CONTO 2 | Família Collins
"Cartas não servem apenas para se comunicar, também é uma forma de mostrar seu carinho e amor por uma pessoa, talvez ela esteja em um dia ruim, então você pode escrever uma carta para animar ela, e dizer que ela é important...
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Ella Sullivan
— Como está, Ella?
Olho para a mulher à minha frente, ela não deve ter mais do que 40 anos, seus cabelos loiros estão sempre presos em coques bem feitos, e as roupas são sempre discretas e elegantes. Todas as vezes que entro em sua sala ela faz essa mesma pergunta, e eu dou sempre a mesma resposta: estou bem, certa vez li em algum livro que essa é a mentira mais contada em todo o mundo.
A senhorita Campbell sabia que eu mentia todas as vezes, e eu sabia que eu não deveria mentir, porque essa resposta importa para que ela possa me ajudar a lidar com tudo o que se passa dentro de mim. Muitas vezes pensei em dar-lhe uma resposta diferente, porém, a verdade é que eu raramente sabia exatamente como estava me sentindo, não achava que estava mal, mas também não podia dizer que me sentia bem, só achava que estava em um meio termo — se é que existia — e sinceramente, eu estava acostumada a me sentir assim, como se estivesse anestesiada para a vida, e embora eu devesse dizer tudo isso para senhorita Campbell, eu não dizia, porque no fundo não achava que dizer faria com que tudo se tornasse diferente. No início eu só a encontrava porque meu pai achava que seria bom eu vir até a psicóloga da escola, fora isso não acho que teria começado a vir por minha própria vontade.
— Estou bem. — Respondo, e esta é a segunda vez que não minto para ela.
— Hum, isso é bom. — Ela sorri sabendo que estou dizendo a verdade, então se ajeita em sua cadeira. — O que tem feito ultimamente?
— Voltei a pintar. – Revelo, essa foi uma das poucas coisas que eu disse a ela que gostava de fazer em nosso primeiro encontro, apesar de que na ocasião eu já não usava um pincel há um bom tempo.
Telas brancas e tintas sempre foram minhas companheiras, o velho sótão da casa da minha avó está cheio com minhas pinturas, era para ele que eu corria quando sentia as velhas lembranças voltarem com tudo em minhas memórias. Não costumava usar cores em minhas telas, na maioria das vezes gostava de usar o preto, com alguns pontos específicos em vermelho, e o branco para detalhes, no fundo tudo que pintava era uma representação do que sinto no meu coração, se pudesse descrevê-lo com uma palavra, ela seria escuridão, como em um pesadelo que parece nunca ter fim. Na época eu não disse tudo isso para a senhorita Campbell, mas acho que as descrições de minhas telas foram o suficiente para ela.
Agora, pela primeira vez, estou pintando algo onde as cores aparecem por toda parte, em todas as tonalidades possíveis, e o preto acabou se tornando apenas detalhes. Observar Grace Collins em meio as flores me fizeram querer usar minhas tintas coloridas, até então esquecidas em uma caixa qualquer. Tem algo nela que exala alegria, um brilho diferente, não tenho certeza se conseguirei retratar isso, mas com toda certeza sempre irei lembrar dele ao olhar para o quadro.
— Bem, isso é ótimo. Pode me dizer o que está pintando?
— Uma mulher em meio às flores.
— Suponho que dessa vez tenha saído do habitual preto, branco e vermelho e esteja usando muitas cores diferentes, flores são bem coloridas, não é mesmo?