Intervenção

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- Eu não...Roger não é o que parece - Disse abaixando o olhar.

Ele estava vermelho e nervoso, Brian é péssimo em disfarçar expressões, e sei que ele não queria  falar sobre isso, mas essa era uma conversa que não poderia mais ser adiada, e agora que eu sei o motivo do seu comportamento estranho, não posso fingir que está tudo bem.

- Ah não? Então o que é? Não tem outro motivo pra isso estar com você.

Ele permaneceu em silêncio, e seus dedos brincavam com a comida, respirei fundo dando um tempo para ele se pronunciar, contudo ele continuou da mesma forma.

- Eu quero a verdade Brian, o que faz com isso? Você não é assim.

- Não entenderia se eu dissesse - Falou baixinho.

- Mas eu quero entender, tente explicar, prometo que não vou te julgar, eu só preciso saber o que está acontecendo com você - Ele voltou a me encarar e eu pude ver seus olhos marejados, e aquilo partiu meu coração, não imaginei vê-lo naquele estado.

- Não estou bem Roger - Falou após alguns minutos, seu rosto já  tinha algumas gotículas de água e eu estava tentando permanecer sério - Já faz um tempo que me sinto assim, eu poderia dizer coisas como "Não vi saída" ou "Não tive escolha" Mas não seria verdade, eu sabia desde o começo o que estava fazendo, eu precisava disso, entende?

- Bri, por que exige tanto de si mesmo? Isso só vai te fazer se sentir mal, tudo bem que é importante nos esforçarmos, principalmente quando estamos na universidade, construindo nossos nomes e carreira, mas isso não é tudo, sua vida não vai se resumir a sua profissão, você não vai ser só o Doutor Brian May, isso é a pontinha do iceberg das suas qualidades, sua vida e principalmente sua saúde são superiores a qualquer título, essa nota não define seu conhecimento muito menos sua capacidade intelectual, é só um teste e não é nem pra universidade te avaliar é pra você mesmo se avaliar, testar até onde você sabe ou o que deixou passar e consequentemente melhorar no próximo, os sistemas de avaliação são puramente seletivos mas na prática o que importa não é o que está no papel e sim nesse seu cérebro incrível, é mais inteligente do que pensa Brian, eu nunca conheci alguém com seu conhecimento, entende agora o porquê não vale a pena se sacrificar?

- Eu nunca pensei nessas coisas antes, achei que estava fazendo certo esse tempo todo, só queria me destacar de alguma maneira, já que eu não era o popular bonitão, pelo menos eu seria bom em algo, e também estudar costumava ser divertido antes, mas eu reconheço que as vezes ultrapasso os limites, eu não consigo controlar Roger.

- Talvez essa seja a hora de trabalhar nisso, e esquecer esse lance de precisar ser  alguém pra ser  importante, você já é - Ele sorriu minimamente com minha fala e aquilo foi o suficiente para meu coração aquecer.

- Você sempre sabe o que dizer.
Eu me sinto um pouco perdido, por onde eu começo? Me sinto ignorante nesses assuntos.

- Bom, um primeiro passo de extrema importância é pensar em você primeiro antes de qualquer coisa, saber reconhecer seus limites.

- É um ótima sugestão - Proferiu agora mais calmo.

- Brian - O chamei pegando sua mão livre, passei a fazer um carinho discreto - Quero que seja honesto comigo a partir de agora - Ele assentiu com a cabeça - Há quanto tempo não dorme? - Seu olhar demostrava desconforto com a pergunta.

- Mais de uma semana - Suspirei surpreso pela sua resposta e permaneci segurando sua palma.

- Quantos comprimidos tomou? - Ele engoliu seco e percebi que sua resposta não seria das melhores.

- Muitos, eu realmente não sei dizer, mas foram muitos - Confessou.

- Não sabe a sorte que tem de ainda estar vivo, Bri esse remédio é extremamente forte, isso poderia ter te prejudicado muito, andou comendo? - Questionei, ele apenas negou envergonhado.

- Meu estômago dói - Proferiu, levando a mão a barriga - Arde e lateja.

- Pode ser um início de gastrite, precisamos ir na enfermaria.

- Mas...- Ele olhou diretamente para os livros.

- Sem mas Brian, lembra do que acabei de falar, saúde em primeiro lugar, essa não será a última prova da sua vida.

- Está bem, mas estou um trapo, não posso sair assim - Disse se referindo as suas vestes e cabelo.

- Eu te ajudo a se arrumar, mas antes termine comer - Ordenei.

- Roggie - Pronunciou manhoso me olhando com súplica.

- Nem venha com chantagem emocional Brian May você vai comer tudo, sozinho - Completei, ele suspirou derrotado e voltou a comer.

O encarei enquanto ele tentava comer, ele fazia expressões de desgosto, realmente sua saúde não devia estar das melhores, eu deveria ter intervido antes, as vezes ser intrometido é saudável, pelo menos nessas questões, Brian por mais que transpareça o contrário com sua máscara de maturidade, é frágil, e eu só consigo pensar no quanto eu gostaria de tê-lo conhecido antes, imagino ele esse tempo todo sozinho, sem amigos por perto, passando por todas as confusões mentais e tendo que lidar com suas angústias, é uma estrada difícil quando não tem ninguém para acompanhar.

Decidi esquecer das minhas neuras de invadir seu espaço, e me posicionei atrás do mesmo, e lhe abracei envolvendo seu corpo grande, em um abraço de urso, ele se assustou pela minha ação repentina mas não me afastou, passei a afagar seus cachos bagunçados e ele relaxou.

- Rog - Me chamou e eu o olhei agora bem próximo do seu rosto - Obrigado - Disse tímido e eu sem conseguir resistir avancei em seus lábios, que havia se tornado meu novo vício.

- Você me deixou muito preocupado mocinho - Sussurrei ainda agarrado ao seu pescoço.

- Desculpe, fui irresponsável, não entendo como ainda tem tanta paciência comigo.

- Bri eu terei que escrever na minha testa para você entender que eu gosto de você - Brinquei -  Não me faça trazer os alunos de música para fazer um serenata de amor na porta do seu quarto.

- Você é o Roger Taylor mesmo? - Debochou.

- Ideia do Freddie  - Ele abriu seu grande sorriso, me transmitindo paz , pois aquele era o Brian que eu conhecia - Está se sentindo melhor?

Ele afirmou com a cabeça e eu depositei um selinho em sua bochecha, e voltei a me agarrar no seu corpo.

- Você não está sozinho, Bri.

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