04. Elsa, ou A esquentadinha

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03/06

- Hoje é a missa do pai. A vovó quer que você vá dessa vez. - ela somente fingiu que não escutou a voz do irmão e fechou a porta atrás de si sem encara-lo.

Respirou fundo e apertou seu vestido nos braços antes de correr para o ponto de ônibus. As pessoas passavam como vultos ao seu redor, o tempo abafado logo pela manhã já anunciava um dia exaustivo.

Ana já estava cansada antes mesmo de chegar ao trabalho, não queria ter saído de sua cama aquela manhã, mas sabia que se ficasse em casa estaria remoendo todas as suas angustias sem parar. Ela tinha que tentar pelo menos, até porque já fazia três anos. A memória a atingiu em cheio.

Três anos. Seu pai se fora há três anos, mas parecia que não havia passado tanto tempo assim.

Naquele mesmo dia há 1.094 dias atrás ela sentiu uma das piores dores que o ser humano é capaz de suportar, recebeu a notícia de que não veria mais o rosto dele ao acordar ou que não escutaria mais a voz grave e carinhosa lhe desejando bom dia toda a manhã.
Passou por todos os dias que se seguiram em seu próprio luto, evitava ir a todas as missas e terços que sua avó organizava. Não queria ter que encarar todos os olhares de pena e ver a falsa tristeza de muitos que não ligavam para ele enquanto estava vivo.
Não queria ter que fingir que estava tudo bem agora, até porque não estava e ela tinha certeza de que nunca iria estar.

Assim que terminou seu último ano de ensino médio ela tirou um ano sabático a pedido dele e ingressou em alguns cursos que aliviavam sua mente.

Mas ele se foi e todo seu alívio o acompanhou.

A grana ficou curta e o salário de seu irmão não seria o suficiente para os dois, mesmo com a ajuda de sua avó.
Então ela conheceu o Conto de fadas e logo foi contratada como princesa, ficou aliviada por aquelas horas barulhentas distraírem sua mente.
Conheceu Diana e Camila que a incentivaram a voltar aos estudos.
Fez o Enem e conseguiu metade da bolsa em um curso de bacharelado em Letras Português na Santa Maria, sua atual faculdade. Seu irmão já estava em seu terceiro período de engenharia em outra universidade quando ela ingressou também no turno da noite.

Agora ela estava no segundo período e com Luna e Lucas como amigos. Ele o típico playboyzinho que voltou a estudar por pressão dos pais e ela a adolescente antirregras que havia acabado de sair do ensino médio.

Com seus vinte anos Ana se esforçava ao máximo para conseguir ter uma vida estável. Certo que ela e Rodrigo tinham o próprio apartamento e não precisavam pagar aluguel, mas o local de dois quartos, dois banheiros, uma sala/cozinha e uma varanda exigia muito dos dois que tinham que pagar uma faculdade, internet, água, luz e ainda tinham que se alimentar.
Ao fim do dia os dois já estavam mortos e tentavam recuperar as energias para outro dia.
E era isso que ela iria fazer quando chegasse em casa, mas no momento teria que abrir seu sorriso mais simpático e pegar novamente outra criança quase obesa nos braços.

- Você não está bem. - Camila afirmou assim que pegou a pequena bolinha, em forma de criança, dos seus braços. Ana respirou fundo e a olhou de forma que ela entendesse o recado "Não pergunte" e ela não perguntou, mas continuou a rodeá-la como se a qualquer momento ela fosse quebrar.

- Isso já tá chato e eu agradeceria muito se você parasse com isso. - pediu escutando a loira soltar um suspiro frustado e se afastar para outra mesa.

Era hora do chá na Contos de fadas e Ana agradecia por aquilo.
Só precisava ficar sentada em uma mesa com várias crianças e se distrair um pouco. Às vezes até aparecia alguma fofa e simpática e a fazia se esquecer daquelas que vomitavam em seu vestido ou puxavam seus cabelos, como estava acontecendo naquele momento.

- Você não pode fazer isso pequena. - falou com a voz mais gentil que conseguiu tentando tirar uma mão gorducha que puxava seus cachos.

- Parece molinha tia Tiana. - ela falou tentando puxar novamente, mas por sorte a possível madrasta dela veio pegá-la rapidamente e lhe lançou um sorriso constrangido de desculpas para o qual ela deu de ombros sem importância, já estava acostumada.

- E então, já encontrou alguma bad nanny? - Fábio chegou vestido de Olaf e sentou na pequena cadeira ao seu lado.

Bela combinação, Tiana e Olaf.

Pensou abrindo finalmente um sorriso sincero.

- Não, mas pelo visto aquele é o primeiro passeio dela com a enteada. - avisou apontando para a mulher que estava com a menina que puxara seu cabelo. Ela sussurrava com o dedo em riste em direção a criança que rolava os olhos entediada. - E eu acho que a Diana está quase entrando em outra discussão com a Rosa. - informou virando seu rosto para ver a amiga que já estava quase da cor de seu cabelo, possivelmente se segurando para não falar nada enquanto uma loira de olhos azuis quase cinzentos não parava de falar.

- Ariel versus Elsa. Quem será que estoura primeiro? - seu amigo perguntou animado se levantando junto com ela para ficarem alguns passos mais perto delas.

- Eu aposto na Elsa. - Camila rapidamente apareceu e se colocou ao lado de Ana.

- Eu acho que vai ser a Ariel. - Fábio falou tentando coçar o nariz que estava coberto por uma falsa cenoura.

- Aposto dez na Ariel. - Luís, que fazia o candelabro da Bela, chegou sussurrando baixo para o supervisor não escutar.

- Então eu aposto dez na Elsa. - Ana disse sorrindo junto com Camila que também entrou na aposta.

A notícia correu rápido e quando perceberam 200 reais já estavam em jogo.
Voltaram aos seus postos, mas sempre distraindo seu Fábio, que estava responsável por eles aquela tarde, para que ele não percebesse a conversa tensa que Diana travava com Rosa. A ruiva já estava em seu limite e só bastou uma frase sua para que a loira finalmente estourasse.

- Você é uma vaca egocêntrica.

- Oi? Repete Diana! - Rosa gritou chamando a atenção de todos no salão. - Você que anda por aí como se o mundo devesse se curvar aos seus pés, é você que não liga para os sentimentos dos outros.

- Do que você tá falando garota? - perguntou confusa, mas logo entendeu onde ela queria chegar. - Você tá com raiva pelo fato de eu ter ficado com a Carol?! Faça-me o favor Rosa, nem ela está mais irritada por a gente ter terminado. Então me dá licença que eu tenho mais o que fazer.

Assim que ela se distanciou Ana e Camila trocaram um sorriso cúmplice. Sabiam que Diana não ficaria irritada já que algum tempo atrás já fizera apostas parecidas com elas.

Mas Ana não conseguiu controlar o sorriso quando escutou uma criança de aproximadamente dez anos perguntar algo para a sua mãe.

- A Elsa e a Ariel são namoradas? - a mãe da criança respirou fundo e tentou mudar de assunto em vão. Ana se afastou pois percebeu que seria uma longa conversa.

 Ana se afastou pois percebeu que seria uma longa conversa

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Após pegar sua parte da aposta que foi dividida entre ela, Camila, Patrícia (que fazia a princesa Ana), Heitor (um dos príncipes) e Diana que reivindicou uma parte, ela pegou o ônibus para casa. Resolveu que não estava com cabeça para ir para a faculdade aquela noite e definitivamente não iria para a missa que sua avó marcou.

Ela só queria chegar em seu pequeno apartamento e ficar um tempo sozinha. Pelo menos por uma noite iria se entregar de cabeça nas lembranças.

(Des)encantadaOnde histórias criam vida. Descubra agora