Apaixonado?

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No dia seguinte, tal como eu imaginava, Candela apareceu na empresa. Ela vinha radiante, quase saltitante, trajando um bodysuit preto cavado que deixava pouco para a imaginação e uma calça jeans flare que valorizava o quadril e as coxas torneadas. Ela cheirava a uma mistura pesada de perfumes importados e vaidade.
— Andrew...  ela cumprimenta, a voz arrastada e sedosa.
— Sente-se. ordeno, sem levantar os olhos da minha tela.
Ela se senta à minha frente, cruzando as pernas, e me fita com aquele olhar sensual, faminto, ao qual eu me esquivo no mesmo instante. A repulsa que sinto hoje é muito maior do que a que senti ontem.
— Então... a papelada está pronta?  indaga , batucando as unhas na mesa.
— Com toda a certeza. Sou eficiente em tudo que faço. Não deixo nada pela metade.
— Não duvido, Andrew. Você sempre foi o melhor.
Entrego para ela toda a papelada necessária para a venda. O contrato estava enganosamente simples, mas com cláusulas devoradoras que destruiriam Enrico sem que ele percebesse. Só faltava a assinatura dele para que a empresa fosse definitivamente minha. Minha vingança, materializada em papel.
— Só falta a assinatura de Enrico para a nossa transação dar certo .informo, o tom frio e impessoal.
— E o meu dinheiro?  ela pergunta, os olhos brilhando com a cobiça.
— Só depois que você conseguir que ele assine todos os papéis. E só um aviso,  não deixe que ele leia ou analise os documentos. Ele tem a mania de ler tudo. Se ele ler, está tudo acabado.
— Pode deixar comigo, querido. Eu tenho meus truques.
— Se você quiser, depois de tudo isso, eu posso te ajudar a investir o dinheiro na bolsa de valores. E eu te garanto, com meu nome por trás, que triplicarei esse valor em poucos meses.
— Triplicar?  Ela arregala os olhos, incrédula.

— Triplicar.

Me levanto da mesa, alisando o terno. Ela me segue com aqueles seus passos de leoa pronta para dar o bote, o cheiro dela invadindo meu espaço.

— Bom, estou indo almoçar em casa  indago, pegando as chaves do carro.

— É uma pena. Eu estava pensando em te chamar para sair, para um almoço.  indaga Candela, se aproximando.

— Não é bom. Ninguém pode nos ver juntos antes de completar a venda. Mantenha a discrição.
— Claro. Fica para a próxima, então.
Estendi a mão em despedida. Ela a pegou e a prendeu entre as suas, beijando repetidas vezes as pontas dos meus dedos. Eu, num impulso macabro para selar o acordo, passei meu braço livre na sua cintura e a puxei para mim. Logo, meus lábios estavam sobre os seus num beijo feroz, seco e sem sentimento algum. Era uma transação de carne.
Assim que ela saiu saltitante da minha sala, fechando a porta atrás de si, eu me deixei cair sentado sobre o sofá em forma de L que havia na minha sala. Senti na minha boca o gosto de Candela. Se outrora eu havia achado o gosto dela bom, intoxicante, agora ele estava amargo. Muito amargo. O gosto da podridão. Não tive coragem de voltar para casa naquele instante. A culpa me consumia a alma, roendo minhas vísceras. Então, fiquei até tarde na empresa, preso no vazio e no silêncio do meu escritório.
Quando abri a porta do meu apartamento, antes mesmo de vê-los, ouvi vozes femininas animadas. "Mais essa para mim aturar", pensei, esfregando os olhos cansados. Na sala de visitas estava minha mãe, Dríka, e Savannah sentadas no enorme tapete, com um balde de pipocas, refrigerante e salgados espalhados. A TV ligada no último volume, com alguma comédia romântica. Assim que me viu, Savannah se levantou do chão e veio até mim, um sorriso largo e genuíno no rosto. A luz dos meus olhos.
— Oi, amor. Como você demorou hoje? Achei que viesse almoçar comigo.
— Não deu, estava muito ocupado hoje. — Minha voz saiu mais rouca do que o normal.
— Nossa, você deve estar tão cansado. Espero que não se importe, sua mãe e sua irmã vieram me ver e estamos assistindo a um filme. Você está convidado para assistir conosco.

— Agora não, vou tomar um banho.
Depois de abraçar minha mãe e minha irmã com força, acabei indo direto para o banheiro onde  um banho morno me aguardava. Escovei bastante os dentes, quase rasgando a gengiva, como se isso fosse apagar o que eu fiz, lavei meu rosto várias vezes e  vesti uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta lisa . Me dirigi à cozinha, precisava comer alguma coisa, desde cedo que eu não engolia nada sólido. Assim que cheguei à cozinha, um cheiro bom de omelete com queijo derretido infiltrou minhas narinas, acalmando meu estômago. Me sentei à mesa e me pus a observar Savannah, que se movia graciosamente pela cozinha, servindo o prato. Ainda não conseguia acreditar que pouco tempo que ela veio viver comigo foi o suficiente para que eu me sinta como se ela sempre tivesse aqui. Como se a casa estivesse viva.
Ela se virou bruscamente e, ao me ver sentado no escuro, soltou um gritinho, levando a mão ao peito.
— Seu maluco, quase morro de susto! — ela ri, a mão no coração.
Sorri. Adorava vê-la bravinha, adorava ouvir esse riso.

— Cadê minha mãe e minha irmã?  pergunto.

— Foram embora. Elas queriam nos dar privacidade. Estão muito felizes por nós.

Ela me serve o omelete fumegante e um copo de suco de laranja natural. Eu devoro avidamente, a fome se manifestando de forma violenta.

— Você não vai comer?  indago, limpando a boca com o guardanapo.

— Não, estou cheia. Comi pipocas, refrigerantes e doces o dia todo. Dona Margarida, Dríka e eu passamos a tarde comendo e assistindo a romance "água com açúcar".

— Mulheres...  murmuro, tomando um gole do suco.

— Ah, por falar nisso, sua família virá amanhã passar o dia conosco. A sogra pediu para avisar.

— Você está brincando?  A fúria do dia anterior volta a borbulhar.

— Pior que não. Ela já comprou os ingredientes  para fazer o almoço de domingo.
Depois que terminei de comer, fui para a sala com um copo de whisky. Liguei a TV num filme qualquer, sem prestar atenção na tela, e fiquei ali bebericando meu whisky, que arranhava minha garganta seca.
— Andrew, você precisa de mim para alguma coisa? Se não, vou dormir  indaga Savannah, a voz suave quebrando o silêncio.
Me viro para a minha esposa. Ela está trajando um vestido florado simples, seus lindos cabelos negros estão soltos, caindo sobre os ombros. Seus pés pequenos e delicados descalços, caminhando em silêncio. Ao comparar ela com Candela, a revelação atinge meu peito como um soco, percebo como Savannah supera Candela em tudo. Em caráter, em pureza, em beleza. Sim, beleza. Eu aprendi a apreciar essa beleza suave, meiga, que não grita por atenção.
— Por que está me olhando assim?  indaga Savannah, passando a mão no cabelo.

— Nada. Vem cá.

Ela me olha desconfiada, as sobrancelhas franzidas. Sorrio para dar-lhe confiança, estendendo a mão. Ela se aproxima timidamente. Se ela soubesse como isso me atrai, como essa timidez me fascina. E se senta ao meu lado no sofá.

— Então, o que você quer?  pergunta, encostando a cabeça no encosto.

— Só a sua companhia.

Ela sorriu e deu um soco de leve no meu braço.

— Você está bêbado.

— Só um pouquinho.

Ela fixa seu olhar na TV, fingindo assistir. Eu fixo meu olhar nela. Tão bela, tão doce. Seu cheiro de baunilha infiltrando minhas narinas, substituindo o gosto amargo de Candela. Me vejo inclinando na sua direção e cheirando seu cabelo, aspirando a essência dela. Ao qual ela me fita surpresa, os olhos arregalados.

— O que foi, Andrew?

— Senti sua falta. Hoje o dia foi longo demais sem você.

Ela sorriu. O sorriso mais lindo do mundo, que ilumina meu peito. Sem pensar, eu puxo ela para o meu colo. Meus braços servindo de grade em torno dela, a prendendo, a protegendo. E meus lábios reivindicam os dela com urgência, não como uma transação, mas como uma oração. Assustadoramente, no meio daquele beijo doce, eu me dou conta de algo. Não é mais desejo, não é mais obsessão. Eu estou completamente apaixonado por esta mulher.

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