a primeira troca de olhares
O final de semana logo chegou e com ele veio também os dias que eu mais odiava.
Parecia louco odiar sábados e domingos, sei que muitos discordariam.
Mas eu, de fato, odiava o que eles me traziam. Passar dois dias inteiros preso dentro de casa mesmo em seu silêncio provocava em mim meu maior grito de agonia.
Eu não gostava de não fazer nada pois minha mente era automaticamente guiada àquilo que jurei não remoer.
Já eram duas da tarde quando decidi por ocupar minha mente com aquilo que eu mais amava, meus melhores amigos.
Peguei meu celular e disquei uma mensagem para os dois, torcendo para que eles não estivessem dormindo.
Esperei por dez minutos e nenhuma resposta.
Talvez eles estivessem ocupados.
Há dois anos atrás, Chan e Jisung haviam se mudado para os Estados Unidos com o objetivo de estudar música.
Eu havia tentado também, queria ir junto, criar memórias inesquecíveis com as pessoas que amo.
Mas a verdade é que eu não havia conseguido.
Não havia passado na prova.
E menti, dizendo que estava tudo bem eles irem sem mim.
Bloqueei meu celular cansado de esperar por um sinal de vida.
Decidido a não ficar em casa, me vesti de qualquer forma e saí para dar uma volta no parque.
Era um pouco longe de casa, por isso coloquei os fones no meu ouvido e caminhei todo o caminho escutando as musicas que mais me distraiam e aqueciam.
Eu era de fato um amante da música, independente do gênero, letras bem escritas sempre me comoviam.
Cheguei no local depois de onze musicas e meia de caminhada, logo procurando minha parte favorita.
Tirei os fones e me concentrei em ouvir os sons naturais que o parque proporcionava. O cantar dos pássaros, o barulho das folhas sendo levadas pelo vento, a água do rio que calmamente seguia seu caminho.
Respirei fundo o ar fresco, me sentando na grama, bem embaixo da árvore que eu considerava ser a mais bonita.
Talvez eu fosse a única pessoa que a admirasse, a árvore, que já era bem velhinha, não possuía nenhuma folha, apenas alguns galhos e vários trincados em sua madeira.
Alguns poderiam acha-la feia, mas eu conseguia ver sua beleza.
Mesmo sendo a com menos vida, foi a que mais viveu.
Eu queria ser como ela.
Queria continuar vivo.
Queria continuar em pé, contando minha história silenciosamente para quem se interessasse.
Eu amava a natureza tanto quanto eu amava a música.
Ambas tinham a forma mais pura de se contar uma história, e eu era um ouvinte apaixonado.
Disposto a passar minha tarde naquele ambiente agradável, me encostei melhor na madeira e passei a observar as pessoas que passavam por ali.
Vi alguns casais passarem de mãos dadas, vi um senhor caminhando com seu cachorrinho, vi duas crianças correrem de um lado para o outro.
Vi diversas pessoas, indo e vindo.
Continuei varrendo meus olhos pelo local, vi uma senhora alimentando os passarinhos, vi um menininho cair e se levantar, vi um vendedor de algodão doce parar seu trajeto para apreciar o dia.
Observar pessoas também me encantava.
Eu achava surpreendente a forma na qual eu posso tentar imaginar toda a vida de uma pessoa e na realidade ser algo completamente oposto.
Aparências enganavam.
Permaneci observando de longe todas as pessoas que pisavam ali, tentando descobrir o motivo por trás do sorriso que elas carregavam.
Todos ali sorriam abertamente, como se aquele parque trouxesse à elas a melhor das memórias e eu as invejei por um momento.
Me levantei passando a mão em minha calça para limpa-la e decidi me aproximar mais do rio. Talvez a brisa leve do local mais baixo me fizesse bem.
Eu caminhava calmamente, sentindo a felicidade de todos por quem eu passava.
Meu passos foram ficando mais curtos até que eu parasse por completo, encantado com a vista.
Bem perto do rio, um garoto estava sentado em um pano escuro, focado em dedilhar seu violão com os olhos fechados, apenas apreciando a melodia.
E eu me encontrei ali, apreciando o garoto que tanto havia roubado meus pensamentos nos últimos dias.
Seo Changbin.
Eu não reconhecia a música, talvez fosse mais uma de suas composições.
Desejei chegar mais perto apenas para apreciar seu dedilhado como ele merecia, mas me contive em permanecer em uma distância aceitável, onde eu não parecia estar ali só para vê-lo.
Ao que a melodia chegava ao fim, meus pés automaticamente começaram a caminhar em ré, ainda de costas. Eu estava tão conectado com a cena que meu corpo se recusava a virar, meu rosto queria admira-lo mais.
Eu não soube quando minha admiração por ele havia se tornado tão grande.
Eu sequer gostava dele um tempo atrás.
Porquê eu sentia que estava conectado com ele de alguma forma?
Talvez o fato de ele saber minha história me tornava vulnerável perto dele.
Talvez eu quisesse conhecer sua história também.
Antes de me virar para finalmente deixar o parque para trás, vi seus olhos se abrindo lentamente, mirando em minha direção.
Nossos olhos se encontraram por alguns segundos antes que eu me afastasse o suficiente para que ele virasse apenas um borrão.
Não sei se ele havia me enxergado com totalidade, eu torcia para que não tivesse.
Eu com certeza o enxerguei.
Ali, tocando uma música tão calma no parque, com um rosto tão sereno, eu pude enxergar o verdadeiro Changbin.
Sem máscaras, apenas ele em seu maior momento de paz.
E desejei poder apreciar aquela cena mais centenas de vezes, sentindo meu coração se acalmar junto ao som acústico que o envolvia.
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unhappy | changlix
Fanfictieonde changbin estava acabado e felix passa a colocar cartas em seu armário na esperança de vê-lo sorrindo mais uma vez.
