9

881 44 0
                                        

Eu já não aguentava mais ficar deitado naquela cama de hospital recebendo visitas de enfermeiras e médicos a cada uma hora e quando ele finalmente me deu alta, eu não fiquei tão feliz como esperado. Meu pai já tinha duas malas no carro com as minhas roupas e uma caixa com um notebook novo para que eu pudesse levar. Catalina arrumou uma mochila cheia de doces e outras porcarias que eu tinha certeza que eu não teria lá e uma caixa de cigarros.

Todo mundo estava preparado para eu ir para a reabilitação, menos eu.

Não me despedi de ninguém a não ser meu pai e mesmo minha mãe insistindo para me ver e falar comigo, pedi para que a avisassem que eu só faria aquilo quando eu voltasse.

Quando chegamos uma enfermeira levou meu pai e eu para conhecermos todo o lugar que mais parecia um resort. A última parada foi no meu quarto que diferente de todo o lugar era bastante simples, apenas a cama, um guarda-roupa, uma mesa com cadeira e o banheiro.

- Então é isso. – meu pai suspirou.

- É. – cocei a nuca.

- A gente se vê...

- Daqui dois meses. – falei tenso.

- Eu posso te telefonar uma vez por semana e vir aqui uma vez por mês...

- Não precisa, pai. – segurei seu ombro – Não precisa vir ou ligar, a gente só vai conversar quando eu sair daqui, tudo bem?

- Porque, filho?

- Porque eu quero. Se eu conversar com você ou qualquer outra pessoa, vou ficar pedindo para sair daqui caso eu odeie o lugar.

- Tudo bem. – ele assentiu – Você tem tudo o que precisa?

- Sim.

- Qualquer coisa é só me ligar que eu providencio.

- Pai, eu vou ficar bem. – insisti – Pelo menos enquanto as enfermeiras bonitas continuarem por perto. – falei rindo e a enfermeira ficou com as bochechas coradas e abaixou o rosto – Agora é melhor você ir embora antes que comece a chorar.

- Eu não vou chorar. – ele me abraçou forte.

- Muito menos eu.

- A gente se vê daqui dois meses. – ele segurou meu rosto.

- A não ser que a enfermeira me dê uma chance, aí eu vou querer ficar para sempre. – falei rindo.

- Não conte com isso. – ele riu – Tchau, filho. Eu te amo.

- Tchau. – suspirei.

Esperei que ele e a enfermeira saíssem do quarto e me joguei na cama, enfiando o rosto contra um travesseiro e gritando até minha garganta começar a doer. Isso estava realmente acontecendo. Eu ficaria dois meses naquele lugar para curar o meu "vício". Aquilo só me dava mais vontade de usar algo para esquecer que eu estava sendo amigavelmente obrigado a ficar ali.

The GetawayOnde histórias criam vida. Descubra agora