Repetiu o mesmo caminho que fizera todos os dias daquele ano. Seguiu na Rua Ramos de Oliveira até virar à direita na Avenida Colibri. Ofegava. Ofegava porque tinha a mente inteira pensando no estado dos seus pais, no vizinho e em sua própria pessoa após o que teria acabado de acontecer. E, por isso, preocupava-se. Preocupava-se porque queria agir e tentava arranjar um plano. Protegia-se. Vibrava. Olhava atenta para todos os lados. Não poderia vacilar.
Destinada, chegou e saltou do seu carro. Diante o estacionamento da delegacia, novamente, observou qualquer rastro, qualquer sinal que pudesse achar para comprovar quem teria estado no terreno de Tobias. Com os punhos semicerrados e com os olhos bem abertos andava a passos fortes e certeiros. Foi dessa forma que adentrou no edifício em que trabalhava.
Não cumprimentou ninguém e muito menos destinou-se a sua sala. Procurava por Hugo e nada mais que ele. Seguiu pelos corredores iluminados e passou pelas vidraças usadas como divisórias para os escritórios de cada agente policial. Já em frente ao do delegado, continuava em seu ritmo incessante, predatório. Não quis nem saber de bater na porta e, portanto, simplesmente, abriu.
— O que é isso?! — vacilante não entendera o que havia acontecido. — Bata antes de entrar! — ordenou.
Viu o delegado saltar da cadeira. Mas não só ele.
Anna, a policial, estava sentada ao colo do casado doutor. Uma de suas mãos sobre o rosto dele e a outra sobre a coxa. Continuariam tendo um amasso se não fosse pela intervenção inesperada de Cláudia.
Notou a região em volta dos lábios de Hugo cheia de batom de mesma cor do de Anna. Mesmo assim, a investigadora continuava vidrada em conversar com ele e explicar o que havia acontecido. Era necessário que se tomasse as providências e as medidas de segurança. Por este motivo, ignorou a cena que via.
— Você está de folga. O que você faz aqui? — questionou Hugo.
— Preciso falar com o senhor — disse ela.
Anna parecia não ligar para a presença de uma intrusa ali. Continuava a acariciar a coxa do delegado. Já ele não sabia muito bem o que fazer ao ver que Cláudia o havia pegado beijando uma mulher que não era sua esposa e sim uma policial, uma subordinada.
Meio sem jeito respondeu:
— Mas agora? Eh... Só um momento — virou-se e sussurrou algo no ouvido de Anna.
Imediatamente, ela saiu do seu colo e sorriu para ele. De pé, passou por trás das costas do delegado e fez uma rápida massagem em seus ombros antes de dar um beijo em sua bochecha e sair pela porta. Cláudia irritada com a demora, batia os pés no chão. Falou finalmente:
— Agora, podemos conversar?
O delegado ajeitou seu paletó e gravata azuis. Pigarreou colocando o punho sobre a boca.
— Sim, claro. Sente-se — as bochechas estavam coradas, continuou. — Espero que não comente nada com seus colegas sobre o que viu aqui. Isso fica entre nós, certo?
Cláudia com o vestido ainda amassado e com manchas escuras de sangue, puxou a cadeira. Não houve espanto porque como a cor das vestes eram pretas, as manchas não revelavam sua origem. Sentou-se.
— Não me importa seus relacionamentos amorosos, ou, melhor, suas traições, delegado Hugo. O que me importa é o que tenho a lhe falar e o que acabou de me acontecer.
A investigadora estava com um semblante sério, mas dentro dela um resquício de susto e vulnerabilidade. Não falou mais nada. Calou-se por um momento.
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Entre Os Ventos de Yellow Hill
Gizem / GerilimA jovem Cláudia se vê iniciando seu primeiro trabalho como investigadora na delegacia da cidade há pouco reconstruída de Yellow Hill. É quando recebe um caso aparentemente simples: a morte de uma mulher, Ericka, e de seu marido, Edward, durante o to...