Déjà vu

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"Todos erram um dia: por descuido, inocência ou maldade."

(William Shakespeare) 

Isso não pode ser verdade. Só poderia estar muito pirado para concordar em colocar em prática uma ideia do Magnus. A única explicação é que eu só poderia mesmo ter perdido o sentido de direção para topar uma ideia tão besta quanto essa, mas Jonas e Madhi acabaram colocando tanta pilha que eu, movido pela adrenalina de meus amigos terem encarado de boa minha revelação, me enchi de coragem e agora eu estava aqui, escondido atrás desta estante de livros feito um clandestino num navio. 

Magnus me contou que Even estava fazendo um estágio na biblioteca da escola no contraturno e que poucas pessoas entravam ali,  assim eu poderia conversar de boa com ele sem ser interrompido e, de quebra, ele também não poderia fugir porque não poderia simplesmente abandonar o posto de trabalho. 

     Por isso agora eu estava aqui, camuflado entre os livros de Botânica e Ecologia e com o coração batendo mais rápido que as asas de um beija-flor. Eu já havia tentado dar meia volta e sair sorrateiramente daquela sala, mas assim que eu o vi, entretido em arrumar a estante de História Medieval, fiquei como que pregado no chão. O que aquele cara tinha que conseguia ser tão sexy até mesmo colocando livros embolorados numa estante? Eu me permiti sugar esta imagem como se meu ar dependesse apenas disso. Não era nada ético ficar ali observando uma pessoa sem que esta soubesse que era alvo de interesse, eu me sentia um vouyer tarado de um filme de quinta categoria, mas eu só queria desfrutar um pouco mais deste calor reconfortante que somente a visão dele me proporcionava. 

Zum Zummmmmm Zummmm... 

NÃO... PELO AMOR DE DEUS

So please don't, please don't, please don't

There's no need to complicate

Cause our time is short

This oh this oh this is our fate,

I'm yours!

Retirei desesperadamente o celular da jaqueta. Maldição! Eram os meninos me ligando, na certa para saber como eu estava me saindo. Como se não fosse constrangedor o bastante que o toque de meu celular fosse a canção I'm Yours do Jason Mraz, bati com as costas em um prateleira e lá se foi uma fileira inteira de Genética para o chão. 

     OH.... DEUS!!!!!!!

Eu ainda estava considerando entre a possibilidade de recolher os livros ou correr, quando Even aparece no corredor entre uma estante e outra e se depara comigo, que estou mais assustado do que uma criança que acabou de quebrar o vaso preferido de sua avó. 

Não consigo ler o que se passa em seus olhos quando percebe que o desastrado em questão sou eu, pois rapidamente ele se abaixa para pegar os livros. Eu me agacho a sua frente para ajudá-lo.

- Me desculpa, eu .... desculpa eu ...esbarrei na estante e... 

Entre um livro e outro que recolhemos eu toco em sua mão "sem querer". Even me olha assustando, ele ficou vermelho? 

Rapidamente ele se recompõe, levanta-se e começa a recolocar os livros na estante. Ficamos em silêncio enquanto ele ajeita a prateleira, algo me diz que ele está colocando os livros aleatoriamente, sinto que ele está tão nervoso quanto eu. 

    Instantes depois ele me olha de maneira inexpressiva, já havia recuperado o controle da situação, eu, no entanto, sinto um misto de desespero, angústia, frustração e tesão... cara...eu sou definitivamente muito gay! 

    -Em quê posso ajudá-lo?

    - Como?

    - Aqui é uma biblioteca...suponho que está precisando de algum livro. - Sua voz sai seca e cortante. 

Ser ou Não SerOnde histórias criam vida. Descubra agora