acertos de contas

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Olhando pela janela de vidro temperado do edifício onde trabalho, o mundo lá fora parece pequeno, insignificante. Minha mente, no entanto, está muito longe dos negócios. Lembro da noite passada, a forma como encontrei Savannah dormindo abraçada com meu travesseiro quando retornei do banheiro. O cheiro dela impregnado no linho. Logo eu substituí o travesseiro, e seus braços macios me envolveram na mesma hora. Sua respiração quente e suave roçando no meu pescoço, seus cabelos sedosos espalhados como um véu, roçando minha pele.
Eu, que há muito tempo fugia desse tipo de aconchego, que construí muros de gelo ao redor do meu coração, agora começo a depender disso, e a gostar. E como eu gosto de ter essa pequena mulher nos meus braços, gosto de ter sua companhia constante, de ver seu sorriso terno e genuíno quando chego em casa. Gosto de ver seu olhar, que eu sei que é amoroso. Sim, amoroso. Eu sei que ela me ama e isso só ficou comprovado ontem, quando ela sussurrou que me amava enquanto dormia, o som mais puro e inebriante que já ouvi. Contrariando toda a minha lógica fria, eu gostei de ouvir isso. Gostei de saber que alguém tão imaculado, tão puro, como ela sente algo bom por mim. Por um homem quebrado como eu.
O toque insistente do telefone de mesa me desperta das minhas divagações. Atravesso a sala espaçosa e vou atender.
- Senhor Montesino, tem uma moça aqui querendo falar com o senhor. a voz de Maria, minha secretária, soa pelo interfone.
- Marque uma hora para amanhã, Maria. Estou ocupado no momento.

- Ela tem urgência, senhor.

Suspiro, esfregando a têmpora.

- Como se chama?

- Candela.

O nome caiu sobre mim como um baldinho de água gelada. Toda a alegria que banhava minha alma ao recordar da minha pequena Savannah se transformou em um ódio visceral, negro e sufocante. O ser mais desprezível estava ali, do outro lado da porta.

- Senhor...? Maria hesitou.

- Mande ela entrar.

Me sentei na minha poltrona de couro confortável, recostei o braço na enorme mesa de mogno e respirei fundo, tentando manter a compostura. Esperei a chegada dela. Minutos depois, duas batidas secas puderam ser ouvidas na porta pesada.

- Entre.

Em questão de segundos, a silhueta de Candela atravessou meu campo de visão. Ela trajava um vestido vermelho de seda com fendas que alcançavam a metade de sua coxa torneada. Scarpins de agulha, uma bolsa Louis Vuitton na mão e um anel de rubi pesado no dedo anelar. Ela era o que podíamos chamar de uma mulher sedutora, uma predadora. Mas agora, quando comparo ela com a minha doce Savannah, a tacharia de exagerada, quase vulgar.
- Andrew...
Aquela voz, que um dia eu achei encantadora, agora perfurava meus tímpanos. Se antes eu a considerei viciante ,agora sentia nojo ela se tornara extremamente enjoativa. Eu não me levantei da cadeira e nem mandei ela sentar. Queria deixar muito claro, com minha postura e silêncio, que ela não era bem-vinda ali.

- Se me permite, irei sentar. Diz Candela, sem esperar permissão.

E assim ela fez, tendo o cuidado de cruzar as pernas e revelar sua coxa torneada através da fenda do vestido. O silêncio durou por um longo momento. Neste intervalo, eu a examinei minuciosamente, buscando qualquer traço da mulher que eu achei amar no passado, e creio que ela fez o mesmo comigo. Então, ela se inclinou para a frente, seus olhos azuis faiscantes me fitando, e pude notar uma pequena lágrima escorregando por sua pele perfeitamente maquiada. Uma lágrima falsa.
- Andrew, você deve estar se perguntando o que venho fazer aqui. Sei que você me odeia, e com todos os motivos do mundo. Mas eu preciso de você.
Minha risada seca e cruel ecoou pela sala inteira. Quando me recompus, mirei-a com ódio, deixando o nojo transparecer em cada célula do meu corpo.
- Precisa de mim? Essa é boa, Candela. Me admiro com sua cara de pau de vir aqui e me pedir ajuda. A única ajuda que poderei te dar é te mandar para o inferno antecipadamente.

- Eu me arrependi de ter te trocado por Enrico! Ela diz, a voz embargada em uma atuação digna de Oscar. Ele é um imbecil, um abutre. Eu sempre te amei, Andrew. Quando estou com o seu irmão, é em você que estou pensando.
- Claro que você se arrependeu
rebati , o tom frio e calculista. - Você achou que Enrico seria o presidente da empresa, o herdeiro máximo, mas não. Eu reivindiquei tudo para mim. E Enrico terá que se contentar com uma pequena pensão dada por mim, um troco de esmola. Você gosta de dinheiro, de luxo, Candela. E Enrico não tem isso para te dar. E agora, quando a torneira secou, você vem atrás de mim.
Ela ficou calada, fitando o chão, derrotada pela minha verdade absoluta. Quando eu pensei que ela se levantaria e iria embora, ela apenas levanta a cabeça tão altiva como sempre e diz:
- Estamos passando por dificuldades financeiras. A pensão que você dá não é suficiente. Enrico contraiu umas dívidas terríveis com jogos de azar e meus cartões de crédito estão todos bloqueados, meus vestidos estão velhos. Tivemos que despedir metade dos empregados por não podermos pagá-los.
- E o que eu tenho a ver com tudo isso? perguntei, desinteressado.
- Preciso de um empréstimo, Andrew. Prometo que te pagarei até o último centavo. Sou uma mulher muito generosa, sei bem como recompensar quem me ajuda.
Ela disse essa última parte com um sorriso insinuante, mordendo o lábio inferior, a malícia estampada em seu rosto. Se ela soubesse como senti nojo dela neste instante, me pergunto como um dia eu pude amar uma mulher tão vazia e interesseira como essa.
- Um empréstimo? De onde você irá tirar dinheiro para me pagar, Candela? Você não acha que lhe darei alguma coisa de graça, não é?
- Lembra Andrew, que Enrico tem trinta e três por cento das ações da empresa? Isso é uma garantia de que iremos pagar, não?
Sim,eu me lembrava disso perfeitamente. Por muitas vezes eu tinha insistido para que ele me vendesse essas ações, mas ele nunca quis. Essa era a minha chance de ouro, a chance de ter o controle total, absoluto, da empresa, já que eu detinha a maioria das ações, graças à Dríka, que me vendeu a parte dela no passado.
- E Enrico aceita que coloque as ações dele como garantia?
- Ele faz tudo que eu quero. Se eu pedir para ele assinar qualquer documento, ele assina sem nem ler. Eu conseguirei a assinatura dele.
Um plano brilhante, frio e devastador atravessou minha mente. Aqui, diante de mim, estava a peça fundamental e o motivo da minha vingança. A oportunidade perfeita.
- Sabe Candela , você é uma mulher inteligente . comecei, baixando o tom para um sussurro conspiratório.
Enrico tem apenas uma terça parte desse patrimônio, enquanto eu detenho a maioria. Não seria muito mais lucrativo para você ter o dinheiro em mãos, em vez de ficar com ações que Enrico não vai conseguir monetizar?
- Há um tempo eu venho dizendo isso ao Enrico, só que ele não me escuta. Ele é orgulhoso.
- Eu posso resolver isso. É só você me vender as ações do meu irmão. Quando ele tiver o dinheiro na conta, ele ficará grato a você.
Ela pareceu pensar, as engrenagens em sua cabeça processando a ganância. Aproveitei o momento para tentar persuadi-la.
- Você é uma mulher bonita, jovem. Não pode ficar assim, passando necessidade, usando as mesmas roupas da temporada passada. Você merece as melhores joias, os melhores perfumes, as roupas de grife. E a venda dessas ações garantirá tudo isso. Garantirá o seu império.
- E quanto você me pagará por elas? Ela pergunta, os olhos brilhando com cobiça.
- Milhões, Candela. Milhões que vão garantir que você nunca mais precise se preocupar.

- Eu aceito o trato.

- Ótimo. Eu farei a papelada da venda. E você fará com que seu marido assine.

- Essa parte é fácil para mim.

- Volte aqui amanhã. Traga a assinatura.

Ela se levantou, ajeitando o vestido, e me estendeu a mão. Eu a peguei e beijei avidamente, mantendo a máscara de um pretendente interessado, quando na verdade eu sentia que estava tocando em algo repugnante.

- Até mais, Andrew.

- Até, querida.

E assim que ela saiu de minhas vistas, fechando a porta pesada atrás de si, eu deixei meu corpo cair na poltrona. A angústia me invadiu, a culpa pesando sobre meu peito. Eu realmente havia me tornado um verme. Eu estava usando a ganância de uma mulher para destruir meu próprio irmão.
Mas a imagem de Savannah, segura, feliz e apaixonada, voltou à minha mente, e eu fechei os olhos. Eu faria qualquer coisa, mesmo que me tornasse o vilão da história, para que ela não precisasse mais sofrer.

UM ANO Para Te amar Histórias para pegar e não largar. Descubra agora