Faz um mês que comecei a cuidar de novo da casa que um dia pertenceu a mim e a Marcelo. Confesso que parei de varrer o chão, de limpar os cômodos. A poeira se alojava confortavelmente nas prateleiras da estante.
Mas desde a conversa com Ricardo decidi limpar tudo. Arrumar o guarda-roupa, jogar fora a maior parte das minhas roupas. Emagreci tanto que nenhuma das minhas antigas roupas serviam em mim. Comprei algumas que pudessem mostrar meu novo corpo. Não gastei muito porque não sei o que o futuro me reserva.
Escovei o chão da cozinha até que o piso ficasse brilhando. O banheiro passou por uma grande limpeza. Toda esta faxina foi terapeutica. Até esqueci a minha tristeza.
Por último foquei-me no jardim. A grama, no quintal, parecia uma fazenda. Tinha crescido bastante desde a última vez que a cortei. O quintal estava maltratado tanto quanto a minha alma.
Primeiro, podei a grama. O sol brilhava e eu, de repente, senti-me viva de novo. Quando terminei o trabalho, entrei em casa, segui para a cozinha e abri um suco de laranja de caixa. Voltei ao quintal com o ar de satisfeita com o resultado do meu trabalho.
Dormi sonhando com meu pequeno pedaço de terra. Meu estado de espírito estava melhorando. Mas não posso dizer que eu me sentisse feliz por completo.
À tarde como toda pessoa sem ter o que fazer entrei na internet. Procurei Ricardo no facebook. Encontrei o perfil dele. Fucei tudo o que podia. Ele tinha muitas fotos com amigos mas nenhuma com alguma namorada. Não que eu tivesse interesse na vida amorosa dele.
Eu o adicionei no facebook. Em alguns minutos, ele começou a conversar comigo. Me perguntou se eu estava bem, o que eu estava fazendo. Conversamos bastante. Contei sobre a remodelação do jardim.
Ele me disse que gostaria de ver o jardim. Queria poder conversar comigo pessoalmente. Eu o convidei pra me visitar no coneço da tarde.
Ricardo chegou pontualmente. Percebi que tinha tomado banho. Usava uma fragância deliciosa e estava bem vestido como se tivesse escolhido a melhor roupa para sair. Perto dele me senti mal vestida. Fiquei com vergonha de não ter vestido uma roupa melhor.
Logo que abri a porta, ele me disse oi e me deu um abraço forte. Ingeri o odor do perfume dele. Eu quis que o perfume dele se entranhasse em mim.
Ele me olhou por alguns minutos e eu fique tímida. Nenhuma palavra saía da minha boca. Desta vez o vi sob uma nova perspectiva. Ele é o homem que está tentando me ajudar neste momento difícil da minha vida.
Alguns minutos se passaram e ele me perguntou se cuidar do jardim era um bom hobby.
Sentamos num banco no jardim de casa. Eu respondi que cada vez que regava uma planta o tempo passava mais rápido. Eu esquecia a desgraça que Marcelo me causou.
A conversa com Ricardo me revelou que eu não estou morta. A cada hora que passava ele tentava segurar minha mão ou tocar no meu joelho. Senti que meu coração batia mais rápido.
Não tive porém coragem de segurar a mão dele. Eu me senti como se estivesse traindo meu ex-marido. Era um pensamento totalmente irracional.
A noite chegou e ele teve que ir embora. Na porta me abraçou mais uma vez. Agora longamente como se não quisesse me deixar mais. Disse, ao final, que deveríamos sair à noite.
-Não. Eu nunca saí pra bar. Nem dançar eu sei, Ricardo.
- Não tem importância. Te convido pra gente ir jantar, espairecer. Tens que sair desta casa, te divertir! Te digo. Teu ar ainda é triste.
- Ricardo, eu sei. Não é de um dia pro outro que a gente se recupera.
Ele pegou a minha mão, beijou-a e indagou:
-Você está certa. Tem que dá tempo ao tempo.Percebendo minha timidez, disse:
-Não se preocupe, Solange. Eu não vou forçar nada com você. O momento não é bom.
- Ricardo, eu te prometo. Haverá o momento certo.Ele sorriu:
-Eu sei , Solange. Eu sei esperar.Nunca outro homem foi tão gentil assim.
No dia seguinte, meu espírito estava melhor. Comecei a pensar positivo de novo. A minha vida pode dar certo!
À noite ao chegar em casa, percebi que a luz já brilhava na sala. Isso só poderia ter um sentido. "Marcelo deve ter voltado", pensei comigo.
Abri a porta rápido e o procurei. Ele estava com uma cerveja na mão. Estava sentado na cozinha à mesa como um padre que vai dar más notícias. Quando me olhou, teve um ar de surpresa como.se visse uma outra pessoa. Ele me olhou dos pés a cabeça. Agora estava mais magra e usava roupas menos tristes.
-Solange, eu vou direto ao assunto. Aqui estão os papéis da nossa separação. Assine e podemos então vender a casa....
Desgraçado. Ele não me pergunta como estou ou o que faço. Nenhum interesse nem mesmo de amigo.
Com a maior acidez possível, peguei os documentos e assinei. Depois joguei-os no chão. Marcelo se irritou comigo.
- Tu estás agindo como uma criança
- E tu estás agindo como um rato.
- Eu, rato!
- Sim, seu rato. Marcelo, eu sei a verdade. Tu me traíste, seu ridículo.
Eu gritava. Tentei me controlar. Nãodeu. Lagrimei de raiva.
Marcelo baixou a cabeça e eu vi que estava triste.
- É verdade. Eu sou um rato mesmo. Aconteceu.
Eu levantei de onde estava e queria dar um murro neste idiota por ter mentido pra mim. Por ter se aproveitado da minha confiança. Eu estava em vias de gritar na cara dele quando o telefone dele tocou.
Ele atendeu o telefone. Parecia que quem estava na linha era a amante, perguntando como eu havia recebido a notícia. Eu o observava com desprezo. Este foi o homem que eu um dia amei. Agora é este estranho que não quer saber de mim.
Marcelo desligou o celular.
- Não vamos brigar mais, Solange. O que está feito está feito.
E, com isso, foi embora. Saiu sem nem menos dizer adeus.
Eu sentei no sofá da sala me sentido abatida. Onde moraria? quando eu me mudaria? O que fazer com os moveis...
Não sabia o que fazer. Estava perdida e decidi apelar para a única pessoa que poderia me dar bons conselhos: Ricardo.
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A separação
RomanceSolange Conceição é agora a sombra do que foi. Uma mulher triste depois que o marido lhe pediu divórcio. Uma história sobre como esquecer um amor antigo.