Cláudia era forte e sempre tentara demonstrar essa força, mas quando se tratava dos pais não conseguia conter os sentimentos. Tudo ficava a flor da pele. Quando sentia que as pessoas que amava sofriam, sentia o mesmo sofrimento.
Uma coisa comum é a capacidade do ser humano de se pôr no lugar do outro quando vê que este passa por dificuldades. Só não se sente esse apreço quando já existe uma relação desgastada onde a verdade está escondida através do véu de intrigas. Porque tudo, supremamente, tem dois lados ou mais.
A policial sempre zelara pela verdade. Nada mais que isso. Sim, entendia bem o que as mentiras boas significavam, como o exemplo do Noel, o bom velhinho, que os pais foram praticantes. Quando se revela algo inesperado a alguém, independentemente de quem seja, a dor vem à tona, o que é mais que natural.
No início é difícil compreender o motivo da omissão e da própria mentira. Com o passar do tempo, a mente digere as mágoas e o ressentimento, tenta entender o real motivo para o ato de falsidade. O que mais tarde faz-se revelar a falsa verdade. Aquela que só quando duvida-se e põe-se o dedo poderá ver o que há dentro do vazio.
É uma verdade irreal criada para fazer que num determinado prazo se vivesse mais feliz, iludido. E nisso Cláudia também acreditava. "Não creia no que lhe dizem, mas sim no que não dizem, desde que não confie" . Sempre colocara tudo isso em prática na sua vida. E agora era hora de colocar dentro de sua profissão.
Os tiros continuavam e pareciam vir de perto. O que estava acontecendo com a tranquila Yellow Hill? Os pais dela nunca sequer haviam ouvido um som de bala saindo de uma arma. Portanto, correram em disparada para dentro do banheiro. Mark com mais dificuldade foi ajudado pela esposa.
— Protejam-se! —gritou a investigadora.
O casal estava de pé atrás da porta e a filha deitada no chão do cômodo.
— Corra filha! O mais rápido que puder. Entre com a gente aqui — grunhiu sua mãe enquanto tentava proteger-se.
Cláudia era responsável por parar aqueles tiros. Era a única policial até que alguém comunicasse a Central de Polícia. Porém, não estava com sua Glock e muito menos com seu colete. Usava um vestido preto simples que adorava. Tirou a sandália rasteira dos pés para facilitar a locomoção. Mesmo assim, voltou a abaixar-se e como medida de segurança engatinhou até a porta do quarto. Continuou até o fim do corredor onde levantou-se. Os batimentos em seu peito aceleraram já que a adrenalina que tanto gostava aparecia.
Ouvia Eliana gritar para que retornasse ao quarto, mas, obviamente, não iria. Seu dever era descer as escadas e descobrir de onde vinham aqueles tiros. Pensou no desespero dos pais da mesma maneira que desejou colocar tudo de si para conseguir achar a origem dos tiros.
Foi lentamente até o piso térreo, nenhuma bala parecia haver entrado na casa apesar do som ensurdecedor. Ouviu os latidos de Lubby. A cachorra latia para o nada. Quer dizer, latia para o som. Estava enlouquecida.
Cláudia demorou um pouco até decidir que poderia correr. Tinha que achar o tempo certo entre o intervalo dos tiros. Abriu a grande porta de entrada e olhou para fora. Pisou na grama e olhou para os lados atentamente. Os ouvidos mais ativos e sensíveis que a da própria cadela. Constou que o volume ali estava mais baixo. Portanto saiu e foi até os fundos da casa. Passou novamente pela sala e depois pela cozinha até abrir a porta de vidro.
Desejou ter em mãos sua arma. Na verdade, queria que aquilo não estivesse nem acontecendo. Quem estava atirando? E atirava contra o que?
Quando pôs os pés na varanda tornou a abaixar-se. Tinha certeza de que os tiros vinham de algum dos vizinhos. Não soube bem o que fazer. Ligar para Hugo pedindo reforços ou agir por si própria para parar mais rapidamente aqueles tiros? Entendia qual era a opção mais segura. Porém, ignorou-a.
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Entre Os Ventos de Yellow Hill
Mystery / ThrillerA jovem Cláudia se vê iniciando seu primeiro trabalho como investigadora na delegacia da cidade há pouco reconstruída de Yellow Hill. É quando recebe um caso aparentemente simples: a morte de uma mulher, Ericka, e de seu marido, Edward, durante o to...