"Problematização é como Foucault definiu sua pesquisa: é um jeito de olhar para objetos e situações comuns com um distanciamento necessário para que haja uma desnaturalização, uma desconstrução das noções de verdadeiro/falso, certo/errado, bonito/feio, etc. Esse distanciamento nos permite repensar o que é normativo, questionar de onde surgiu e como essa normatividade não é uma verdade absoluta, e sim algo criado a partir das vivências, é algo criado por nós em certa época sob certa circunstância, criado socialmente, algo que perderá seu significado com a passagem do tempo. (...)"
— UFRGS: Julianna Coutinho e Luiza Petry.
Luhan estava sentado na mesa, essa que ficava no meio da cozinha enquanto seu notebook velho repousava em cima da tábua de madeira riscada. Sua avó dormia no sofá ao lado, e de tempo em tempo, ele virava a cabeça para fita-la. A senhorinha de longa data estava doente há tempo demais, mais do que ele gostaria.
Na tela do computador o ômega procurava por um tratamento mais barato para a doença sanguínea de Lumei, era o mínimo que poderia fazer por ela, já que sempre cuidou da casa, do que restou da família.
Luhan foi abandonado pelos pais. Sua mãe, também ômega, o deixou na porta da casa de sua avó, desaparecendo depois disso. O chinês nunca soube se ela havia desaparecido com o seu pai, ou ambos simplesmente abominaram a ideia de ter um filho e por isso largaram ele na porta da casa da senhora. Depois de tanto tempo isso não importava mais. Agora com vinte e cinco anos, o ômega cresceu, aprendeu a dar valor as pequenas coisas, e isso incluía sua doce e gentil vovó.
— Luh, querido... — ele a ouviu resmungar, remexendo-se no sofá enquanto esticava um braço para alcançá-lo.
Luhan se ergueu, ignorando a busca no notebook, dando toda a sua atenção a ela.
— Vó? A senhora está se sentindo melhor? — sorriu gentil, agarrando a mão enrugada enquanto procurava um cantinho para sentar, próximo da cabeça dela — Já está com uma cor melhor, a senhora quer comer?
Ele tentava ao máximo ser forte, mas começava a ficar difícil. Todas as vezes em que olhava para ela abatida daquele jeito, sentia um aperto em seu coração.
Luhan não pôde fazer uma boa faculdade, assim que saiu da escola já foi trabalhar. Como eram eles dois em casa, sua avó não poderia fornecer todo o sustento a base de sua aposentadoria.
Sonhos não eram sonhados para o chinês, ele aprendeu a abdicar dos mesmos desde sempre.
A sociedade também não era gentil, ômegas eram sempre subestimados e geralmente não conseguiam grande sucesso profissional. Tudo foi somando e contribuindo para que Luhan desistisse de tentar se formar naquelas condições.
— Querido, faça o mais fácil para você — ela esboçou um pequeno sorriso, fazendo o peito de Luhan se aquecer e doer ao mesmo tempo — Graças a Deus eu tenho o meu neto — apertou sua mão na dele.
O ômega abaixou-se para dar um beijo na testa dela, se ergueu do sofá e foi para a pequena cozinha, tentaria fazer um macarrão integral com legumes para que pudessem comer, nada muito difícil. Enquanto isso, sua mente agitada tentava resolver os problemas, tentava encontrar um meio para conseguir mais dinheiro para o tratamento dela, sua avó era preciosa demais e ele não saberia viver sem sua existência. Fechou os olhos, respirando fundo e rezando. Uma lágrima escorreu pela sua bochecha enquanto terminava de pegar os ingredientes, ele teria que ser forte por ela.
Luhan foi demitido do último emprego, estava trabalhando há três anos, mas de repente houve cortes nos funcionários então estava fora da empresa. O que os mantinham um pouco mais eram os benefícios que lhe restou, mas o dinheiro uma hora ou outra iria acabar, e ele precisava pensar em algo, muito, muito rápido.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Baby Doll
Hayran KurguUma situação desesperadora, uma ideia doentia. Luhan resolve comprar uma peruca e um vestido, mandando em seguida um formulário preenchido para uma agência de modelo sul coreana que só aceitava mulheres. O pior de tudo não foi ter a ideia e sim desc...
