Pegou-se pensando em Justin enquanto dirigia. Morava na frente dos avós dele, mas nunca sequer batera na porta. Deveria ser a típica vizinha solitária. Talvez temida? Aquela que não pede o sal nem o açúcar quando faltam na dispensa. De qualquer maneira, queria sair com o amigo para um café. Conversar e bater um papo.
Observou que a cor branca da casa refletia o forte sol daquela linda manhã. As raras nuvens no céu pareciam flocos. A casa da família Clister era grande e toda feita de alvenaria.
Não havia muro. Uma pequena estrada de concreto em meio a grama fora feita até a porta de entrada. Havia também outra mais larga. Construída para os carros passarem e chegarem até a garagem que no momento permanecia fechada.
Viu de longe, na esquina da rua, o hospital Gillian Carter onde seu pai trabalhava. Um prédio imponente e bem preservado pelos anos que somava. Existia um grande estacionamento ao lado da construção no qual os carros dos pacientes poderiam estacionar. Um tanto de azar ter de fazer o uso daquelas vagas.
Cláudia estava louca para ver sua mãe e seu pai. Não via a hora para poder dizer que os amava. Sanar a falta que sentia.
Ela não tinha o controle do portão. Sobre o concreto em frente a garagem, estacionou. Feliz por aquele dia de folga, saltou do carro e o trancou. A sua mãe já estava na porta. Acenava sorridente e vestia uma calça jeans e uma blusa amarela com um fino casaco de lã branco que ia até os joelhos. Seus cabelos ruivos e encaracolados chamavam a atenção mesmo que daquela distância.
Há pouco tempo atrás, Eliana estava na janela enquanto tomava seu chá de maçã matinal. Então, vira a filha e rapidamente deslocara-se até a entrada da casa. Por isso, ainda carregava uma xícara consigo. Era rosa e tinha nela escrito a frase: "Best Mom In The World". Cláudia havia dado-a como lembrança quando fora morar no apartamento perto da delegacia.
Sua mãe continuava a sorrir. Sempre irradiara uma alegria imensa.
—Filha! — gritou assim que abrira a porta.
Saiu de casa descalça em direção a Cláudia que em passos rápidos foi também em direção a ela. Antes de qualquer reação, olharam uma para a outra por alguns segundos até abrirem um largo sorriso juntas. Abraçaram-se forte durante um longo período. O coração das duas amoleceu.
— Que saudades eu estava de você! — disse ao terminar o abraço.
Na bochecha da filha, deu vários beijos.
— Digo o mesmo, mamãe. Te amo tanto. Estou aqui para gente matar essas saudades — respirou fundo e continuou. — Ah, como é bom estar em casa! Meu lar. Onde está o papai?
As duas estavam ainda no jardim. Mas, de repente, a expressão de Eliana mudara. Olhou dentro dos olhos da investigadora.
— Ele? Ele está lá dentro. Mas agora vamos. Entre! — deu uma piscadinha. — É bom que tenha vindo. Precisamos conversar.
Cláudia ficou preocupada. Não sabia bem o que a mãe queria tratar com ela. Entretanto, assim como a filha, Eliana sempre tinha algo para dizer. Achou que não fosse nada de importante.
Passaram pela porta e sentiu o cheiro de bolo no forno. Lembrava sua infância. Só aquele bolo conseguia ser tão cheiroso. Viu também de relance na cozinha uma panela de alumínio e dentro uma colher de pau. Ao lado, sobre a pedra em que estava o fogão elétrico, uma lata de leite condensado ainda fechada. Pelo jeito, alguém iria preparar um brigadeiro. Ficou com água na boca. Amava tudo que era doce.
— Mãe, você sabia que eu vinha? — questionou.
Antes de responder, sua mãe foi até a cozinha e colocou na pia vazia a sua xícara. Nesse meio tempo, Cláudia sentiu alguma coisa fria tocar sua mão.
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Entre Os Ventos de Yellow Hill
Misterio / SuspensoA jovem Cláudia se vê iniciando seu primeiro trabalho como investigadora na delegacia da cidade há pouco reconstruída de Yellow Hill. É quando recebe um caso aparentemente simples: a morte de uma mulher, Ericka, e de seu marido, Edward, durante o to...