Com Andrew me confortando, a tempestade que assolava meu peito foi diminuindo aos poucos. As lágrimas secavam, os soluços cessavam, e o abismo onde eu havia caído começava a parecer menos profundo. Ele ficou calado todo o tempo, apenas me fazendo companhia, um porto seguro em meio à minha dor. Eu não podia nem contar o tamanho da minha gratidão, a forma como ele me segurava, sem julgamentos, sem pressa. Mas eu sabia, lá no fundo, que seu silêncio não duraria para sempre e que logo eu teria que me explicar. Teria que dar voz ao monstro que viveu no meu passado.
- Estou aqui, Savannah. Você pode confiar em mim. ele diz, a voz baixa e firme.
- É complicado, Andrew... A minha mente...
- Nada é complicado, Savannah. Somos nós que complicamos as coisas. Nós damos poder aos fantasmas.
Estranhamente, naquele quarto iluminado apenas pela luz tênue do abajur, eu sentia que em Andrew eu podia confiar. Que a parede que eu havia construído ao redor do meu coração, tijolo por tijolo, podia, finalmente, ser derrubada. E então, pela primeira vez, respirei fundo e falei aquilo que por anos eu trancafiéi no mais profundo do meu ser.
- Quando eu tinha dez anos, meu pai morreu. Vítima de tuberculose. comecei, a voz embargada. - Ele era meu porto seguro, a pessoa que eu mais amava no mundo. Ele dizia que eu era a princesinha dele, que eu era o seu universo. Eu não consegui aceitar por muito tempo que meu pai havia morrido. Eu sempre achei, de forma ingênua e desesperada, que ele tivesse ido viajar. Que a qualquer hora a porta da nossa casa se abriria e ele chegaria, sorrindo, com aquele urso de pelúcia que ele tinha me prometido. Mas... em um belo dia, a realidade me atingiu. Minha mãe trouxe para casa um homem. Disse que ele seria meu novo pai. Foi ali, naquele exato momento, que eu entendi, da forma mais cruel possível, que meu pai não voltaria nunca mais.
As lágrimas retornaram ao meu rosto, quentes e incessantes. Lembrar de meu pai fazia com que renascesse em mim toda a dor amputada pela sua partida. Andrew me abraça com força, me puxando para perto, me consolando com o calor de seu corpo.
- Se você não quiser continuar, eu entendo. Nós podemos parar agora.
- Não. Neguei com a cabeça contra o peito dele. Pela primeira vez, eu quero falar. Tirar isso de dentro de mim, antes que me engula por completo.
- Está bem. Mas saiba que estou aqui agora. Você não está mais sozinha nessa, Savannah. Nunca mais.
- No início, meu padrasto fazia de tudo para me agradar. Mas eu repelia tudo. Ele não era meu pai e estava tentando roubar o lugar dele no meu coração, um lugar que já estava vazio e sangrando. Minha mãe apoiava ele em tudo. Ela pedia, implorava, para que eu o tratasse bem. Ela saía para trabalhar e me deixava sozinha em casa com ele. Ele ligava a TV e sempre me pedia para assistir com ele filmes indecentes, cheios de cenas que eu não compreendia. Eu não queria, me sentia suja só de olhar. Mas ele dizia que se eu não ficasse ali, contaria para minha mãe que eu estava sendo malcriada e desrespeitosa. Eu não entendia nada daquilo. Pouca coisa eu assistia, aproveitando que ele estava muito entretido com a tela, e sempre que podia, saía correndo. Eu ficava na rua, sentada na calçada, até minha mãe chegar em casa.
- Canalha. Andrew murmura contra o meu cabelo, a raiva vibrando em suas palavras.
- Quando eu fui ficando mocinha, comecei a notar os olhares que ele me direcionava. E não era nada paternal. Era algo que me dava arrepios, algo que me gelava a alma. Eu tinha medo, muito medo. Quando minha mãe saía, eu ficava trancada no meu quarto, fingindo que ele não existia. Um dia, quando saí para comer alguma coisa, me surpreendi com ele me esperando na cozinha. Ele me pediu para sentar ao seu lado, disse que tinha que me contar uma coisa. Eu obedeci, com o coração na garganta. Então, ele começou a passar a mão na minha perna, lentamente. Eu entrei em pânico e tentei levantar mas ele não deixou. Ele me segurou com força, uma mão de ferro, e continuou passando a mão em mim. Eu a essa hora chorava, soluçando, pedindo para ele parar. O que me salvou foi minha mãe, que chegou naquela hora. Claro que ele disfarçou, soltou-me e fingiu estar brincando. E minha mãe, cega por aquele novo amor, acreditou nele.
- Por que você não contava para sua mãe, imediatamente? indaga Andrew, segurando meu rosto com as mãos, fazendo-me olhar em seus olhos.
- Eu contei. E sabe o que eu ganhei? A amargura na minha voz era palpável. Ganhei um tapa na cara e ela me chamou de mentirosa, de doente . Disse que eu estava inventando isso porque não aceitava que ela fosse feliz com outro homem. E me disse, com a maior frieza do mundo, que eu tratasse de aceitar, pois ela iria continuar com ele e que eu não fizesse ela escolher pois teria uma surpresa.
Depois disso, a minha vida se tornou um inferno. Ele me perseguia para todos os lados. Me proibia de ter amigos, de sair na rua, de falar com quem quer que fosse. E minha mãe concordava com tudo. Ela o via como um disciplinador. No final, eu não sei quem odeio mais, se a minha mãe, que me entregou ao monstro, ou o próprio monstro.
Ele começou a entrar no meu quarto de noite. Tentava me tocar, me arrastar para fora da cama. Mas eu chutava, eu mordia, eu gritava. Fingi, por um tempo, que não era eu a causadora daquelas cicatrizes nele. Tornei a falar com minha mãe, desesperada, mas desta vez ela não mudou de opinião.
- "Não diga nada, Savannah. Não posso acreditar que você está começando com isso de novo. Tudo o que o Augusto quer é ser um bom pai para você." imitei a voz dela, sentindo o gosto metálico da traição.
- "Eu já tenho pai e não preciso de mais nenhum!" respondi, com a mesma fúria que tive anos atrás.
Então, um dia, minha mãe levantou de noite. Acredito que tenha ouvido meus gritos. Ela abriu a porta e viu o meu padrasto, Augusto, me segurando em cima da cama. E sabe o que ela me disse?
Ela não me abraçou como eu esperava e também não o expulsou. Ela olhou para mim e disse:
- "Isso é culpa sua. Você que vive provocando ele. Sua vagabunda."
A frase ecoou na minha mente, destruindo o que restava da minha infância. E ela continuou com ele. Ela virou as costas, fechou a porta do quarto deles, e eu fiquei lá. Ou seja, ela o escolheu. Ela preferiu o monstro à própria filha. Então, a noite, quando todos dormiam, o coração pesado de uma menina que perdeu tudo, eu arrumei minhas coisas em uma mochila, abri a porta da frente e fui embora. Eu fugi.
__Me desculpe pelo vexame daquela hora, Andrew. Enxuguei as lágrimas, envergonhada por ter desmoronado daquela forma. - Eu acabei vendo aquele monstro em você. Eu sei que você não tem nada a ver com isso. Mas só que depois disso tudo, eu fiquei com traumas terríveis de toques. Você é a primeira pessoa com quem eu me relaciono de verdade. E... bom, as vezes é difícil, sabe? Depois de tudo que eu passei, de tudo que eu vivi, eu...
- Eu entendo perfeitamente, querida. Ele me olha com uma ternura tão profunda que quase quebra meu coração de novo.
- Se você quiser, posso marcar uma psicóloga. Uma boa profissional, para te ajudar a lidar com isso.
- Eu acho que vou querer. Sussurrei, sentindo um alívio inimaginável ao dizer sim.
- Sabe o que tenho vontade? O tom de Andrew muda, ficando sombrio, perigoso. É de encontrar esse desgraçado e espancá-lo até a morte. Fazer ele pagar por cada lágrima que ele fez você derramar .
- Deixa para lá, é... já passou. Não vale a pena.
- Ele continua morando com a que diz ser sua mãe?
- Não sei. Depois que vim embora, não soube de nada mais. Cortei todos os laços.
- Você tem que denunciá-lo por assédio. Pelas agressões.
- Ah, Andrew... mexer com tudo isso só me faz lembrar de tudo que passei, e eu não quero reviver aquela noite.
- Depois falamos disso, então. Agora, venha deitar.
Andrew estendeu seus braços fortes, e eu fui, confiante e segura, deitar ao seu lado. Enrolei-me nele, com a cabeça aninhada no seu peito musculoso, ouvindo a batida forte e constante de sua vida. Logo, os pensamentos ruins se dissiparam, e adormeci tendo como canção de ninar o batucar incessante de seu coração, que me protegia, que me curava.
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UM ANO Para Te amar
RomansaSavanna nunca teve uma vida fácil teve que sair de casa aos 15 anos para poder fugir dos assédios do seu padrasto. Andrew no passado foi traído por a única mulher que amou então a partir daí decidiu que jamais voltaria a amar, as mulheres seriam...
