parte onze - última.

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       "O amor será sempre o motor."

17 de maio de 2020.

O incomodativo som provido do relógio despertador provocou o indesejado acordar de Maria que, ainda que não, completamente, liberta do sono, tateou a superfície da sua mesa de cabeceira, com o propósito de cessar o ruído, todavia, uma mão sobrepôs-se à sua, extraindo-lhe um genuíno e amplo sorriso, exatamente, por conhecer a identidade do sujeito que repousava no seu flanco.

       — Bom dia. — Uma cavernosa voz — e a sua predileta —, penetrou-lhe os tímpanos, provocando-lhe um visceral arrepio, que bailou pela extensão da sua espinha.

Preguiçosamente, inverteu a sua posição, para que dispor-se de modo frontal para Diogo, que já lhe presenteava com o seu, naturalmente, atraente e bonito sorriso.

       — Bom dia. — Correspondeu à saudação, conduzindo os seus lábios aos dele, num breve, mas terno, carinho. — Estás preparado para a realização do teu último tratamento de radioterapia? — Inquiriu-o, enquanto o seu verde-água analisava a tonalidade castanha que assinalava uma porção do seu peito e a parte ântero-superior do pescoço, por consequência de serem aqueles os lugares visados pelos raios.

       — Claro. No entanto, já não posso dizer o mesmo de uma noite como a de ontem. Já não estou familiarizado com serões prolongados. — Patentemente humorado, o camisola quatro da principal formação sob o comando técnico do treinador de profissão, Sérgio Conceição, gracejou, referenciando a comparência do casal no Queimódromo, a fim de desfrutar do último dia do notável evento académico, na companhia do grupo de amizades universitárias no qual se inseria Maria, e a quem se uniram estudantes providos das mais diversas faculdades, de inúmeros pontos do país, como a cidade de Lisboa, Coimbra e Braga.

Estás a soar como um avô, Leite. Que fraquinho... — A sua tentativa de escárnio foi descontinuada, assim que o futebolista português colocou-se sobre o seu corpo, ainda que de maneira a não causar-lhe qualquer dano físico.

       — Posso, rapidamente, fazer-te engolir essas palavras, e não só. — Perante a sentença, disposta no seu ouvido, com uma rouquidão e sedução que causaram o irrefletido suster da sua respiração, a irmã de Francisco cerrou as suas pálpebras, enquanto empregava a integralidade dos seus esforços, a fim de não subjugar-se às nítidas intenções do jogador, e que correspondiam às suas. Todavia, a presença dos seus progenitores e do irmão na habitação eram o primordial motivo pelo qual conservava um resquício de racionalidade.

Eu sei. — A finalista do curso de enfermagem acabou por admitir, enquanto a sua boca rasava pelo largo, e exposto, ombro do colega de balneário do capitão Ivan Marcano. — Mas as pessoas e o tempo não nos permitem. — Aditou, referenciando os membros do seu grupo familiar e, sobretudo, a necessidade de se deslocarem em direção ao hospital, a fim de o profissional na área do desporto-rei executar a sua sessão final.

Mal posso esperar para estarmos sozinhos. — Num baixo volume, o internacional português confessou, desejando o momento em que o casal se deslocaria para a região do Gerês, com o propósito de desfruir de um tempo apenas os dois, após a disputa da Taça de Portugal, que colocaria frente a frente os antigos, e eternos, rivais, Futebol Clube do Porto e Sport Lisboa e Benfica.

Confesso que não consigo, igualmente, ser paciente quando se trata da nossa primeira viagem juntos. Apesar de honrar as, sempre, especiais ocasiões com as nossas famílias e amigos, sinto que carecemos de estar a sós. E estou ansiosa pelo fim do mês. — Compactuou com o tripeiro de coração, que, mais uma vez, lhe presenteou com um chocho. — Agora, por favor, sai de cima de mim, seu gordo, para que nos possamos aprontar. — Gracejou com o namorado que, prontamente, atendeu à solicitação da jovem, regressando ao lado da cama, onde havia desfruído de um profundo, e agradável, descanso.

Maria | Diogo Leite Onde histórias criam vida. Descubra agora