3º Capítulo

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Amelia se assustou ao notar que as pessoas que se aproximaram era na verdade parte do grupo de organizadores do acampamento. Ela sabia que se eles a vissem, seria facilmente mandada de volta à Londres, e era tudo que ela menos desejava.

O primeiro impulso que teve foi abaixar atrás da árvore, sem perder a visão dos adultos, porém com mais alguns passos os organizadores a encontrariam. Então ela se arrastou com cuidado pela neve e conseguiu se distanciar sem ser notada. Foi quando ela olhou em volta e percebeu que estava ainda mais longe do acampamento. Certamente não foi fácil para ela encontrar o caminho de volta, mas as pegadas fundas na neve ajudaram. Quando se aproximou, notou que as luzes dos chalés estavam acesas, e todos estavam acordados. Sentiu um frio na barriga e checou se a porta estava aberta, mas não estava. Deu a volta e entrou pela janela dos dormitórios, tirou as botas cheias de neve e o casaco, e então se dirigiu até o movimento.

- Srta. Scott, por onde esteve? – Sr. Baines perguntou.

- Desculpe, eu estava dormindo. – Ela mentiu descaradamente.

- E ninguém te chamou?

- Não... aconteceu alguma coisa?

- Alguém saiu durante a noite na direção da floresta. Estamos fazendo uma chamada para conferir se todos estão aqui.

Ela assentiu, olhou em volta e localizou Melissa e Rose, se aproximando delas.

- Minha nossa. – Ela sussurrou – O que foi isso?

- Parece que te viram. – Melissa sussurrou de volta – Você demorou demais dessa vez.

- Eu sei, tive que me afastar dos organizadores que foram atrás de mim na floresta e quase me perdi.

- Olha só, Amy, você está se arriscando demais! – Rose disse preocupada – Quase foi pega e ainda se perdeu!

- Eu disse que quase me perdi.

- Dá na mesma.

- Melissa Heinz. – Sra. Baines, a esposa do dono do acampamento, leu na lista de jovens do acampamento e já procurou a jovem no meio dos outros.

- Aqui. – Ela disse, levantando a mão direita.

Ela assentiu e anotou presença, como numa escola.

- Prometa pra gente que não vai mais voltar naquele lugar. – Rose disse séria.

- Eu não vou. – Amelia respondeu, num tom decepcionado – Não tenho mais motivo para ir.

- Você encontrou a casa? – Melissa perguntou.

- Não, mas... talvez ela nem exista mesmo.

- É melhor assim. – Rose disse – Pelo menos nós vamos ter certeza de que você não vai se perder por aí e morrer de frio sozinha.

- Seu otimismo me comove.

A lista de chamada continuou e ao seu fim, todos foram dispensados para os dormitórios. Ficou bem exposta a preocupação dos organizadores, embora aparentemente nenhum jovem tivesse saído do local. Já começaram a pensar que algum curioso estivesse passando dos limites impostos para espiar o acampamento, o que nunca havia acontecido antes. Alguns deles suspeitaram de que poderia ter sido Benedict, já que sabiam que o ator estava passando uns tempos naquela área, mas a ideia foi descartada após todos concordarem que o que ele menos queria era ser reconhecido lá. Resolveram ignorar a história, afinal, já era madrugada e poderia ter sido apenas um mal entendido.

- Ei, Rose. – Melissa a chamou, depois que todos já dormiam – Ainda está acordada?

- Sim. – Ela respondeu, quase que sem som – Melissa, será que vão descobrir a gente? Ouvi dizer que vão investigar tudo isso.

- Eu acho que não, eles nem tem câmeras por aqui.

- Eu fico com pena da Amy, ela pensa que a culpa foi dela, mas na verdade tudo isso foi porque um dos organizadores nos viu!

- É, mas pelo menos eles não descobriram nem menos a Amy. Ficou tudo bem, e ela até desistiu dessas expedições malucas pela floresta.

- Pelo menos esse ponto positivo.

- Vai ficar tudo bem, você vai ver.

No meio da floresta, Benedict remoía o arrependimento que sentiu ao ver aquela jovem fã tão arrasada com sua atitude. Ele admitia que havia sido extremamente duro com ela, embora essa não fosse sua intenção. Seus planos de dispensá-la de forma rápida e eficaz, sem causar danos tinha falhado e ele se sentia a pior pessoa do mundo por ter feito ela chorar.

Mas por que ele se importava tanto?

De alguma forma, aquela mocinha havia mexido com ele. O contato inesperado com fãs do tipo dela não era algo fora do comum, mas dessa vez tinha sido diferente, ela queria apenas observá-lo, nem ao menos pretendia se aproximar e isso era algo puro demais para ele.

A floresta passou a ser um lugar vazio, sem vida e ele não conseguia mais sentir aquela sensação de liberdade que ela proporcionava até tão pouco tempo atrás. Os dias se passaram arrastados e ele passou a esperar por aquela ruivinha durante todas as madrugadas, mas ela não apareceu mais, como o prometido.

Ele resolveu então dar um basta nisso. A cada dia se via pior pela ausência de uma desconhecida, e isso o incomodava imensamente. Não podia simplesmente ficar vendo o tempo passar em um lugar tão bonito quanto aquele, sem ao menos fazer nada para voltar a ter aquela companhia durante as madrugadas congelantes.

Andando na frente da lareira, com uma taça de vinho na mão, ele deu uma rápida olhada pela janela, entre as árvores, para ter certeza de que ela realmente não tinha vindo. Certificando-se de que estava realmente sozinho, ele bufou e debruçado na janela de madeira, teve a visão dos seus equipamentos de retirar a neve. Eles eram tradicionais e ele sentiu uma leve preguiça ao pensar que teria que usá-los na manhã seguinte, já que a sua porta já estava quase toda coberta. Foi quando ele pensou que a tempestade de neve que estava acontecendo naquele momento deveria estar bloqueando toda a entrada do acampamento também, e que alguém teria de retirá-la. Os organizadores provavelmente não iriam querer ter esse trabalho, diante de todas as outras tarefas que eles tinham, e iriam contratar um zelador para fazer isso por eles. Um zelador certamente teria acesso aos dois chalés. Nesse momento ele notou a sorte que estava tendo.

Na manhã seguinte, se levantou assim que o céu se tornou mais claro e tomando os seus equipamentos em mãos, vestiu um sobretudo bem grosso e colocou um cachecol por dentro. Optou por colocar um chapéu e levantou a gola, assim ficou irreconhecível. Tomou o seu caminho até o acampamento e chegou lá dentro de alguns minutos.

- Eu sou o novo zelador. – Ele se identificou, assim que foi abordado por um dos organizadores.

- Não contratamos nenhum zelador.

- Tem certeza? Eu não cobro pelo meu trabalho.

- Não? Oras, então tudo bem. Pode começar pelo nosso chalé e depois vai para os outros.

- Entendido.

- Obrigado.

Ele assentiu e foi até o chalé dos organizadores, assim como o indicado. Retirou toda a neve da entrada e tentava manter em mente que era por uma boa causa. Mal havia começado e já estava cansado, e viu ainda mais dois chalés pela frente. Um deles era o de Amelia, e ele queria muito encontra-lo o mais rápido possível.

Já estava no terceiro e último chalé e perdendo as esperanças, quando finalmente as portas se abriram e jovens que aparentavam ter idade entre quinze a dezessete anos saíram uma por uma e olhava curiosas para aquele zelador calado, que as olhava disfarçadamente. Três meninas saíram ao mesmo tempo, e uma delas fez ele achar que todo aquele trabalho realmente valeu a pena. A ruivinha de bochechas coradas de frio olhou diretamente para o homem, sorrindo simpática.

- Bom dia. – Ela então disse.

- Bom dia, Amelia. 

Winter CampOnde histórias criam vida. Descubra agora