"O horror visível tem menos poder sobre a alma do que o horror imaginado"
(William Shakespeare)
9 de outubro (domingo) 11: 32
Depois desse encontro desastroso com Sebastian, há três dias, eliminei o aplicativo, desativei o celular e me escondi na caverna obscura do meu quarto. A vergonha me impedia de colocar até mesmo a cara na janela, eu me limitei a ir do quarto para o banheiro, do banheiro para cozinha e assim num ciclo vicioso que chegou a chamar até mesmo a atenção de minha mãe que vive num mundo totalmente a parte.
Um misto de culpa e raiva me corroíam por ter aprontado aquela xaropada com Sebastian. O que o cara pensaria de mim? Por mais que eu tentasse ativar o Isak egoísta, não conseguia me desvencilhar do sentimento de culpa por sacanear daquela maneira um cara como ele.
Poderia não parecer, mas eu tenho sim um coração e nada me agrada ou fato de ter agido de forma tão estúpida com uma pessoa que parecia tão bacana. Sebastian era um cara legal e o fato dele ter conversado comigo tão abertamente, sem medo de expor sua vida e compartilhado sua experiência, conquistou minha confiança. Além disso, ele realmente parecia se importar comigo, ouviu minhas angústias atentamente, procurou entender essas questões tão complexas que vêm me atormentando há dias e eu fiz o que ... ??? Fugi feito uma galinha desesperada.
Mas quando aquele garçom encostou na mesa, que por sinal pertence a mesma escola onde estudo, perdi os sentidos e passei a agir feito uma criatura desprovida de razão. Não era a primeira vez que isso acontecia quando este cara estava por perto, mas agora, com o agravante do medo de ser descoberto, troquei os pés pelas mãos e protagonizei uma cena pra lá de bizarra e vexatória.
O que eles pensariam de mim? Que sou um idiota? Um moleque irresponsável? Um bebê? Deixei Sebastian sozinho no bar... que fiasco! Aliás, eu sou um fiasco! Sinceramente, um cara tão legal não merecia isso, mas nem coragem de pedir desculpas eu tenho.
E... se o fato de eu ter dado no pé daquele bar tivesse aproximado Sebastian de Even? Afinal, Sebastian aparentou estar muito empolgado com ele...e se ...e ...se... se eles terminaram a noite juntos? Merda... sinto uma dor oca na boca do estômago. Que sentimento é este? Prefiro nem tentar investigar porque já tenho problemas demais para me preocupar.
Mas aqueles olhos, aquele sorriso... caralho... eles me desconcertaram de uma maneira que eu não conseguia entender. O que aquele cara tinha que deixava todo mundo enfeitiçado, inclusive eu (hã????)... Desde que chegou na escola, há pouco tempo, já conquistou a confiança dos veteranos e a admiração dos calouros.
Puta que pariu, este cara me viu em um momento para lá de comprometedor, com Sebastian tocando meus cabelos e segurando minha mão. Por mais que eu me esforçasse, não havia desculpa para isso. Eu poderia me aproximar de Even, ver se ele tocava no assunto e assim eu poderia inventar alguma mentira, mas qual? Que Sebastian era algum parente renegado pela família e eu fui até lá reconfortá-lo.... num bar gay? Que Sebastian era um maluco que estava me perseguindo e eu fui até lá para exigir que me deixasse em paz... num bar gay?
Pare de histeria, Isak... respire fundo e coloque a cabeça no lugar. Primeiramente, que história é essa de você querer jogar a culpa em Sebastian? Está mais do que claro que você é sim um covarde, mas fazer isso com um cara que foi tão bacana contigo... isso é o cúmulo da canalhice. Em segundo lugar, você já não é mais criança, já está mais do que na hora de começar a assumir seus atos. Seja honesto, seja forte, seja firme!...
Mas se Even não fosse assim tão honesto? E se para fazer uma graça ele resolvesse contar esta história pitoresca na escola? Muita gente já o admirava, por outro lado meus amigos acreditariam em mim, eu sempre tenho boas desculpas e eles sempre aceitam qualquer merda que eu diga... mas eu também poderia pedir que dessem um jeito em Even, quem sabe um susto... Jonas era bom de briga...
Cara...lá estava eu pensando merda de novo! Que ideia mais baixo nível era esta? Eu decididamente deveria ter um anjo e um diabo pendurados nos meus ombros, cada qual em um ouvido, e que não paravam de trabalhar nem um segundo.

VOCÊ ESTÁ LENDO
Ser ou Não Ser
Hayran Kurgu"Medos, dúvidas e questionamentos. Isak é o Hamlet do século XXI, um adolescente comum que enfrenta os mesmos dramas de milhares de jovens de sua idade. No entanto, para agravar sua situação, ele passa a questionar seriamente sua sexualidade, quando...