteves passa o dia inteiro dormindo! Se ele ficasse assustado, você podia dizer que
era um sonho.
Vó Nina falava sério:
- Entrei num orelhão e liguei pra casa. Quem atendeu foi o Xandi Quando ele disse alô,
fiquei muda, O que é que eu ia responder? Aló, querido, aqui é a vovó. Você soube da
última? Eu estou viva... Não dava pra ser tão direta, entende? Desliguei o telefone sem abrir
a boca.
- E então - concluí - você decidiu se mudar para o asilo.
- Não foi nada planejado. Eu estava passando aqui na rua e por acaso encontrei a Adalgisa
tomando sol na varanda. Você sabia que há muitos anos, quando ainda era mocinha, ela
morou lá em casa? Pois é . Um belo dia, sem nenhum motivo, a garota desapareceu, sumiu,
evaporou. Cheguei a procurar a polícia pra ver se descobria alguma pista, mas nunca mais
tive notícia.
- E por que - curiosidade pega - Adalgisa fugiu?
- Ela não quer falar nesse assunto.
- Não quer, paciência - resmunguei. - Você devia voltar pra casa. Barulho de passos no
corredor. Vó Nina baixou a voz:
- Não posso abandonar Adalgisa. Ela reclamou tanto da supervisora que resolvi passar uns
tempos por aqui. Pra não levantar suspeita, fingi que estava desmemoriada e comecei a
vigiar a Zoraide. Você não imagina, Joana, as barbaridades que descobri!
Fazer o papel de detetive gagá... só mesmo a dona Nina! Agora entendo por que ela não
falou comigo ontem à tarde, quando entrei no quarto com a Zoraide. Eu ia dizer que aquela
aventura podia ser perigosa, mas engoli o conselho ao ouvir passos de trovão no corredor.
E se fosse a supervisora? Eu tinha penetrado no asilo clandestinamente e precisava de um
bom esconderijo. Escorreguei, então, pra baixo da cama e topei com o bloco de papel onde
vó Nina Escrevia a tal carta.
Joana,
Estou sentindo muita falta de vocês, mais teremos tempo de sobra para matar a saudade...
O mais urgente, neste momento, é denunciar a exploração sofrida pelos internos da clínica
– que, de clínica, só tem o nome. A supervisora transformou este lugar, minha querida,
num verdadeiro inferno. Ao ouvir as queixas da Adalgisa, achei que estava diante de uma
daquelas velhas rabugentas e paranóicas que gostam de posar de vítimas e se sentem
perseguidas pela própria sombra. Não demorei a perceber, contudo, que a ameaça é real:
Zoraide controla o asilo com a mão de ferro e comete toda sorte de safadezas... até roubar
as doações! Dizem que leva tudo para um depósito e fatura um dinheiro com a venda dos
mantimentos. Dá para acreditar? A gente precisa fazer alguma coisa para botar essa
mulher.
A carta terminava de repente, mas não era dificl adivinhar onde vó Nina sonhava botar a
supervisora. Ao tirar os olhos do papel, percebi que o barulho dos pasos tinha sumido e vi
um pedaço de calça jeans que terminava em botas cobertas de lama. O dono das pernas
perguntou:
- Posso saber com quem a senhora estava conversando?
Identifiquei a voz do Uéslei, o grandalhão que dirigia a caminhonete da clínica. A resposta
da vó Nina foi um ronco comprido; suponho que ela estava na cama, de olhos fechados para fingir que dormia. O motorista deve ter acreditado que aquela interna falava sonhando,
pois logo deu meia-volta e dirigiu-se à porta.
A cena tinha tudo para terminar bem, se não fosse o acúmulo de poeira no chão. Aliviada
de ver o Uéslei se afastando, respirei fundo e senti as narinas invadidas por uma manada de
ácaros selvagens. Tapar o nariz foi inútil. Imediatamente, comecei a espirrar e atraí a
atenção do motorista. Ele disse ‘’arrá, eu sabia’’ e veio andando em câmera lenta.
A minha tábua de salvação era o bloco de papel. Pra alcançar a caneta caída no meio do
assoalho, estiquei o braço pra fora da cama e quase levei um pisão de bota.
O susto me deixou trêmula, por pouco não me deu um branco. O que eu poderia escrever?
Talvez algo do tipo: Zoraide chama Uéslei com um berro. Ou então: Um interno entra no
quarto para avisar que a caminhonete foi roubada. Melhor ainda: Uéslei está com dor de
barriga e sai correndo para o banheiro. Havia muitas maneiras criativas de tirar o
troglodita da minha frente, mais preferi me disfarçar de moradora do asilo e ser cobaia da
frase:
Estou com a idade da minha avó.

Poderosa 2 - Sergio KleinOnde histórias criam vida. Descubra agora