— Menino, escute bem. O que aconteceu ontem, foi ontem. Nada de bater com a língua nos dentes quando chegarmos na feira... Senão nós morre. O que você vai falar?
— Nada painho. Já esqueci.
— Muito bem. Garoto esperto. A visita de Lampião em nossa casa foi uma coincidência.
— Eu sei painho.
— Há muita maldade nesse mundo de meu Deus. Pessoas que vendem as outras por um punhado de farinha. — João, olha para o pai, mas fica encandeado com o sol das nove horas. Os dois caminham pelo árido sertão, com seu Biu levando suas colheitas em cestas grandes feitas de cipó, sobre o dorso de um jegue.
— Tô com sede. — Revela o menino.
— A cabacinha está dentro da cesta de inhame.
— Mas, tem pouca água meu pai. E o senhor?
— A cidade está perto. Eu bebo água quando chegarmos na cidade. — seu Biu passa a mão direita nos cabelos crespos e grande de João. — Você tá fedendo menino.
O olhar do João para o pai é impagável. Ele olha para seu Biu com uma das sobrancelha levantada como quem diz: "Não tenho quase água para beber, quanto mais tomar banho?".
— Você é um menino esperto. Nunca esqueça meu filho... Todo dia sai de casa um sabido e um trouxa.
O menino franze a testa.
— Eu prometo meu pai que nunca serei o trouxa. — João fala com os punhos cerrados.
— Nunca faça promessa que não pode se cumprir. Homem que é homem não joga palavras ao vento. Quando você prometer algo, vá até no inferno para cumprir. Por isso seu pai é respeitado. O que ele promete, ele cumpre.
— Eu entendi painho. É por isso que quando crescer quero ser igual ao senhor.
— Quer ser igual a mim? Seja melhor!
Os dois param de conversar um pouco por causa do cansaço e da boca seca.
E a boca seca mexe com o juízo da pessoa. O corpo liga toda impaciência que um ser-humano possa ter, avisando continuamente que precisa de água.
A mente perde a razão até se auto-sabotar, apagando-se com um blackout.
A cidade de Luzeiros não é grande, mas, é muito movimentada nas terças-feiras. É o dia da feira. É o dia que os cinco caminhões pipas, quadrados, chegam abarrotados de água e seguidos por duas viaturas com cinco "Volante" em cada um.
A Polícia Militar, que tem um grupo de policiais chamado de "Volante" e foram criados para defender o sertão das invasões do cangaço nas cidades interioranas.
Para muitos Lampião é um "Robin Hood", tirando dos ricos e dando aos pobres.
Para outros um mal que precisa ser extirpado rapidamente. Lampião sempre foi e sempre será uma figura polêmica.
Na capital pernambucana, os que vivem dentro da Faculdade do Recife, brincam dizendo que ele, Maria Bonita e seu braço, Catitu, se combinam na cama.
Verdade ou não, pouco importa. Cada um viva sua vida, mas, que o apelido "Catitu" foi dado carinhosamente por Maria Bonita a Luis Pedro Cordeiro, isso foi.
No meio da cidade a feira acontece até pertinho de escurecer, haja vista a grande maioria das pessoas que vem das circunvizinhanças para comprar ou vender, terão que voltar caminhando léguas na escuridão iluminada apenas com seus lampiões de querosene.
Pai e filho param na entrada da cidade. Seu Biu olha para o boteco chamado "Pinga Fogo". Além de ser o maior bar da cidade, o "Pinga Fogo" também tem um corredor, logo após a última mesa do bar, com seis quartos de cada lado, para acalentar os viajantes que precisam resolver suas necessidades sexuais.
Quem está no salão escuta o som ambiente feito dentro dos quartos. Se todos estiverem ocupados... É muito "fode" para lá e para cá.
O "Pinga Fogo" está desse jeito quando pai e filho entram no recinto. Todos que estão sentados nas dez mesas com quatro cadeiras de madeira, param o que estão fazendo e olham para os dois.
Fazendo um gesto com sua cabeça, seu Biu pede licença tirando o chapéu de palha e caminha com seu filho do lado até o balcão.
— Por gentileza eu quero dois dedos de água que passarinho não bebe e encher essa cabacinha com água normal.
O atendente e dono do bar é conhecido por todos por seu Bieira, apelido este que evoca à uma ferida na perna suja, cheia de mosca e larvas. Mas, seu Biu nunca o trata pelo apelido e nem pelo nome verdadeiro porque não sabe.
O homem de cabelos lambidos pelo suor, colarinho cinza de grude e camisa banhada nas axilas com imensas poças de suor, coloca primeiro a pinga e depois segue para encher a cabacinha com água fervida.
Seu Biu paga o que pediu com duas moedas de prata colocadas sobre o balcão e manda seu Bieira zerar sua conta no caderno de capa azul com o troco e jogar a sobra do dinheiro para abater futuras compras.
O dono do "Pinga Fogo" demora a pegar as moedas, calculando quanto ficaria de crédito para seu Biu... E quando chega a um denominador comum, arrasta as duas moedas como uma serpente que engole um sapo.
— Que venda muita macaxeira e inhame hoje. — Fala seu Bieira desejando o que é bom para seu Biu com um tom de voz nada sadio.
— O que é "fode mais" painho? — Pergunta João ao pisar o chão fora do "Pinga Fogo". Seu Biu levanta as duas sobrancelhas de uma só vez, procura um cigarro de palha nos bolsos para fumar.
— É quando o homem está saciando seus desejos carnais, menino.
— Mas, quem gritava eram as mulheres.
— É a maneira que as bexiguentas fazem para atiçar o otário e terminar logo o serviço e passar para outro.
João, não entende nada do que sei pai acabou de explicar. Seu Biu percebendo a confusão que deixou na cabecinha do menino diz:
— Qual o aviso que lhe dei mais cedo?
— Que todo dia sai de casa um sabido e um trouxa?
— Exatamente... Garoto sabido esse.
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ALMA LUPINA - "Venha, entre e sirva-se" - Lançado em 24/03/2021
HorrorSete mulheres. Uma loba. Uma Alma. 1934. 24 de Dezembro... Natal. Um pai viúvo e preso na cadeira de rodas recebe uma visita inesperada. Uma criança, no pior dia da sua vida, conhece uma Loba azul que se tornará sua melhor amiga. Morte...