Hoje é sábado, faz 4 dias que sai com Maggie, Anna e Júlia. 3 dias que o telefone do desconhecido permanece em meu criado-mudo, me desafiando a discá-lo. 2 dias desde o último sms de Enzo perguntando o por quê de tê-lo excluído. 1 dia desde que mamãe me avisou que não viria para visitar esse fim de semana por problemas na empresa... Pelo menos uma coisa boa nessa semana de caos.
Levanto da cama, faço minhas higienes matinais, tomo um café reforçado e saio para correr. Corro durante duas horas, 12km. Minhas pernas estão exaustas quando chego em casa, tomo uma ducha rápida e saio do box do chuveiro com a toalha felpuda enrolada em meu corpo magro. Visto uma lingerie preta e uma T-Shirt comprida o suficiente para tapar minha roupa íntima.
Todos os dias desde que achei aquele telefone juro que vou parar de ser covarde e ligar para descobrir a quem pertence. Todos os dias eu quebro minha promessa. Todos os dias menos hoje, pego uma barra de chocolate na cozinha e caminho decididamente até o lugar onde o papel está guardado em meu quarto, busco meu celular sobre a cama e digito o número. Prendo a respiração enquanto chama, não sei porque adiei ou estou tão nervosa... que ridículo. Uma mulher atende no terceiro toque. Minhas pernas fraquejam, eu tinha esperanças de que esse telefone pertencesse ao proprietário, seria menos humilhante; me sento na cama para ganhar alguma estabilidade física e emocional.
- Alo-Ô? - Sua voz é sonolenta e impaciente, apesar de ser quase meio-dia.
- O-oi, me chamo Alice, eu acabei trazendo uma jaqueta pra casa na terça-feira e esse telefone estava no bolso, será que poderia me ajudar a identificar o dono? - Despejo tudo rápido, como quem arranca um band-aid.
- Pera, é... o quê? - Ela ri pelo nariz - Sabe onde esteve na terça-feira? E como é a jaqueta? Posso te dizer se o telefone pertence ou não ao dono se me der mais detalhes...
- É uma jaqueta de couro, tamanho G. Estive no The Black Rose.
A garota solta um grunhido
- Só um momento, Angelica.
- É Alice, mas obrigada. - Murmuro para o nada, pois o telefone ficou mudo. Posso identificar duas vozes discutindo, uma deve pertencer àquela garota e outra não faço ideia à quem pertence. Reviro os olhos com a demora e é quando decido mastigar o chocolate que tenho em mãos que uma voz rouca e grave fala comigo.
- Oi?
- Ah, - Engasgo e tusso seis vezes antes de conseguir falar, eu contei. - oi.
- Como vai, Angelica?
- Na verdade, é Alice... - Suspiro e um silêncio constrangedor se segue, ele pigarreia e a ligação fica muda novamente, confiro o visor do celular para ter certeza de que a ligação não caiu, continua intacta. - Olá?
Ele pigarreia outra vez antes de falar.
- É... humm... Achei que não fosse ligar. - Esse ressentimento na voz dele me deixa alerta, ele sabe quem eu sou, me reconheceu apenas pelo nome... puta merda.
- Eu estava assustada, lembro de pouca coisa daquela noite, sinto muito.
- Ah. - Ele solta um suspiro. - Quando posso buscá-la?
- Volta pra cama, Jay. - Escuto a garota gritando no fundo e aquilo me deixa impaciente, por algum motivo, quase pedi para que ele viesse buscar a jaqueta nesse exato momento.
- É... Buscar o que?
- A jaqueta, quando posso buscar?
- Ah sim, certo... Acho que você precisa desligar agora, me ligue para combinarmos o local, você parece ter coisas melhores para fazer. - As palavras queimam na minha boca quando saem contrariando minha vontade, meu coração está acelerado, meus dentes trincados, meus olhos veem vermelho. Nunca senti tanta raiva.
- Espere, não desligue. - Ele diz antes de eu desligar, escuto uma discussão e uma porta fechando. - Estou livre hoje, sinto falta daquela jaqueta, é a melhor que eu tenho... Onde você está? Posso ir encontrá-la perto das... 18:00?
- Estou em casa, vou manda o endereço. - Sinto alguma coisa ferver dentro de mim, mas não consigo identificar o que é, nunca me senti com tanta raiva.
- Parece bom para mim, te vejo em breve.
Ele desliga a chamada e eu me sinto ansiosa, confusa e extremamente nervosa. Não lembrei de perguntar o seu nome.
❤❤❤
A voz da garota convidando o estranho para a cama continua ecoando em meus pensamentos e me deixando nervosa; depois de duas horas me martirizando de como aquele cara poderia estar se divertindo com aquela... ARGH, não consigo pensar coisas feias de qualquer mulher que seja. Depois do ódio inexplicável me corroer de dentro para fora e de eu me perguntar noventa vezes por quê me importo, decido ligar para Maggie.
Explico para ela tudo que aconteceu e ela ri, na verdade, ela gargalha, aquelas gargalhadas gostosas de se ouvir.
- Você gosta dele. - Ela diz tentando controlar as risadas.
- Eu nem conheço ele! - Grito.
- MAS GOSTA DELE! - Ela grita mais alto e ri de novo.
- Vá se ferrar! Cansei de você. - Desligo o telefone na cara dela e me jogo de cara no colchão.
Sinto o celular vibrar e vejo uma mensagem de Maggie no whatsapp.
Maggie: Você desligar não muda o fato de que você GOSTA DELE, tenha um bom ENCONTRO.
Alice: Eu nem sei o nome dele. NÃO É UM ENCONTRO!
Maggie: Vista uma bom par de lingeries. 😉
Reviro os olhos e largo o celular. Não respondo.
❤❤❤
São 18:28 quando enfim finalizo o jantar, coloco a mesa e sinto meu celular vibrar no bolso da calça. Decidi vestir uma calça preta de moletom e uma blusa branca de mangas compridas com decote em V, estou usando meu melhor par de lingerie preta Victoria Secret's.Meus cabelos estão soltos caindo em ondas naturais, passei apenas uma camada de rímel para destacar meus olhos e mantive minhas pantufas. Pesco o celular no bolso e verifico a mensagem de um contato não salvo.
+1 617 555-9868: Hey, é o Jason, pode me mandar a localização?
Alice: 307 Beacon St #501
Jason: Estou a caminho.
❤❤❤
Faz um pouco mais de duas horas que Jason me mandou aquela mensagem, já desisti de esperá-lo, termino de guardar a comida intocada na geladeira, apago as luzes do apartamento e caminho até o closet, visto meu pijamas de flanela vermelho, removo a maquiagem, vou para o quarto e me deito embaixo das cobertas quentinhas. Pego no sono quase instantaneamente.
Acordo às 23:21 com meu celular tocando no criado-mudo, esfrego meus olhos e me sento na cama, pego o telefone e vejo o nome de Jason brilhando na tela. Desligo o iPhone e me deito para voltar a sonhar. Mal encosto a cabeça no travesseiro e ouço a campainha tocar impacientemente, tapo a cabeça com o edredom e tento abafar o som.
Depois de vinte minutos tentando ignorar minha campainha, decido que é melhor acabar com isso logo, acendo o abajur, pego a jaqueta em minha cadeira de estudos e marcho em direção a porta. Se atrasar? Ok. Furar comigo? Ok. Interromper meu sonho? Limite rígido.
Abro a porta pronta para jogar a jaqueta na cara do sujeito e fazê-lo ir embora, mas congelo com aquele par de olhos âmbar me encarando ansiosos. O cara é lindo, preciso confessar. Talvez um dos caras mais bonitos que eu já tenha visto em Boston. Seus olhos são intensos, seus cabelos castanhos tão escuros que parecem pretos, a pele levemente bronzeada apesar do clima frio, seus ombros são largos, tem cerca de quinze centímetros a mais que euzinha de altura. Parece um Deus Grego daqueles muito mal educados que não conhecem a palavra horário. Cruzo os braços ao lembrar que aquele cara quem me fez sair da cama no meio do primeiro sono sem pesadelos desde o começo da semana. O encaro e ele me encara de volta quando termina de conferir meu corpo. Eu gosto disso, por mais brava que eu esteja.
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As Escolhas de Alice
RomanceAlice Muniz Ruschel de 21 anos está passando pela pior fase de sua vida, o ex-namorado acaba de terminar com ela e aparece namorando outra no dia seguinte, os pais querem que ela termine a faculdade que odeia e os sentimentos por um cara misterioso...
