Uma proposta de casamento nada convencional

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Definitivamente não faço a menor ideia de onde estava  com a cabeça quando aceitei vir para o apartamento desse homem que até ontem era um completo estranho. Ele estaciona o carro na garagem privativa, o espaço amplo e iluminado cheio de veículos de valor inimaginável, e seguimos para o elevador que sobe devagar até parar exatamente no décimo andar. Assim que cruzo a porta de entrada, fico parada ali, boquiaberta: é a própria definição de luxo, cada detalhe pensado com esmero, uma decoração elegante, de tons sóbrios e materiais nobres ,  um pouco impessoal, sim, como se ninguém realmente vivesse ali, mas ainda assim absolutamente deslumbrante.

Estava tão distraída admirando tudo ao meu redor que acabo pisando mal no tapete de pelúcia e só não esborracho no chão de mármore porque braços fortes e firmes me seguram no exato instante em que eu ia cair.

— Mais cuidado aí, ou em vez de ficar com essa bota que parece até confortável, você vai ter que passar meses de muletas diz ele, com aquele tom de voz grave e suave ao mesmo tempo.

— Obrigada… eu… hum…  gaguejo, sem saber o que dizer.

— Disponha, Savanna. E de agora em diante pode me chamar simplesmente de Andrew.

Segui ele até uma cozinha imensa, tão suntuosa quanto o resto da casa. Ele deixa o paletó de lado, pendurando-o num cabide, e arregaça as mangas da camisa social até o cotovelo. E eu me xingo mentalmente mil vezes por ficar ali parada, admirando o quanto seus braços são definidos, fortes e perfeitos.

— Sente-se aí no balcão . aponta para a bancada de mármore escuro.  vou preparar algo para comermos e nosso café.

— Você sabe cozinhar mesmo?  indago, surpresa.

Um sorriso de lado se abre devagar nos seus lábios carnudos, um sorriso que deixa um brilho diferente nos seus olhos azuis.

— Eu me viro bem

Enquanto ele se move com naturalidade entre os armários e o fogão, eu fico ali sentada, observando, e me perco pensando em tudo o que aconteceu apenas nas últimas horas. Uma noite normal que virou pesadelo, que virou salvação, que virou essa situação completamente sem explicação. Depois disso tudo vou precisar de anos de terapia, tenho certeza absoluta.

Pouco tempo depois ele traz tudo até a mesinha de centro da sala de estar; o café fumegante com um aroma tão gostoso que já me acalma só de sentir o cheiro e uma omelete bem feita com Bacon.

— Venha, coma antes que esfrie.

Sento-me à sua frente e provo tudo devagar. É simples, mas está absolutamente delicioso.

— Está muito bom mesmo  ,digo sinceramente.

— Obrigado !  responde ele, e percebo que um pouco da sua postura rígida já se foi.

Assim que terminamos de comer, vamos nos acomodar no grande sofá de couro. Ele se senta bem ao meu lado, e a sua proximidade é tão intensa que me faz arrepiar da cabeça aos pés. Respiro fundo, tomo coragem e pergunto o que martelava na minha cabeça desde o hospital:

— Agora me diz por favor: por que você disse para a sua irmã que eu sou sua noiva?

Ele me encara por alguns segundos, parecendo avaliar como começar a falar, e depois diz direto e sem enrolação:

— Olha, Savanna, vou ser totalmente honesto e direto com você. Preciso urgentemente de uma noiva por um prazo de exatamente um ano. E quero muito que essa pessoa seja você.

— Você com certeza perdeu o juízo!  solto de uma vez, assustada.  Eu não te conheço direito, mal sei a sua história, quem é você de verdade… como pode pedir uma coisa dessas?

— Pensa bem querida  ele insiste, a voz calma mas firme.  Você terá tudo o que qualquer mulher um dia sonhou em ter: um marido bonito, rico, que vai te dar absolutamente tudo o que desejar. Dinheiro quanto precisar, roupas de grife, sapatos das melhores marcas, viagens para onde você quiser ir. E quando esse ano acabar, eu deposito na sua conta quinhentos mil reais, te dou um apartamento completamente mobiliado na melhor parte da cidade e um carro zero quilômetro. Você vai ter a vida inteira que até hoje só conseguiu imaginar.

— Eu não preciso de nada disso  respondo, firme.  Se eu consegui sobreviver até hoje com quase nada, com certeza consigo continuar assim sem a sua ajuda.

— Não é nenhum sacrifício aceitar casar com um homem como eu , ele diz, e ali volta o ar de quem acha que tudo se resolve com dinheiro. Na verdade, para alguém que vive como você, até seria um grande privilégio.

— Olha aqui, seu imbecil!  me levanto de um salto, furiosa. Você se acha a última bolacha do pacote, não é? A única coisa que faz você parecer diferente de mim é o seu maldito dinheiro. Por dentro você não é podre.

Dito isso, começo a caminhar mancando em direção à porta, arrastando a perna machucada com toda a força que ainda me resta.

— Deixa pelo menos eu te levar em casa , pede Andrew, levantando-se também.

— Obrigada, mas eu pego um táxi  corto, sem olhar para trás.

E assim que consigo sair daquele prédio enorme, pego o primeiro carro que passa e fujo dali tão rápido quanto Lúcifer foge da cruz.

Assim que abro a porta do meu pequeno apartamento, Nanda me espera parada na sala, com os braços cruzados e uma expressão de pura fúria e preocupação.

— Onde você estava até agora? Eu já estava mesmo indo registrar ocorrência na delegacia! E a sua perna… o que foi que aconteceu? Que história é essa de bota ortopédica?

— Uma pergunta de cada vez, Nanda, por favor — peço, cansada demais para tudo aquilo.

— Então comece logo a explicar!

Eu não podia dizer a verdade para ela. Não podia contar que quase fui vítima de violência, nem que um desconhecido rico acabara de me propor casamento por um ano em troca de uma vida nova. Ela nunca iria entender, e só ia se desesperar ainda mais.

— Bem… eu comecei a me sentir muito mal na balada, com uma tontura horrível, então resolvi vir embora sozinha. Peguei um táxi e vim direto para cá  minto, baixinho.

— E a perna? E essa bota?

— Acabei escorregando no chão do banheiro da boate antes de sair, torci o pé.

— Mas por que voltou só agora? E de onde você arrumou dinheiro para pagar uma clínica e isso tudo?

— Chega de perguntas, por favor ,imploro.  Só quero ficar sozinha um pouco.

— Mas por que esse segredo todo?

— Me deixa sozinha, por favor — repito, já com a voz embargada.

— Tudo bem… mas depois você vai ter que me contar tudo até o fim,

Nanda me abraçou e foi embora e eu me deixei cair sobre o sofá e tudo que eu pensava era naquele estranho de olhos azuis e naquela sua proposta de casamento nada convencional.

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