Vozes da minha cabeça

612 26 13
                                    

"A minha consciência tem milhares de vozes, / Cada voz traz-me milhares de histórias / E de cada história sou o vilão condenado" 

(William Shakespeare)

Taps; cara afim. Solteiro. Conversa. 19. De boas.

Dia 30 de Setembro 13:00

Os caras são realmente uns idiotas. O que eles têm na cabeça? Acho que merda, mas quem sou eu para julgar ... finalmente eu fiz um perfil nesse aplicativo de merda também. Sou igual ou pior que eles. A única diferença entre nós é que sou contido. Sem chance de pedir nudes ...

Mal acessei meu perfil e três caras já me pediram fotos íntimas. Eu não mandei. Nunca. Vai que cai na Internet? Como explicar isso aos meus amigos? E aos meus pais? Caso algo desse tipo ocorresse comigo, tenho certeza de que iria morrer, se bem que o mais provável seria que meu pai me matasse. Minha mãe jamais entenderia, acharia que sou uma aberração, uma vergonha, um pervertido, um desviado, um degenerado, uma ovelha perdida. Já meus amigos ...

Não sei por que fiz essa conta. Não faz tanto sentido assim se encontrar por um aplicativo de pegação. Seria bom com alguém conhecido. Seria incrível, na real. Um lance mais íntimo, algo onde pudesse  rolar carinhos, beijos, compreensão, alguém que pudesse me completar ...

Peraí, eu pensei isso mesmo? EU PENSO ISSO MESMO? NÃO, calma. Não sou assim. Sou? Não. Não pode ser. Eu nunca senti algo assim antes, então acho que deveria ser apenas curiosidade de um adolescente. Já fiquei com garotas, sem fazer esforço algum. Elas vêm até mim e eu fico. Só isso! Nada mais do que isso. Algumas pediram para namorar e eu disse com seriedade que não estava preparado para nenhuma relação agora ... mas não sei se isso é realmente verdade.

Pensando bem, toda vez que converso com Jonas depois de ficar com uma garota - ele está namorando com Eva - ele me pergunta se eu fico excitado. Quando ele me perguntou isso pela primeira vez, fiquei completamente horrorizado - nossas conversas nunca tiveram passado de coisas banais. Nunca falamos sobre sexo (entre mim e ele não), mas entre Jonas e os outros sim. Aliás, é só sobre isso  é que eles conversam, o tempo todo e de forma obsessiva. Isso é constrangedor, será que eles não pensam em mais nada além de sexo? Para não desesperar comentários e perguntas, as quais não saberei responder porque simplesmente não tenho respostas para determinadas questões, eu só me limito a rir e observar. Às vezes chego a concordar, mas sem emoção. Percebo o quanto essas conversas os excita,  o que contribui para eu me sentir ainda mais estranho e deslocado.

Mas eu sou um bom ator, foi assim que cheguei até aqui. Afinal, a minha casa foi minha primeira grande escola de teatro, pois desde cedo aprendi a arte de fingir. Fingia que as brigas  entre meus pais não me abalavam, também fingia que não me interessava onde meu pai dormia certas noites  quando saía de casa e voltava só no dia seguinte (ou na próxima semana), enquanto minha mãe se trancava no quarto, chorando dolorosamente agarrada em seu álbum de fotos. Também fingia que não me afetava o fato de minha mãe parecer cada vez mais distante da realidade, chegando a ficar dias sem comer e se recusando a tomar banho.

Levando em conta este meu brilhante currículo cênico, é moleza fingir para meus amigos que sou um grande apreciador do sexo feminino, um Don Juan, um expert em azaração e conquistas improváveis. Em alguns momentos a conversa deles me distrai, mas mereço um desconto, ninguém em sã consciência fica falando em sexo mais de 8 horas por dia, será que eu deveria lhes dar um toque para que procurassem ajuda profissional? Tanta obsessão por peitos não deve ser normal. Quem sabe aquela psicóloga estranha da escola não consegue propor um tratamento eficaz para esta compulsão quase animalesca que meus amigos sentem por fornicação?

Ser ou Não SerOnde histórias criam vida. Descubra agora