Novamente me encontro no meio da noite, rodeado de papéis e livros abertos, com um pijama antigo e desgastado, fazendo milhares de anotações, sei que deveria estar dormindo e descansando a cabeça, mas por algum motivo me considero muito mais produtivo durante a noite, é como se meu cérebro acordasse e quisesse descobrir todos os enigmas do mundo, entretanto isso sempre me causa dores de cabeça em algumas horas do dia, e duas grandes bolsas embaixo dos olhos, o que acaba por afastar as garotas e os garotos da universidade, que sempre me acham meio estranho, não os culpo, até eu me acho estranho.
Também é um fato pelo qual eu nunca consegui fazer amigos com facilidade, não era todo mundo que gostava ou se interessava pelas minhas conversas. Mas ele apareceu, foi como se todas as barreiras que eu criei durante esses anos, fossem destruídas uma a uma, chegou daquele jeito explosivo e enigmático, e causou uma bagunça maior, mas dessa vez foi uma confusão boa, antes minha mente não tinha espaço para tais sentimentos, contudo desde que eu o vi naquele auditório, ele tem aparecido de forma recorrente nos meus pensamentos.
Isso justifica minhas mãos suadas e meu corpo agitado, enquanto eu me dirigia para aquela biblioteca, também explica a demora maior na hora de me arrumar, e se todos os clichês românticos que eu li estiverem certos, eu estou começando a apresentar sinais de um personagem apaixonado pelo mocinho rebelde da história, e pensar nisso, me assusta um pouco.
- Bom dia senhora Rose - A cumprimentei como de costume, e ela estava sorridente.
- Ainda bem que chegou querido, seu amigo estava perguntando a cada cinco minutos que horas você chegaria - Disse.
- Eu devo ter me atrasado um pouco - Falei um pouco envergonhado, pois não tinha me dado conta do tempo, de novo.
Andei em passos apressados até a sessão em que eu encontraria o loiro, e como esperado ele estava lá, jogado no chão com seu característico cigarro em mãos, debruçado sobre um livro, o observei daquela maneira e não me lembro de sentir meu coração pulsar naquele ritmo alguma vez, passei alguns minutos estudando seus traços e pensando em como seu corpo junto aquele cenário caótico de livros daria uma bela pintura, entretanto, tudo se tornou ainda mais intenso quando fui descoberto lhe vigiando, seu olhar propositalmente cafajeste e carregado de uma inocência costumeira da sua aparência me fitou, como quem denuncia um crime e eu me senti nu naquele momento.
- Estava me espionando Doutor? - Indagou sarcástico.
- N-Não, eu só não queria atrapalhá-lo, parecia tão concentrado - Justifiquei, tentando maquiar meu nervosismo, mesmo sabendo que não adiantaria.
- Eu realmente estava, era uma parte muito quente da leitura, mas porque tanta demora, perdeu a hora de novo? - Indagou largando o livro.
- Quase isso, estou verdadeiramente tentando fazer esse projeto dar certo, e isso está me custando algumas noites de sono - Falei sentando ao seu lado.
- Não acha que está exigindo demais de você? Achei que alguém com sua inteligência saberia que o ser humano precisa de oito horas bem dormidas para se manter saudável - Disse novamente usando um tom sarcástico.
- Você também deveria saber que fumar tantos cigarros não é um hábito tão saudável assim, afinal de contas é droga, não é? - Questionei.
- Ah então o Doutor quer falar de drogas, quer começar por qual, cafeína, açúcar, álcool, produtos industrializados, remédios?
- Touché senhor Taylor - Proferi arrancando-lhe um sorriso adorável - Parecemos um casal de velhos discutindo - Completei.
- Meus dois extremos é de um jovem loucamente revoltado e um velho ranzinza.
- Me identifico com o velho ranzinza.
- Não conte mentiras Brian, o que faz além de ser um rapaz inteligente?
- Acho que não muito, eu gosto de tocar guitarra às vezes, mas faz um bom tempo que não faço isso.
- Oh, então por baixo dessa fama de nerd quietinho existe um astro do rock sexy.
- Acho que está me confundindo com os protagonistas desses livros que lê - Brinquei.
- Não, jamais faria isso, você é muito melhor que eles - Falou, fazendo meu rosto queimar, e posso jurar que estou novamente sorrindo bobo - Então...Quer almoçar comigo? - Perguntou após um tempo em silêncio.
- Adoraria - Respondi rápido - Onde?
- Na cantina perto da ala de medicina, tem algum problema? - Indagou, pela minha expressão de reprovação inevitável.
- É que, eles não têm cardápios vegetarianos, eu sempre almoço em uma aqui perto, mas se você quiser eu compro lá e levo para almoçar com você.
- Podemos comer nessa que você disse, na verdade eu nem sabia que eles tinham cantinas assim por aqui - Falou levantando-se empolgado, me surpreendendo pois achei que ele me chamaria de fresco ou esquisito como todos faziam.
Fomos até a cantina que em contraste com as demais que tem por aqui, estava quase vazia e tranquila, gostava muito de comer aqui, porque além da tranquilidade e da ausência de barulho, ficava próximo a área verde da universidade, ou seja era aberta e cercada por plantas das mais variadas, Roger assim que entrou comentou sobre achar o lugar lindo, seus olhinhos azuis brilhavam olhando para o ambiente.
- Parece que você conhece os melhores lugares desta universidade - Disse.
- Na verdade, conheço todos os lugares que todos detestam aqui.
- Se escondendo ou é só um gosto peculiar? - Questionou.
- Um pouco dos dois, não tenho muitos amigos que compartilhem das minhas paixões.
- Grande desperdício, é um ser humano interessante, senhor May.
- Sei que gosta de me chamar assim, mas me sinto 40 anos mais velho - Confessei sorrindo.
- Está bem - Falou parecendo pensar um pouco - A partir de hoje te chamarei de Bri.
- Também gosto de "Doutor May" - Admiti.
- Eu também, tem uma sonoridade meio sensual, não acha? Doutor May - Repetiu usando uma voz arrastada e mais fina que o de costume, me fazendo engolir seco a comida, aquilo mexeu um pouco comigo.
- Está gostando da comida? - Perguntei mudando drasticamente de assunto.
- Sim, é de fato deliciosa - Sorriu docilmente.
Passamos o resto do almoço conversando sobre assuntos aleatórios, em nossa própria bolha, as pessoas ao redor passavam despercebidas, pois tudo que eu conseguia ver era o loiro a minha frente, seu cabelo brilhava como ouro na presença do sol, e seus olhos reluziam na luz, os deixando ainda mais azuis, e o nervosismo de mais cedo retornou ainda mais avassalador, porque eu tinha acabado de lembrar, que essa noite eu estaria junto a ele novamente.
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science and ci̾garettes
RomanceBrian May era um típico estudante de astrologia, muito focado e determinado, mas sua vida acaba virando de cabeça para baixo quando ele conhece o dono dos olhos azuis mais bonitos da sua universidade.
