Capítulo 10

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Ella Sullivan

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Ella Sullivan

Caminho lentamente pelas ruas praticamente vazias, deve ser pouco mais de seis da manhã de um domingo. O sol já nasceu, mas as nuvens o encobrem a todo o momento, passando de um lado a outro. É verão, todavia, as temperaturas permanecem amenas como se a primavera ainda não tivesse chegado ao fim.

O vento sopra forte, então se aquieta, para segundos depois voltar com mais força ainda. Parei alguns segundos para prender meu cabelo em um coque, visto que ele não ficará no lugar com a ventania.

Não demoro a chegar no parque. Meu destino de todas as caminhadas no fim de semana. Nos fones em meus ouvidos uma música toca atrás da outra, todas se referindo a Deus, ao seu amor, a sua graça, a sua bondade, sua fidelidade, e tantos outros atributos. Hoje estou pulando as de melodias agitadas demais, e ouvindo as que são mais calmas e me permitem pensar.

Depois de me sentar em um banco de frente para o lago, tomo um longo gole de água na garrafinha que sempre anda comigo a tiracolo. Foco meu olhar na água ondulante logo a frente, os pássaros voam baixo, cantando a todas as alturas a chegada do verão.

Faz quase um ano que conheci Jesus, na verdade, que estou o conhecendo, tenho a consciência de que isso permanecerá a vida toda. Percorrendo em minha mente todo esse tempo que se passou, e com base na passagem bíblica que li ontem à noite, me dou conta de que vivemos a cura enquanto caminhamos com Ele.

Logo no início, eu estava feliz e surpresa em como os sentimentos em meu coração pareciam ter mudado, em como a dor havia se abrandado, e eu parecia mais enérgica em algumas semanas do que nos anos anteriores da minha vida. Isso tudo até as lembranças voltarem, e encherem a minha mente de mentiras, causando mais dor a uma ferida que eu achava já ter cicatrizado. Hoje eu sei, não doer não significa que você está curado, assim como doer não significa que você ficará ferido para sempre. A dor também faz parte do processo de cura.

Muitas passagens na bíblia falam sobre pessoas sendo curadas imediatamente por Jesus, e eu creio que isso aconteça, e já tive a oportunidade de ver acontecer. Mas também creio que quando se trata de nosso coração Jesus nos faz passar por um processo de cura, que de início não percebemos, mas em algum momento Ele abre nossos olhos para enxergarmos.

Ontem à noite li sobre Jairo, e continuo a refletir em sua breve história relatada.

Então chegou um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo, e, vendo-o, prostrou-se aos pés de Jesus e lhe pediu com insistência: — Minha filhinha está morrendo; venha impor as mãos sobre ela, para que seja salva e viva. Jesus foi com ele. Marcos 5:23-24.

Jesus poderia ter curado a filha de Jairo dali de onde estava, assim como fez com o servo do centurião em outra passagem, Ele poderia ter dispensado Jairo garantindo-lhe que a menina já estava curada. Mas Jesus foi com Jairo. Então comecei a pensar que Jairo também foi curado naquele dia, ele era um chefe da sinagoga, e talvez assim como muitos outros líderes religiosos ele não acreditasse que Jesus era o Messias. Mas ele também era um pai desesperado em busca de cura para a sua filha.

Jesus conhece nosso coração. Jesus conhecia o coração de Jairo. Fico pensando que enquanto caminhavam, Jesus se revelava a Jairo. E quando veio a notícia que sua filha estava morta, o coração dele já conhecia Cristo o suficiente para continuar a caminhada.

A nossa cura está na caminhada junto a Cristo, conhecendo-o e confiando Nele.

Parando para pensar, às vezes me sinto como Jairo, caminhando com Jesus e vendo-o operar sobre a vida das pessoas, o que me faz confiar mais ainda meu coração a Ele. Outras vezes me sinto como a mulher que tocou Jesus e foi curada, sinto que mesmo em meio a multidão Ele me vê, o amor dele me alcança, não importa onde eu esteja. E ainda, tem dias que me sinto como a filha de Jairo, sendo chamada por Cristo a levantar e viver.

Nem todos os dias são fáceis, nem todas as manhãs encontro palavras suficientes para minhas orações, às vezes, pela manhã, tudo que consigo dizer em um sussurro é: Pai, me dê força para viver este dia, e quando a noite chega, com lágrimas nos olhos posso sussurrar um agradecimento a Ele por ter me sustentado.

Eu pensava que Jesus não estava comigo nos momentos mais difíceis pelos quais passei, mas hoje percebo que ele nunca saiu do meu lado.

Ele é Emanuel. Deus conosco.

Termino de tomar a água de minha garrafa, por segundos fecho os olhos e me espreguiço, quando volto a abri-los sei que é hora de voltar para casa

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Termino de tomar a água de minha garrafa, por segundos fecho os olhos e me espreguiço, quando volto a abri-los sei que é hora de voltar para casa. Me levanto e ao me virar para tomar o caminho de volta, me deparo com uma pessoa vindo em minha direção. Não consigo evitar o sorriso em meus lábios. 

Nicolas Collins caminha todo sorridente, como sempre. Continua o mesmo de um ano atrás, adicionando apenas um novo corte de cabelo e a barba apontando em seu maxilar. Eu o vi na Páscoa, há uns três meses atrás, e o tenho visto com frequência em chamadas de vídeo. Mas vendo-o, percebo o quanto senti falta dele.  Desligo a música em meu celular e tiro os fones enquanto aguardo ele chegar até mim.

— Ella Sullivan. — Ele diz já de frente para mim, os braços levemente abertos, esperando um abraço.

— Nicolas Collins. — Me aproximo e o abraço. Hoje eu já sou capaz de fazer isso. — Quando você chegou? — Pergunto quando nos afastamos.

— Ontem à noite. — Ele diz e aponta para o banco em um convite para nos sentarmos. É o que fazemos.

— Nem me avisou.

— Era uma surpresa. — Ele pisca e sorri. E mais uma vez não posso evitar sorrir também.

Sentada aqui com Nicolas, enquanto conversamos, também me sinto agradecida a Deus pelas pessoas que ele trouxe a minha vida.

Agora eu sou amiga de Jesus. 

 

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