四十三

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   Já do lado de fora d'O Galpão, cada um dos garotos segurava um sorvete de casquinha. Estavam em uma espécie de silêncio estranho desde que saíram de lá, e nenhum dos dois parecia fazer ideia de por onde começar.

   — Desde quando você sabe? — o baixinho foi o primeiro a perguntar.

   — Já fazem uns três meses — respondeu, sem hesitar. — Mas eu sabia o quanto você ficava nervoso quanto a dizer quem você era, por isso nunca te falei.

Estavam a andar na calçada. De um lado da rua podiam ver todas as luzes artificiais que a cidade emanava, do outro, uma infinidade de estrelas proporcionadas por uma noite sem lua.

   O de cabelos pretos suspira, olhando para o mais alto, ainda ocupado nos seus próprios pensamentos.

   — Sem falar que eu não sabia como chegar em você e dizer "ei, eu sei quem você é, podemos dar uns beijos agora?"

   Isso foi o suficiente pra fazer seu baixinho soltar uma risada de deboche, negando com a cabeça.

— Você não existe mesmo, Felix — conclui, se virando na direção do céu estrelado e se sentando no meio-fio da rua.

   — Existo sim, inclusive sou muito real e você pode testar se quiser.

   — Tipo te dando um socão?

   — Acho que um beijão seria melhor — deu uma piscada, recebendo um revirar de olhos em troca. — Ah, qual é, não fui tão ruim.

   — Não mesmo, mas não valhe um beijão — deu de ombros, tentando segurar seu sorriso. — Um selinho, no máximo.

— Não me ilude que eu me apaixono.

Ele riu novamente, parando de frente para o australiano e o olhando, olhos nos olhos. Um certo nervosismo fez seu estômago borbulhar, estava mesmo certo do que ia fazer?

Bem, Felix gostava de si de qualquer forma, então por que não?

O mais alto, por outro lado, se perguntava se não morreria de amores com o rostinho pensativo do coreano. Se inclinou um pouco pra baixo de brincadeira, mas na mesma hora o outro decidiu se colocar na ponta dos pés e eles acabaram trocando um selinho inocente, com lábios gelados por conta do sorvete.

Era sim só um selar, nada demais, mas certamente foi o suficiente pra alegrar o dia do australiano de uma forma imensurável.

   Depois do selinho, abraçou seu baixinho e dei um beijo em seus cabelos, que tinha um misto engraçado do cheiro de shampoo de bebê e cigarro.

   — Vai ser estranho se eu falar que te amo agora? — o mais alto pergunta.

   — Claro que não, seu bocó — responde, sorrindo contra o ombro do maior.

   — Eu te amo demais.

   — Eu também te amo.

@darkkingHistórias para pegar e não largar. Descubra agora